Puxada pelo setor de veículos, indústria goiana cresce sobre mês muito negativo

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 16 de março de 2022

A indústria goiana sustentou sinais dúbios em janeiro, segundo a mais recente pesquisa da produção industrial regional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O setor registrou alta de 2,1% em relação a janeiro do ano passado, um mês muito ruim para o setor, com a produção desabando 9,9% frente ao mesmo mês de 2020. Mas anotou recuo de 1,7% na saída de dezembro do ano passado para janeiro deste ano. Sob liderança da produção de veículos automotores, reboques e carrocerias, o avanço na comparação anual veio na sequência de uma elevação em torno de 7,8% em dezembro, comparado ao mesmo mês de 2021. O dado sinaliza certa desaceleração na comparação com idêntico período do ano imediatamente anterior.

O recuo mensal, no entanto, compara-se com a alta de 3,2% registrada na passagem de dezembro de 2020 para janeiro de 2021 e foi registrada ainda depois do incremento de 4,7% observado em dezembro frente a novembro do ano passado, num indicador já ajustado às flutuações sazonais registradas naqueles dois meses. O IBGE não divulga dados mensais dessazonalizados para todas as categorias das indústrias regionais, o que não permite identificar quais segmentos estariam influenciando a tendência geral da produção e em que direção tem se dado essa influência.

Mas, na série de comparações anuais, o grande destaque foi para o salto de nada menos do que 258,2% registrado pelas montadoras de veículos em operação no Estado, o que se explica precisamente em função da base muito achatada. Em janeiro do ano passado, a indústria de veículos instalada por aqui havia sofrido retração de 59,5% frente ao primeiro mês de 2020, registrando seu terceiro pior desempenho da série histórica. Para comparar, o volume produzido em janeiro deste ano foi equivalente a apenas 38,7% da média realizada em 2012, o que correspondeu a uma queda de 61,3% na mesma comparação. No mesmo mês de janeiro do ano passado, a produção tinha encolhido 89,2% diante dos volumes médios produzidos ao longo de 2012, o que dá a dimensão dos problemas no setor.

Cenário à frente

O recrudescimento da pandemia nos primeiros meses deste ano, trazida pela Ômicron, a mais recente variante do Sars-CoV-2, já havia complicado o cenário, causando novos gargalos no suprimento nas cadeias globais, interrompendo fluxos de fornecimento de peças, acessórios e componentes eletrônicos, além de elevar os índices de absenteísmo, especialmente na indústria. A guerra entre Rússia e Ucrânia tornou as perspectivas mais incertas, levando ao salto nas cotações internacionais do petróleo e ao “tarifaço” nos preços dos combustíveis na semana passada, num momento de desemprego elevado, renda em baixa e crédito muito mais caro em função da política de juros altos do Banco Central (BC). Embora a pandemia tenha cedido, as turbulências permanecem e a tendência geral continua sendo de refreamento de uma demanda que já não se mostrava muito animada, refletindo-se sobre os níveis da produção industrial no Estado, que acumulava, nos 12 meses finalizados em janeiro deste ano, recuo de 3,4%.

Balanço

  • O salto na produção de veículos automotores, de toda forma, correspondeu a uma contribuição de 4,59 pontos de porcentagem para o crescimento geral de 2,1% em janeiro. Isso significa que todo o restante da indústria, montadoras de veículos excluídas, teria experimentado perda de quase 2,5% em relação a janeiro do ano passado.
  • Além do segmento de veículos, a produção chegou a crescer 10,6% na indústria extrativa, por conta da maior produção de amianto (destinado à exportação), britas e fosfato de cálcio (insumo para o setor de medicamentos). Na sequência, a indústria de outros produtos químicos apresentou elevação de 5,2%, igualmente em relação a janeiro do ano passado, puxado por adubos e fertilizantes a base de nitrogênio, potássio e fósforo e de superfosfatos, de ampla aplicação na agricultura.
  • O setor de produtos alimentícios registrou ligeira alta de 0,6% na mesma comparação, em forte desaquecimento depois de avançar 6,4% em dezembro (sempre em relação a igual mês do ano anterior). Na verdade, nos 12 últimos meses, dezembro e janeiro foram os dois únicos resultados positivos realizados pela indústria do setor, que acumulou perda de 5,2% no período. Na média, a produção mantinha-se 27,3% abaixo dos resultados de 2012.
  • Houve queda de 4,8% na produção de fármacos e produtos farmacêuticos, comandada pelos medicamentos, com perdas de 8,2% para produtos não metálicos (com contribuição negativa para cimento, telhas e asfalto) e de 13,6% na metalurgia (explicadas pela redução na produção de ouro e ferroníquel).
  • Depois de enfrentar em 2021 um regime de chuvas muito ruim, levando a uma colheita de cana menor do que a esperada, a indústria de biocombustíveis sofreu retração de 20,6% em janeiro deste ano. Houve baixa para a produção de etanol, mas também recuo para o biodiesel, já que a exportação de soja em grão (uma das matérias primas utilizadas pelo setor) se tornou mais atrativa em função da valorização dos seus preços no mercado internacional, reduzindo sua oferta doméstica.
  • A forte redução na produção de embalagens metálicas, palhas de aço, estruturas e esquadrias de ferro e aço e também de esquadrias de alumínio derrubou a indústria de produtos de metal, num tombo de 37,8%. Olhados em conjunto, o desempenho negativo dos setores de produtos de metal e produtos não metálicos sugere um decréscimo para a indústria de construção no Estado, depois de ter ganho destaque nos últimos meses, mesmo em meio à pandemia.
  • Na média da indústria goiana como um todo, a produção ainda não havia retornado aos níveis de fevereiro de 2020, antes da pandemia, persistindo baixa de 3,1%. Na comparação com seu melhor momento na séria histórica, em outubro de 2019, a produção goiana anota queda de 8,7%.
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