quarta-feira, 8 de julho de 2026

Preços no atacado ampliam baixa em junho e antecipam inflação menor

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 8 de julho de 2026 às 09:40

O comportamento mais recente dos preços tem sugerido uma acomodação relevante, antecipando uma tendência de esvaziamento gradativo dos focos que haviam elevado as taxas de inflação entre março e abril. Naquele período, as perspectivas inflacionárias haviam sido acirradas pela guerra detonada por Estados Unidos e Israel contra o Irã no final de fevereiro, com ataques israelenses ao sul do Líbano, o que resultou no bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passam perto de 25% do petróleo consumido pelo planeta.

A calmaria aparente naqueles conflitos e a perspectiva ainda frágil de alguma possibilidade de paz – o que nunca é de fato seguro quando se trata do histriônico presidente dos EUA – contribuíram para aliviar as pressões sobre os preços do petróleo, insumo estratégico e que exerce papel definidor para tendências inflacionárias ao redor do mundo, com reflexos sobre todo o restante das economias no cenário internacional. Nos mercados futuros, os preços do barril haviam estacionado ontem ao redor de US$ 72,03 para o petróleo tipo WTI (ou West Texas Intermediate, negociado principalmente nas bolsas estadunidenses) e mais próximos de US$ 76,08 para o Brent, tipo mais leve de petróleo (e, portanto, relativamente mais caro do que o WTI).

Nas últimas quatro semanas, as cotações baixaram 21,1% e 19,3% respectivamente para WTI e Brent. Na fase de maior tensão e turbulência, aquelas cotações haviam alcançado US$ 122,95 para o barril do WTI ao final a primeira semana de abril, indicando uma redução de 36,23% desde lá. No caso do Brent, a cotação do barril sofreu baixa de 35,72% em relação aos US$ 118,35 atingidos em 31 de março.

 

Para baixo

Certamente, os níveis mais reduzidos das pressões altistas no mercado do petróleo têm contribuído no processo de esmorecimento das pressões inflacionárias, autorizando inclusive a retirada pelo governo brasileiro dos subsídios adotados logo na sequência da guerra como forma de amortizar o impacto das altas dos combustíveis para o consumidor aqui dentro. Há dois dias da divulgação do Índice Nacional ao Consumidor Amplo (IPCA) de junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), programada para esta sexta-feira, 10, os indicadores sob a responsabilidade do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) parecem confirmar uma tendência de baixa para os custos nos mercados atacadistas e desaceleração no ritmo de alto dos preços cobrados do consumidor. A tendência de queda observada para os preços ao produtor e ampliada discretamente em junho apontam para uma perspectiva de inflação mais baixa na ponta final do consumo, o que já vem influindo nas projeções do mercado financeiro, ainda que de forma bastante modesta até aqui.

 

Balanço

O Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M), medido pelo Ibre, havia apontado alta de 0,84% entre 21 de abril e 20 de maio, com elevação de 0,91% para Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que entra com peso de 60% na composição do IGP, e elevação de 0,61% para o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que responde por 30% do IGP. Na aferição ocorrida entre 11 de maio e 10 de junho, o IGP-10 já havia anotado recuo de 0,30%, por conta da queda de 0,71% nos preços no atacado, com o IPC desacelerando para 0,56%.

A tendência de perda de fôlego dos preços aprofundou-se nos últimos 20 dias de junho. Nos 30 dias do mês passado, o Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI) registrou baixa de 0,79% e passou a acumular variação de 3,59% em 12 meses.

A baixa, como tem ocorrido ao longo dos períodos anteriores acompanhados pelo Ibre/FGV, foi ditada pela redução dos preços médios no mercado atacadista. O IPA passou a cair 1,36% nas quatro semanas de junho em relação a igual período de maio, registrando elevação acumulada de 2,91% em 12 meses.

Ainda no setor atacadista, os preços dos bens finais, que chegaram a registrar alta de 1,10% nos 30 dias encerrados em 20 de maio, anotaram um recuo de 0,05% nas quatro semanas de junho. Os bens intermediários ainda tiveram elevação de 0,02%, mas bem abaixo da alta de 1,43% registrada entre 21 de abril e 20 de maio.

As matérias primas brutas chegaram a subir 1,10% nas quatro semanas de maio, acima da variação de 0,43% nas quatro semanas encerradas no dia 20 daquele mês, indicando aceleração nos últimos 10 dias de maio. A tendência inverteu-se em junho, com os preços baixando 3,19%.

Considerando o setor de origem dos produtos, os custos na agropecuária baixaram 0,41% em junho e já haviam recuado 0,03% em maio. Houve inversão também nos preços dos bens industriais, que caíram 1,66% em junho, mas haviam subido 1,27% em maio.

Entre as principais altas no mercado atacadista, a pesquisa do Ibre/FGV destaca as variações de 2,58% para a soja em grão (saindo de recuo de 0,12% em maio); de 23,90% para os preços dos óleos lubrificantes (ligeiramente inferior ao aumento anterior de 24,59%); de 18,43% no querosene de aviação (numa desaceleração em relação ao salto de 51,68% registrado em maio). Houve perda de força também para os preços do leite in natura ao produtor, saindo de alta de 9,08% para 1,68% entre junho e maio.

Na coluna dos produtos que ficaram mais baratos, ainda no atacado, minério de ferro, óleo diesel, café em grão, cana e laranja apontaram reduções, respectivamente, de 4,12%, de 9,58%, de 8,68%, de 1,89% e de 8,15%.

Com a desaceleração no ritmo de alta (ou queda) nos grupos alimentação (de 1,29% para 0,47%), habitação (de 1,18% para 0,37%) e vestuário (de alta de 0,99% para baixa de 0,52%), o IPC passou a anotar variação de 0,36%, saindo de um aumento de 1,29% em maio.

O grupo transportes veio de uma baixa de 0,71% em maio para uma ligeira elevação de 0,10%, embora os preços do etanol e da gasolina tenham apontados baixas de 3,58% e de 0,20%.

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