Produção industrial registrou em março oitavo mês de perda

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 04 de maio de 2022

Sujeita a choques adversos e sucessivos nos últimos oito anos, a indústria chegou neste começo de 2022 ao terceiro trimestre consecutivo de perdas, na comparação com iguais trimestres do ano anterior. E a flutuação de apenas 0,3% observada entre fevereiro e março passados correspondeu muito mais a uma “estagnação virtual”, na descrição do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Entre janeiro de 2021e março de 2022, conforme indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), devidamente dessazonalizados (quer dizer, expurgados de fatores que se repetem em determinados períodos do ano e poderiam distorcer a comparação), a produção industrial encolheu praticamente 6,0%, com baixa de 7,2% para a indústria de transformação.

“Para a indústria, o primeiro quarto do ano se encerrou com um desempenho, no mínimo, anêmico”, sustenta o Iedi, com queda de 4,5% em relação ao trimestre inicial de 2021. Comparada ao mesmo mês do ano imediatamente anterior, a produção de toda a indústria vem caindo desde agosto do ano passado, completando oito meses de perdas em sequência. Nos meses iniciais deste ano, o retrocesso parece relacionado ao recrudescimento da pandemia nos primeiros meses do ano, por conta da variante Ômicron do Sars-CoV-2, o que causou novas paralisações nas linhas globais de produção e suprimento de matérias primas, insumos, peças, acessórios e componentes eletrônicos, além de provocar o afastamento de trabalhadores atingidos pela pandemia do coronavírus e, mais recentemente, pela dengue. O aumento dos juros, com consequente encarecimento do crédito a partir da segunda quinzena de março do ano passado, igualmente parece já afetar o ritmo da atividade econômica, deixando as taxas de desemprego ainda em dois dígitos.

Na visão do Iedi, as causas imediatas para o comportamento negativo da produção podem até ter variado ao longo do tempo, mas “o quadro decepcionante da produção industrial já se arrasta por diversos anos. A bem da verdade, o setor nunca chegou a se recuperar integralmente do tombo levado da crise de 2015-2016, que fora agravado pela pandemia e seus desdobramentos”.

Abaixo de 2014

Num olhar de mais longo prazo, os dados da pesquisa mensal do IBGE sobre a produção industrial mostram que as dificuldades para a retomada de algum crescimento no setor vão muito além de eventuais obstáculos conjunturais, sugerindo problemas mais estruturais que têm funcionado como um freio à atividade no setor, o que tem amarrado uma reação mais consistente da economia como um todo, já que a indústria tem maior capacidade para oferecer empregos mais bem remunerados e de melhor qualidade, ajudando a incrementar a produtividade total na economia. Sem uma indústria forte e em crescimento, dificilmente o País conseguirá superar o retrocesso determinado por décadas de aplicação do receituário neoliberal e engendrar um processo autônomo de desenvolvimento no longo prazo.

Balanço

  • As dificuldades para retomar o crescimento tornam-se mais evidentes quando comparados os níveis da produção industrial em março deste ano com igual mês de 2014. O nível de produção, constata o Iedi, com base nos dados do IBGE, continuava em março deste ano em torno de 15,2% abaixo daquele realizado oito anos atrás. A indústria de transformação acumulava perdas de 14,6% em igual período.
  • Retrocedendo alguns meses mais no tempo, a indústria geral havia alcançado seu melhor desempenho na série histórica em maio de 2011 e os volumes produzidos em março deste ano apontavam queda de 18,5%. Para a indústria de transformação, que também atingiu sua produção máxima em maio de 2011, há mais de década, portanto, os indicadores do IBGE apontam retração de 20,2%.
  • “E, por pior que isto seja, há setores com defasagens muito maiores”, aponta o Iedi, novamente adotando março de 2014 como base para sua avaliação. As indústrias fabricantes de veículos, produtos têxteis, e de máquinas, aparelhos e materiais elétricos sustentavam perdas, respectivamente, de 27,3%, de 28,0% e de 30,8% até março deste ano.
  • Alguns setores demonstravam desempenho ainda pior. Entre março de 2014 e o mesmo mês deste ano, a produção sofreu tombo de 35,3% para a indústria de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, desabou 37,5% e 37,7% nos setores de vestuário e móveis, pela ordem, despencando 47,2% no segmento de “outros equipamentos de transporte” (embarcações, trens e vagões, aviões e veículos militares de combate, entre outros).
  • “Não é pequena a parcela da indústria presa em níveis inferiores de produção”, prossegue o Iedi, mostrando que “73% dos 26 ramos acompanhados pelo IBGE”registram perdas de dois dígitos frente a março de 2014, “isto é, antes da recente fase de declínio da indústria”. Conforme o instituto, “também é largamente majoritária a participação dos ramos que ficaram no vermelho no acumulado do primeiro trimestre de 2022: 80% dos 26 acompanhados, sinalizando que os últimos sinais não são muito promissores”.
  • Depois de três trimestres consecutivos negativos, acrescenta ainda o Iedi, “a grande diferença” observada no primeiro trimestre deste ano em relação aos dois trimestres anteriores “é que não há mais exceções: todos os macrossetores ficaram no vermelho”, enquanto a “fração dos ramos em queda não parou de aumentar, indicando uma disseminação do sinal negativo”. Assim, no terceiro trimestre do ano passado, “54% dos ramos perderam produção”, percentual que passou para 69% no quarto trimestre do mesmo ano, elevando-separa 80% no trimestre seguinte.
  • Adicionalmente, em torno de 65,4% dos setores investigados pelo IBGE – ou seja, 17 entre 26 segmentos – sequer haviam retomado os níveis de fevereiro de 2020, com a indústria como um todo ainda 2,1% abaixo daqueles níveis em março deste ano. As indústrias de móveis, confecções e de produtos têxteis registravam perdas, pela ordem, de 27,9%, de 20,9% e de 14,3%. Os setores de alimentos e medicamentos, itens essenciais, encontravam-se 1,1% e 7,4% abaixo dos níveis pré-pandemia.
  • Em março, a produção variou apenas 0,3% em relação a fevereiro deste ano, mas caiu 2,1% diante de março do ano passado, acumulando perdas de 4,5% no primeiro trimestre, comparado a igual período de 2021.

As cadeias do setor industrial colocadas mais próximas do consumidor final, com raras exceções, ainda não haviam conseguido retomar sequer os níveis observados antes da pandemia, em fevereiro de 2020, enfrentando dificuldades evidentes para engrenar algum crescimento, a despeito de oscilações na comparação mês a mês.

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