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domingo, 11 de janeiro de 2026

Quase um terço da área que sobrou do Cerrado original está sob ameaça

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 13 de novembro de 2025
Cerrado
Foto: Acervo ISPN / André Dib

Pressionado por lobbies e ainda sob a vigência de uma legislação ambiental tornada mais tolerante desde a aprovação do novo Código Florestal em 2012, que sancionou taxas de desmatamento de até 80% em áreas de Cerrado, o bioma preserva até aqui em torno de 103 milhões de hectares de sua área original — quase 51% do espaço total ocupado pelo ecossistema no País, algo em torno de 203,65 milhões de hectares. Longe de confortável, o cenário pode se agravar rapidamente caso não seja acelerado todo o conjunto de políticas públicas pensadas para promover a preservação, regeneração e proteção daquelas áreas.

Estudo recente realizado pelo Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento da UFG (Lapig), em parceria com a The Nature Conservancy (TNC), estima que praticamente um terço — cerca de 32 milhões de hectares da vegetação original ainda preservada — está sob ameaça direta e real de desmatamento, já que se encontra fora de unidades de conservação, não está identificada como área de preservação permanente e, mais grave ainda, “excede os 20% previstos [pelo Código Florestal em vigor] de reservas legais em propriedades privadas”.

O estrago potencial de sua destruição pode ser avaliado a partir das estimativas do Lapig e da TNC. Toda aquela extensão de área preserva um estoque total de carbono equivalente a 1,64 bilhão de toneladas, o que corresponderia, se liberadas na atmosfera, a duas vezes e meia todas as emissões brasileiras, considerando-se seus níveis atuais. O alerta está em artigo veiculado na segunda-feira (10), pelo portal The Conversation Brasil, plataforma de colaboração entre acadêmicos e jornalistas para a produção de notícias e análises baseadas em pesquisas e fatos, que teve trechos inicialmente detalhados neste espaço (O Hoje, 11/11/2025).

Quem alerta
Para os devidos créditos, o artigo — que ganhou o título “Dois biomas, um futuro: por que a COP 30 precisa integrar Amazônia e Cerrado” — resultou da colaboração entre a reitora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Angelita Pereira de Lima, também professora do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos da UFG; Laerte Guimarães Ferreira, doutor em ciência do solo e professor na mesma universidade; Mário Barroso, doutor em ecologia pela Universidade de São Paulo (USP) e sênior advisor na The Nature Conservancy (TNC); Paulo De Marco Júnior, professor adjunto na UFG e doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e Pedro da Costa Novaes, geógrafo, mestre em ciência ambiental pela USP e doutorando em ciências ambientais pela UFG.

Balanço
O trabalho realizado pelo Lapig e pela TNC avalia ainda cenários para a elevação potencial dos estoques de carbono no solo a partir da recuperação de pastos degradados e da intensificação da pecuária na região, incluindo a conversão de parte daquelas pastagens para a produção de soja e para a restauração da vegetação natural.

As projeções levam em consideração a perspectiva de evolução da demanda por soja e carne até 2030, estimando a necessidade de ampliação da área de soja em 3 milhões de hectares — um avanço de 6,1%, considerando a área total ocupada pela lavoura no ciclo 2025/26, ao redor de 49,1 milhões de hectares em todo o País. Prevê-se também a necessidade de quase 61 milhões de unidades animais para fazer frente ao consumo esperado de carne.

Tomando como base o cenário mais conservador, apontam os especialistas, depois de “acomodar toda a área necessária” a suprir a expansão esperada para a demanda de soja e carnes, com intensificação da pecuária (elevação da taxa de ocupação, adoção de melhores práticas de manejo, nutrição animal e boas práticas agrícolas), ainda restariam em torno de 9 milhões de hectares que poderiam “ser disponibilizados para a restauração de áreas naturais”.

Para comparação, a área potencialmente destinada à recuperação representa cerca de 27,5% de um total de 32,68 milhões de hectares desmatados na região do Cerrado entre 2001 e 2025, conforme dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

A preservação daqueles 9 milhões de hectares, prossegue o grupo de cientistas, poderia gerar um aumento nos estoques totais de carbono orgânico entre 100 milhões e 240 milhões de toneladas “para 2030 e 2050” — o que significaria evitar que entre 360 milhões e 860 milhões de toneladas de dióxido de carbono fossem lançadas na atmosfera, o equivalente a 17% e 40% das emissões brutas de CO₂ equivalente registradas no País no ano passado. “Considerando o mercado internacional de crédito de carbono e um valor conservador por tonelada de CO₂ equivalente, estamos falando em um aporte, até 2030, de aproximadamente US$ 3,2 bilhões — um grande negócio com perspectivas de ganhos em todas as direções”, projetam os cientistas.

A transição para uma agropecuária sustentável, de toda forma, está ao alcance de todo o setor, sem a necessidade de “inventar um país novo”, como resume o grupo de pesquisadores, que defende que a COP30 promova a integração entre Amazônia e Cerrado e ainda a criação do Instituto Nacional do Cerrado (INC).

Mas há pressa, considerando a emergência climática e as tendências mais recentes. Conforme o artigo, entre 1981 e 2020, as temperaturas médias no Cerrado sofreram elevação de 0,024 °C por ano — praticamente 1 °C em todo o período. O aquecimento veio acompanhado de uma redução de 1,72 mm por ano na precipitação e por chuvas mais irregulares — “uma combinação que intensifica a aridez e afeta a agricultura”, assim como a disponibilidade hídrica e os serviços ecossistêmicos.

“A agricultura já sente”, observa o grupo de especialistas, indicando que 99% dos quase 8,1 milhões de hectares que adotam o sistema de plantio duplo de soja e milho — um arranjo produtivo que se mostrou bem-sucedido no Cerrado — “sofreram com atrasos no início da estação chuvosa, e 61% enfrentaram redução das chuvas”.

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