Produção industrial interrompe avanço e passa a recuar em maio

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 4 de julho de 2026

A produção industrial interrompeu em maio uma sequência de quatro meses de resultados positivos, quando acumulou uma elevação de 4,35% na série de dados dessazonalizados, para recuar 0,2% na comparação com abril, reduzindo o ganho acumulado desde dezembro para 4,16%. Não foi, claramente, um revés muito acentuado, mas revelador do cenário que predomina já há algum tempo na indústria brasileira, que tem demonstrado baixa capacidade para manter taxas mais promissoras de crescimento por períodos mais alongados de tempo. A leitura do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), aparentemente alicerçada por um histórico pouco lisonjeiro, identifica em maio a retomada de “uma trajetória de desaceleração”.

Entre janeiro e abril, para relembrar, ainda descontados aqueles fatores e eventos que ocorrem todos os anos na mesma época, a pesquisa mensal sobre a produção industrial conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou variações de 2,2% em janeiro, frente ao último mês de 2025, com desaceleração para 1,1% em fevereiro. Os dados de março e abril, sempre em relação ao mês imediatamente anterior, apontaram elevações modestas de 0,3% e de 0,7% no que parecia ser uma retomada, agora desmentida pelo recuo em maio.

Novamente na avaliação do Iedi, a indústria saiu “de um breve período de altas mais intensas nos primeiros meses de 2026, ajudados em boa medida pelo declínio registrado em novembro e dezembro de 2025”, para entrar “em seguida, novamente em um quadro de semiestagnação, com variações muito próximas de zero”. De toda forma, numa ponderação necessária, foi o primeiro dado negativo neste ano, o que não corresponde a uma recuperação mais alentada, considerando a evolução do setor nos últimos meses.

Setores em baixa

Entre os quatro grandes setores acompanhados pelo IBGE, três deles – bens de capital, um sinalizador do investimento industrial, bens intermediários e a produção de bens semi e não duráveis – frequentaram o lado negativo da atividade, observando baixas, naquela mesma ordem, de 0,2%, 0,4% e de 1,3% na passagem de abril para maio. Como exceção, a fabricação de produtos duráveis cresceu 3,6% na mesma comparação, puxada principalmente pela alta de 4,1% na produção de veículos, reboques e carrocerias. O setor, na verdade, praticamente se recompôs da queda de 3,1% registrada em abril, mantendo uma elevação de 0,4% em relação a março (mas 10,6% acima dos níveis alcançados em dezembro do ano passado).

Balanço

• De acordo com o Iedi, os dados da pesquisa, de toda forma, mostram “algum alento”, já que uma parcela minoritária de ramos industriais ficou no vermelho (32%) e entre os piores casos estão ramos que vinham crescendo com robustez nos meses anteriores, notadamente a indústria extrativa. Neste último segmento, o IBGE havia observado, apenas neste ano, elevações de 1,5% em janeiro e de 1,1% em fevereiro, com alguma desaceleração em março, quando havia sido anotada variação de 0,4%, e alta de 3,2% em abril. O dado de maio apontou baixa de 2,6%. Na saída de dezembro do ano passado para maio deste ano, o setor extrativo avançou 3,6%.

• Na mesma linha, prossegue o Iedi, a produção de derivados de petróleo e de biocombustíveis vinha apresentando tendência de avanços em ritmo crescente, com altas de 1,9%, 2,3%, 2,9% e 4,1% em janeiro, fevereiro, março e abril, respectivamente. Mas tropeçou em maio, num tombo de 6,1%. Mesmo com essa queda, a produção no setor ainda supera os níveis de dezembro em quase 5,0% na série de dados dessazonalizados. Na hipótese do instituto, os dois casos (extrativa e derivados de petróleo e biocombustíveis) podem refletir “apenas uma acomodação conjuntural”.

• Tomando uma perspectiva mais ampla, em sua própria descrição, o Iedi considera que o desempenho industrial, “quando tomado em seu agregado, até sugere alguma resiliência, dado o patamar de taxa de juros vigente no País”. Entre outras razões porque a produção ainda acumula alta de 1,4% nos cinco primeiros meses deste ano em relação a igual período do ano passado, ou “quase que o semestre todo”, no acréscimo feito pelo relatório do instituto.

• Para reforçar seu argumento, o Iedi lembra que aquela taxa ficou pouco abaixo da variação de 1,8% registrada entre janeiro e maio do ano passado, em relação aos mesmos cinco meses de 2024, superando a variação de apenas 0,8% acumulada nos 12 meses de 2025.

• A composição desse crescimento, prossegue o Iedi, “é que mudou bastante e isso evidencia claramente o peso da conjuntura de juros elevados”. Numa perspectiva inicial, ainda tomando a linha de raciocínio seguida pelo Iedi, “cabe observar que o desempenho da indústria em 2026, pelo menos até agora, está fundamentalmente baseado no ramo extrativo, que como se sabe é uma atividade bastante exportadora”. O setor externo, neste caso, desempenhou papel central naquele comportamento, diante do forte incremento das exportações da indústria extrativa. O setor, que registra elevada participação da produção de petróleo bruto e minério de ferro, encerrou os cinco meses iniciais deste ano com alta de 7,9%.

• Para o conjunto da indústria de transformação, mais sensível ao tamanho das taxas de juros, a produção restou “virtualmente parada”, com variação de apenas 0,2% em relação aos cinco meses iniciais do ano passado. No primeiro trimestre deste ano, os volumes produzidos haviam sido idênticos ao total realizado em igual período do ano passado.

• Entre os grandes setores, a indústria de bens de capital tem sido mais sacrificada, até por ser afetada mais duramente pela política de juros altos. O setor acumulou queda de 6,2% entre janeiro e maio deste ano comparado aos mesmos cinco meses de 2025, com tombo mais relevante para bens de capital destinados à agricultura, em baixa de 16,9%.

• “Se os produtores rurais estão sobreendividados, como a imprensa vem noticiando”, comenta o Iedi, “a situação na indústria é longe de salutar”. Conforme sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o percentual de empresas com endividamento no limite ou acima dos níveis desejáveis chegava a 43% no final de 2025 e, em sondagem realizada em junho, 45% delas esperavam aumentar o endividamento e 64% esperavam queda na margem líquida.

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