Coluna

Produção industrial chega ao oitavo mês consecutivo de queda

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 05 de agosto de 2020

A
pesquisa mensal da produção industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) mostra claramente que os problemas da indústria são
anteriores à pandemia, foram agravados pela crise, certamente, e os dados
divulgados ontem não permitem vislumbrar melhoras significativas num cenário
que já vinha ruim. A comparação com o mês imediatamente anterior mostra
crescimento pela segunda medição consecutiva, mas, quando se considera igual
período do ano anterior, a indústria acumulou, até junho, o oitavo mês
consecutivo de perdas, somando ainda 10 baixas nos últimos 12 meses, o que
significa dizer que a produção esteve a maior parte do tempo em terreno
negativo, mesmo antes da Covid-19.

Depois
de avançar 8,2% de abril para maio, a produção cresceu mais 8,9% em junho, na
comparação com o mês anterior, mas havia sofrido perdas de 9,1% e de 19,2% em
março e abril. Os dados de abril e maio foram revisados pelo IBGE, no primeiro
caso, para pior, já que os levantamentos anteriores haviam indicado retração de
18,8%. No segundo, o número foi melhorado, depois de apontar elevação de 7,0%. Para
o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a reação aos
números extremamente negativos de março e abril teria sido influenciada pela “adoção
de protocolos de segurança sanitária pelas empresas e da progressiva
flexibilização do isolamento social por governos de muitas localidades”. Mas
aponta dúvidas sobre a capacidade de o setor prosseguir nessa trajetória,
afinal, aprodução já havia recuado 1,6% no primeiro trimestre deste ano e
desabou19,4% no segundo, comparados a iguais períodos de 2019.

O Itaú BBA
assume um tom levemente mais otimista em seu relatório mais recente sobre a
indústria, sugerindo nova rodada de números positivos em julho na comparação
com junho, pois dados preliminares sugerem uma maior utilização da capacidade
instalada da indústria naquele mês. Mesmo se confirmada essa reação, o nível de
ocupação de máquinas e equipamentos nas fábricas ainda se encontrava abaixo da
taxa de utilização registrada em fevereiro. Seria preciso, portanto, um bom
mais de vapor para que a indústria retomasse os índices anteriores à pandemia,
que já nem eram tão positivos assim.

Riscos
adiante

Todas as projeções até o momento deixam
de lado o risco, ainda bastante presente, de uma recaída na infestação pela
Covid-19, a exemplo do que se observa nos Estados Unidos. Ali, depois da reabertura
da economia em diversos Estados, o número de casos e de mortes voltou a subir,
alcançando níveis preocupantes e trazendo de volta a possibilidade de novo
fechamento de lojas e fábricas (risco que não chegou a ser afastado mesmo
quando os índices de contaminação pareciam sugerir um recuo do Sars-Cov-2). Sem
uma coordenação nacional, com governadores e prefeitos submetidos a pressões
crescentes e diante dos números elevados de casos de contaminação e de mortes,
por aqui, não há garantias de que a indústria possa sustentar um ritmo de
produção que só aparenta vigor quando relacionado ao verdadeiro desmanche
ocorrido a partir de março, sobretudo nos setores de fabricação de bens
duráveis.

Balanço

·  
“Depois
da paralisação de muitas linhas e unidades produtivas em abril, já era esperada
alguma reação do setor nos meses subsequentes. A questão é saber qual o perfil
da recuperação, se será consistente e forte o suficiente para recolocar
rapidamente a indústria em uma situação equivalente àquela anterior à crise de
Covid-19”, avalia o Iedi. Até o momento, acrescenta o instituto, “o sinal ainda
relativamente fraco de aceleração da passagem de maio para junho e o padrão de
baixíssimo dinamismo industrial antes mesmo do coronavírus justificam certa
preocupação”.

·  
A
recuperação futura do setor estará condicionada, ainda na visão do instituto, a
fatores “como o controle da pandemia, a reação da economia mundial (item
obviamente fora do controle dos agentes brasileiros) e ao modo como serão
retiradas as medidas emergenciais adotadas pelo governo no combate à crise”.

·  
A
extinção abrupta do auxílio emergencial ou sua redução a um terço do valor
atual, conforme sugerido pela equipe econômica, tenderá a puxar o tapete de
milhões de famílias que dependem desses recursos para apenas e somente
assegurar sua sobrevivência, lançando a atividade econômica a uma crise de
proporções ainda mais graves – e pior, agora sob o risco de uma convulsão
social, já que o governo tem demonstrado extrema incapacidade de lidar com a
crise sanitária, para dizer o mínimo.

·  
Simulações
não oficiais e ainda preliminares sugerem que o auxílio, recebido por quase
29,4 milhões de domicílios em junho (43,0% do total de domicílios), teria
respondido por alguma coisa próxima a 16,0% da massa total de rendimentos
efetivamente recebidos pelos trabalhadores. Seu fim traria uma retração
proporcional para a renda das famílias, com impacto direto sobre o consumo, já
que há baixas possibilidades de que o emprego venha a apresentar uma
recuperação relevante até agosto, quando se enceraria o auxílio emergencial.

·  
O
cenário se agrava, retoma o Iedi, porque a indústria “pouco poderá contar com o
setor externo para ganhar tração nos próximos meses”, pois o comércio
internacional mantém-se “travado”, sob o impacto da pandemia em todo o mundo e
ainda “sujeito a recentes tensões protecionistas” – vale dizer, até com
acirramento das disputas entre EUA e a China, que protagonizam o que parece ser
uma nova “guerra fria”, tendo como “campo de batalha” as novas tecnologias na
área da comunicação.

·  
Os
dados do IBGE, mencionados pelo Iedi, mostram que o volume das exportações
brasileiras de bens manufaturados caiu 13,1% em junho e despencou 19,0% no
primeiro semestre, sempre em relação a idênticos períodos de 2019. Sem demanda
doméstica e sem a opção do mercado internacional, torna-se mais complicada a
situação da indústria.

 

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