“Prévia” do PIB, indicador do BC registra variação inferior à esperada

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 15 de junho de 2021

Depois de sofrer baixa de 1,61% em março, na comparação com o mês imediatamente anterior, na série de dados dessazonalizados, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) apontou variação de 0,44% em abril e acumulou perda de 1,17% em relação aos níveis registrados em fevereiro deste ano. Neste caso, o indicador expurga efeitos causados por fatores que ocorrem sempre nos mesmos períodos a cada ano e que, eventualmente, poderiam distorcer a comparação mês a mês, para mais ou para menos. O indicador desenvolvido pelo BC pretende “antecipar” o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), servindo como uma prévia de como tem se saído a atividade econômica em todo o País.

O comportamento da economia tem sido errático até aqui e os dados não permitem antecipar uma reação de fato. Em grande parte, os dados surgem aparentemente mais positivos apenas na comparação com uma fase de depressão intensa da atividade econômica causada pelas medidas de restrição ao funcionamento dos negócios e à circulação de pessoas adotadas para enfrentar o que se convencionou chamar de “primeira onda” da pandemia, em março e abril do ano passado.

Os números do IBC-Br, anota relatório do Banco Fator, vieram mais baixos do que se esperava, com variação modesta na saída de março para abril e elevação de 15,92% frente a abril do ano passado, quando o indicador havia desabado 9,5% na comparação com o mês imediatamente anterior, acumulando retrocesso de 13,6% em dois meses. Ainda na série dessazonalizada, o IBC-Br de abril deste ano ficou apenas 0,2% mais elevado do quem em fevereiro de 2020.

Além de a comparação com o mesmo mês do ano passado tomar como ponto de partida uma base bastante deprimida, o banco sustenta ainda que essa “variação mensal é bastante discutível”. Isso porque, de acordo com o banco, que reflete a opinião de economistas de diversas correntes, há a “a percepção de que os efeitos sazonais das séries de atividade econômica foram fortemente alterados com a pandemia e a interrupção da produção”, com paralisação de cadeias inteiras e problemas no suprimento de insumos e matérias primas. “O sinal dado pelos resultados é de recuperação forte no segundo trimestre na comparação interanual e mais lenta na margem”, acrescenta o Fator. Novamente, essa “recuperação forte” está relacionada diretamente ao afundamento da economia entre março e maio do ano passado.

Reação desigual

Na visão do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o mês teria trazido ventos melhores “se a indústria estivesse em rota ascendente”. A dificuldade notória do setor industrial para sair da crise, que na verdade vem desde o final da primeira metade da década passada, determina uma “reação heterogênea”, na visão do instituto, e muito desigual da atividade, o que, de certa forma, tem funcionado como um obstáculo às pretensões de uma recuperação no curto prazo.

Balanço

  • “A heterogeneidade também tem contribuído para bloquear o dinamismo da indústria. A maior parte dos seus ramos (70%) e parques regionais (60%) acompanhados pelo IBGE ficaram no vermelho”, avalia o Iedi.
  • O instituto relembra que, entre os quatro grandes setores da indústria, houve perdas em abril para as indústrias de bens intermediários (-0,8%) e de bens de consumo semi e não duráveis (-0,9%), na comparação com março, atingindo o setor de produtos alimentícios. Os bens de capital e de consumo duráveis, por sua vez, avançaram 2,9% e 1,6%.
  • “Regionalmente, o padrão de abril de 2021 seguiu o mesmo apresentado em meses anteriores: enfraquecimento dos parques industriais do Sul e de São Paulo, que vinham liderando a recuperação, e declínio no Nordeste”, prossegue o Iedi. Numa diferença em relação ao ciclo mais recente, aquelas regiões pisou no freio com maior intensidade. “A indústria paulista, que tem alternado altas e baixas, registrou queda de 3,3%, e a da região Nordeste como um todo, no vermelho desde dezembro 2020, recuou 7,8%”, constata.
  • O Iedi atribui a melhora nas expectativas do mercado, por alguns considerada excessiva, especialmente a alterações nas medidas adotadas pelos governos para enfrentar a pandemia. “Olockdown (uma classificação que não parece refletir a realidade, de qualquer forma) desta segunda onda foi menos efetivo do que se esperava”, sugere o instituto.Como fator adicional, acrescenta, “bem ou mal, existe um processo de vacinação em curso e (…) conta-se com protocolos de segurança sanitária já estabelecidos”.
  • Os primeiros indicadores de maio sugerem mais desigualdade no caminho, como apontam os dados da Associação Brasileira de Embalagens em Papel (Empapel). O Índice Brasileiro de Papelão Ondulado (IBPO), que mede a expedição de embalagens pelo setor que abastece todos os setores da economia, atingiu o terceiro mês consecutivo de baixa, embora tenha se mantido acima dos níveis registrados em igual período do ano passado.
  • Na análise do Banco Fator, “depois de mudar de patamar com novos hábitos de distribuição e consumo, a produção de papel ondulado parece ter se estabilizado com variação em torno do mesmo nível. A surpresa foi a leve queda em maio, mês de abertura forte da economia”. Entre fevereiro e maio, o indicador baixou algo em torno de 4,2%.
  • O licenciamento de veículos experimentou um salto de 203,4% entre maio de 2020 e o mesmo mês deste ano, com 188,678 mil unidades vendidas agora, diante de apenas 62,190 mil em maio de 2020, quando havia sofrido um tombo de 74,7% na comparação com igual período de 2019.
  • Mas, se desconsiderados os resultados do ano passado, em maio deste ano a indústria registrou seu pior resultado para o mesmo mês em cinco anos. Para comparar, o número de veículos licenciados em maio de 2019 havia sido 30,0% mais elevado do que no mesmo mês deste ano.
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