Preços no produtor continuam em baixa apesar da turbulência global
A escalada dos preços do petróleo, com impacto direto no diesel e na gasolina, e o aumento mais recente dos custos de insumos agrícolas, principalmente fertilizantes e defensivos, vieram acompanhados de queda nos preços recebidos pelos produtores, antecipando pressões adicionais sobre as margens de rentabilidade das lavouras mais adiante, na hipótese de manutenção das tendências observadas nos primeiros meses deste ano por um prazo mais longo. Calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), o Índice de Preços ao Produtor de Grupos de Produtos Agropecuários (IPPA) registrou baixa de 9,79% ao longo do primeiro trimestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2025, caindo 4,30% na saída do quarto trimestre de 2025 para os três meses imediatamente seguintes.
A queda foi tomada a valores nominais, quer dizer, sem descontar a variação da inflação ocorrida no período – o que significa dizer que os valores reais recebidos pelos produtores no trimestre desabaram um pouco além do que o tombo de quase 10% observado pelo centro de estudos. O indicador consolida as variações observadas para os preços de grãos, da pecuária, hortifrútis, cana de açúcar e café, ponderados por sua participação na produção e na composição da receita bruta da agropecuária.
Ainda na comparação com os primeiros três meses do ano passado, anota relatório liberado ontem pelo Cepea, os preços dos bens industriais aferidos pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) recuaram 2,55% no atacado, enquanto o câmbio apresentou declínio nominal de 10,12% (correspondendo a uma valorização do real frente ao dólar). No mercado internacional, o acompanhamento realizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), igualmente mencionado pelo Cepea, apontou queda de 4,59% na média para os preços dos alimentos cotados em dólar no exterior no mesmo período. “Com isso, os preços dos alimentos convertidos em reais decresceram 14,29%”, acrescenta o Cepea.
Dois lados
A notícia certamente é positiva sob o ponto de vista da política de combate à inflação doméstica, prenunciando tendência baixista para os preços dos alimentos ao longo da cadeia de consumo. Mas carrega um nítido viés negativo para o agronegócio, que enfrenta a segunda safra com margens mais apertadas e retornos mais baixos, o que tem se refletido num aumento relativo dos pedidos de recuperação judicial e da inadimplência no setor, com redução no apetite por investimentos nesta área e queda consequente das operações de crédito destinadas principalmente ao financiamento de máquinas, equipamentos e implementos agrícolas. Os efeitos mais severos tenderiam a ser registrados ao longo do processo de preparo do solo e de plantio da próxima safra, a partir de setembro ou outubro, caso persista o cenário desenhado até aqui para preços e custos.
Balanço
Ainda de acordo com o Cepea, entre o quatro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre deste ano, foram observadas elevações de 0,8% para os preços industriais no atacado, na medição do Ibre/FGV, e de 4,0% para os preços internacionais dos alimentos, enquanto o dólar anotou baixa de 2,6% – o que contribuiu para amenizar o impacto altista dos preços externos.
Na variação geral, o IPPA nominal tem apresentado “expressiva aderência” ao indicador do FMI para preços de alimentos e bebidas ao longo de 2001 e 2026, “sendo um indicativo forte da vigência da Paridade Preços Internacionais (PPI) entre os preços aos produtores agropecuários do Brasil e a média desses preços praticados no mercado internacional internalizados”. Isso significa que as tendências de preços no mercado internacional de alimentos têm influenciado no comportamento dos mesmos preços aqui dentro.
O indicador do Cepea para grãos, que agrega os preços de algodão, arroz, milho, soja e trigo, apontou redução de 9,85% em termos nominais, tomando o primeiro trimestre de 2025 como base, com desaceleração generalizada para todos os produtos. Pela ordem, os preços do arroz, trigo, milho, algodão e soja sofreram baixas de 39,83%, de 18,24%, 15,35%, 14,59% e 4,15%. Em relação ao quarto trimestre de 2025, o indicador caiu 7,42%, resultado que refletiu baixa de 8,80% nos preços da soja e recuo de 0,46% para o trigo. Mas com altas de 2,38% para o algodão, de 2,02% para o milho e elevação de 0,68% no caso do arroz.
Na passagem o primeiro trimestre do ano passado para igual período deste ano, os preços da pecuária na média caíram 5,73%, recuando 0,78% quando considerado o trimestre final de 2025 como base. Em 12 meses, portanto, a redução sofreu influência de quedas de 22,97% e de 22,20% para o leite e para os ovos, respectivamente, com reduções ainda de 13,10% para os suínos e de 10,68% para o frango. Como exceção, confirmando o bom momento no setor, os preços da arroba bovina subiram 5,90%.
Ainda na comparação anual, os preços médios de hortifrútis, cana e café sofreram tombos de 18,5%, 12,20% e de 20,59% respectivamente. De forma desagregada, no caso dos hortifrútis, os saltos de 46,0% e de 13,80% nos preços da batata e do tomate foram compensados pelas baixas de 33,7% nos preços da uva, de 20,0% para a laranja e de 19,7% para a banana.
No mercado internacional, os preços do petróleo tipo Brent, caracteristicamente mais leve e referência para as cotações do barril em todo o mundo, havia alcançado seu ponto mais elevado em 20 de março, a partir do início da guerra no Oriente Médio, batendo em US$ 112,27 e caindo para US$ 90,50 em 17 de abril, numa queda de 19,4%. Ontem, a cotação subiu pouco mais de 12,0% e voltou a girar ao redor de US$ 101,40 ao sabor dos incertezas geradas pelo conflito e pelas declarações estapafúrdias do presidente estadunidense, variando quase 3,0% no dia. Desde 27 de fevereiro, véspera dos ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã, o barril do Brent acumula alta de 39,3%.