sexta-feira, 20 de março de 2026

Redução dos juros não paga um rodízio de esfirra para duas pessoas

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 20 de março de 2026

Como já sobejamente divulgado, em decisão anunciada no início da noite de quarta-feira, 18, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reduzir a taxa básica de juros de 15,0% para 14,75%, aplicando um “corte” de 0,25 pontos percentuais, com “serenidade e cautela”, nos termos escolhidos pelos membros do comitê para anunciar a decisão. Foi uma redução muito modesta, ainda que se considere o agravamento do conflito no Oriente Médio, com lançamento de bombas sobre instalações petroleiras e estruturas de extração e processamento de petróleo e gás natural num ataque até mesmo surpreendente diante dos desdobramentos que essa ofensiva detonada por Israel poderá gerar.

O cenário internacional tornou-se muito mais incerto, com riscos exacerbados de disruptura das cadeias de suprimento no setor de energia, num sentido mais amplo, com efeitos em sequência sobre a oferta global de óleo e gás, sobre o comércio mundial e, ao final, sobre toda a economia planetária. O que pode ser ponderado, no caso, diz respeito precisamente aos efeitos da manutenção dos juros, que vinham na faixa de 15,0% ao ano há nove meses, e mesmo de uma redução para níveis que devem ser considerados ainda excessivamente altos num cenário sobre o qual o Banco Central (BC) brasileiro não tem a menor capacidade de influenciar.

A decisão do Copom, na prática, preserva o arrocho ao crédito e atinge principalmente as famílias em geral, que mais dependem o mercado tradicional de empréstimos e financiamentos. A tendência mais provável, portanto, será de continuidade do aperto orçamentário para as famílias, com os juros consumindo parte ainda relevante dos rendimentos, num cenário externo muito mais complicado e incerto. Uma conta simples ajuda a entender o impacto muito limitado da redução dos juros.

Na ponta do lápis

Considere uma família de classe média com dívidas ao redor de R$ 20,0 mil contratadas juntos a bancos e financeiras. Suponha agora, rara leitora e raro leitor, que os bancos, num rasgo improvável de generosidade, decidam transferir para seus clientes, tomadores de empréstimos, toda a redução anunciada pelo Copom. Os juros médios cobrados das famílias com dívidas contratadas ao sistema financeiro nacional, que se encontravam nas alturas de 61,0% ao ano até janeiro passado, tenderia a ser reduzidos para 60,75%. O gasto com juros da família mencionada no início do parágrafo seria reduzido de R$ 12,2 mil para R$ 12,150 mil, um “ganho” de R$ 50. Levando-se em conta que o rodízio de esfirra oferecido por uma conhecida rede de lanchonetes sai a R$ 29,90 por pessoa, aquela família não teria economizado o suficiente para bancar o lanche de duas pessoas.

Balanço

Não parece um ganho que animaria as famílias a sair gastando a ponto de levar a atividade econômica a um “superaquecimento”. Mas se a dívida familiar foi de apenas R$ 1,0 mil? Neste caso, o gasto mensal com juros sairia de R$ 610 para – atenção – R$ 607,50. Um “ganho” de R$ 2,50. Não pagaria metade de uma esfirra de frango, a mais barata do cardápio, com preço de R$ 5,79 na promoção.

No segmento livre de crédito, com juros livremente impostos pelos bancos aos tomadores de empréstimo, o saldo de empréstimos e financiamentos tomados pelas pessoas físicas havia alcançado R$ 2,471 trilhões em janeiro deste ano, crescendo 12,41% frente a R$ 2,198 trilhões no mesmo mês do ano passado. Numa estimativa da coluna, a uma taxa média de 61% ao ano, os juros poderiam consumir algo como R$ 1,507 trilhão ao longo de um ano. Mantida a redução de 0,25 pontos percentuais durante um ano, “tudo o mais constante”, como gostam os economistas, aquela despesa seria reduzida em 0,41%, para R$ 1,501 trilhão.

O acirramento da guerra tem tornado os mercados mais instáveis, levando a oscilações intensas nos preços do petróleo, como se observou ao longo do dia de ontem. O barril do Brent, petróleo extraído do Mar do Norte, chegou a bater em US$ 119,11 por volta das seis horas da manhã, reagindo aos pesados ataques desferidos por Israel contra estruturas de produção de óleo e gás no Irã, que respondeu direcionando seus mísseis para o maior complexo global de exportação de gás natural, no Qatar.

Àquela altura, o mercado sinalizava um salto de 10,92% em relação ao fechamento do dia anterior, quando o barril havia alcançado US$ 107,38. Na cotação registrada às 18h45, o preço havia baixado 9,80%, encerrando as negociações por volta de US$ 107,43 e praticamente repetindo a cotação do fechamento anterior. Desde 26 de fevereiro, no entanto, quando o barril do Brent havia sido negociado a US$ 70,75, observa-se um salto de 51,84%.

O barril do West Texas Intermediate (WTI), que baliza o mercado estadunidense principalmente, apresentou volatilidade relativamente mais moderada, abrindo a manhã na faixa de US$ 98,93, mas numa elevação de 3,64% em relação à quarta-feira, 18. No começo da noite, o preço havia cedido para US$ 93,97, caindo 5,01% ao longo do período e encerrando o pregão perto de 1,56% abaixo dos níveis registrados no fechamento anterior. Mas com salto de 44,10% desde 26 de fevereiro, às vésperas do começo da guerra.

O encarecimento do petróleo certamente afetará os preços domésticos dos combustíveis aqui dentro, gerando focos inflacionários. O tamanho do “estrago” sobre as taxas de inflação dependerá, como parece evidente, da duração e da intensidade dos conflitos, que sim, podem escalar e gerar um cenário ainda mais gravosos para a economia global.

As medidas adotadas até aqui pela equipe econômica, ainda que limitadas, seguem um roteiro mais racional do que a opção de aumentar os juros ou mantê-los em níveis exageradamente elevados. A redução de impostos sobre o consumo de combustíveis e a taxa de exportações, como forma de estimular o aumento do refino doméstico do petróleo, reforçando a oferta de derivados, faz mais sentido do que uma gestão da política monetária ainda mais conservadora.

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