Produção industrial tropeça pelo 2º mês e acumula baixa de 2,7%
Mais de dois terços dos ramos industriais acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentaram dados negativos na passagem de maio para junho deste ano, depois de excluídos fatores e eventos sazonais, aqueles que sempre se repetem na mesma época a cada ano. No resultado geral, a produção industrial tropeçou pelo segundo mês consecutivo, num desempenho que parece contrariar o diagnóstico de analistas e comentaristas que frequentam assiduamente manchetes e colunas dos jornalões e da mídia televisiva.
Com base numa “entidade econômica”, o tal “hiato do produto”, não observável na prática, mas apenas intuída por iniciados, consultores insistem que a economia brasileira tem crescido além de suas possibilidades, o que justificaria a manutenção – e quem sabe mesmo a elevação – da taxa básica de juros para esfriar a atividade e fazer retroceder a inflação (que, apesar de guerras e turbulências, tem se mantido muito bem-comportada).
A anotação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) parece deixar pouco espaço para dúvidas sobre o comportamento recente da produção industrial. Tomando os números da mais recente pesquisa sobre o setor, divulgada ontem, 4, pelo IBGE, o Iedi afirma: “A indústria brasileira encerrou o primeiro semestre registrando seu pior resultado em 2026 até o momento”. Na comparação mais de curto prazo, considerando a série de dados dessazonalizados, o ritmo da atividade na indústria chegou a avançar 2,1% em janeiro em relação a dezembro do ano passado, passando a anotar um incremento de 1,0% em fevereiro, menos da metade da taxa observada no primeiro mês deste ano.
Para baixo
A produção parou de crescer em março, literalmente, e avançou 1,2% em abril, caindo 0,9% e 1,8% respectivamente em maio e junho na comparação com o mês imediatamente anterior. Naqueles dois meses, acumulou uma perda de 2,7%. Considerando a passagem de maio para junho, 16 entre 25 segmentos investidos pelo IBGE apresentaram taxas negativas, correspondendo a 64% do universo pesquisado, frente a nove com números positivos. Nessa relação, as indústrias gráfica e de celulose, papel e produtos de papel alcançaram os melhores resultados, com altas de 20,2% e de 5,4% na comparação de junho com maio. Os piores resultados vieram dos fabricantes de produtos farmoquímicos e farmacêuticos e da indústria de confecções, ambos em queda de 11,0%, com tombo ainda de 8,9% no setor de equipamentos para informática, eletrônicos e de ótica.
Balanço
No período entre abril e junho, 14 setores sofreram baixas, correspondendo a 56% dos ramos pesquisados, com altas para 11 deles, representando 44% do total. A indústria extrativa, que vinha dando alguma sustentação ao nível de atividade para o conjunto do setor industrial, acumulou perdas de 3,2% naquele período, com a indústria de transformação recuando 1,9%.
O setor de produção de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis mergulhou em queda de 11,8% na comparação entre junho e abril deste ano, com retração ainda de 10,9% para produtos de informática, eletroeletrônicos e equipamentos óticos. As indústrias de produtos têxteis e de confecções sofreram retrocessos de 6,7% e de 5,4% naquela mesma comparação, com baixa ainda de 3,5% na produção de alimentos.
No lado mais positivo, as indústrias de celulose e papel e de metalurgia alcançaram ganhos de 5,6% e de 3,9% de abril para junho, seguidas pela elevação de 3,6% na produção de veículos automotores e de 2,8% para máquinas, aparelhos e material elétrico.
Na saída de maio para junho, todos os grandes setores produziram menos, com destaque mais negativo para a indústria de bens semi e não duráveis, que sofreu queda de 4,1% depois de recuos de 0,5% e de 1,5% em abril e maio. Nesta área, comparando junho frente a março, a produção baixou 5,9%.
A indústria de bens duráveis alternou altos e baixos nos últimos quatro meses, crescendo 2,0% em março para cair 3,3% em abril, repor a perda em maio, ao avançar 3,5%, e praticamente devolver todo o ganho em junho, quando recuou 3,2%. Desde março, entre altos e baixos, a produção de duráveis caiu 3,1%. O segmento de bens intermediários, que fornece produtos para todo o setor industrial, sofreu queda de 1,1% em junho e já havia recuado 0,5% em maio, acumulando em dois meses uma redução de 1,6%.
Mais afetada pelos impactos gerados pela alta nos custos do crédito sobre as decisões de investimento no setor empresarial, a indústria de bens de capital somou três meses em terreno negativo, com perdas de 0,2% em abril e maio e queda de 1,1% em junho, numa retração acumulada em três meses de 1,5% na série com ajuste sazonal.
Na comparação com idênticos períodos do ano anterior, o setor de bens de capital acumulou cinco trimestres de perdas sucessivas. Mais claramente, a produção vem caindo nesta área deste o segundo trimestre do ano passado, quando sofreu redução de 2,8%, seguida de perdas de 2,5% e de 5,3% no terceiro e quarto trimestres do ano passado. Na sequência, a produção encolheu 6,4% nos três primeiros meses deste ano e 4,5% no segundo trimestre, com retração acumulada de 5,4% no primeiro semestre de 2026 frente aos mesmos seis meses do ano passado. Para registro, o setor já havia sofrido baixa de 3,8% no segundo semestre do ano passado.
A indústria como um todo registrou em junho sua quarta alta consecutiva em relação aos mesmos meses do ano passado, crescendo 1,7% no sexto mês do ano. A alta mensal foi puxada em larga medida pelo setor extrativo, que avançou 5,2%, diante de uma variação modesta de 1,0% na indústria de transformação. Entre os grandes setores, a indústria de bens de capital sofreu a terceira baixa consecutiva, caindo 1,6% em junho. Mas a pesquisa registrou ganhos de 2,7% para bens intermediários (sexta alta consecutiva), de 5,2% para bens duráveis e estagnação na indústria de semi e não duráveis.
No primeiro semestre, comparado ao mesmo período de 2025, a indústria até cresceu 1,5%, num desempenho puxado exclusivamente pelo salto de 7,4% na indústria extrativa, já que o setor de transformação variou apenas 0,4%. Como observa o Iedi, “os resultados desfavoráveis têm sido mais frequentes na indústria de transformação, que incluem atividades vulneráveis ao elevado patamar de taxas de juros que marcam a conjuntura atual do País. O ramo extrativo, com base sobretudo na produção de petróleo, influenciada por fatores geopolíticos internacionais, tem evitado recuos mais acentuados do total da indústria”.
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