Redução dos juros não paga um rodízio de esfirra para duas pessoas
Como já sobejamente divulgado, em decisão anunciada no início da noite de quarta-feira, 18, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reduzir a taxa básica de juros de 15,0% para 14,75%, aplicando um “corte” de 0,25 pontos percentuais, com “serenidade e cautela”, nos termos escolhidos pelos membros do comitê para anunciar a decisão. Foi uma redução muito modesta, ainda que se considere o agravamento do conflito no Oriente Médio, com lançamento de bombas sobre instalações petroleiras e estruturas de extração e processamento de petróleo e gás natural num ataque até mesmo surpreendente diante dos desdobramentos que essa ofensiva detonada por Israel poderá gerar.
O cenário internacional tornou-se muito mais incerto, com riscos exacerbados de disruptura das cadeias de suprimento no setor de energia, num sentido mais amplo, com efeitos em sequência sobre a oferta global de óleo e gás, sobre o comércio mundial e, ao final, sobre toda a economia planetária. O que pode ser ponderado, no caso, diz respeito precisamente aos efeitos da manutenção dos juros, que vinham na faixa de 15,0% ao ano há nove meses, e mesmo de uma redução para níveis que devem ser considerados ainda excessivamente altos num cenário sobre o qual o Banco Central (BC) brasileiro não tem a menor capacidade de influenciar.
A decisão do Copom, na prática, preserva o arrocho ao crédito e atinge principalmente as famílias em geral, que mais dependem o mercado tradicional de empréstimos e financiamentos. A tendência mais provável, portanto, será de continuidade do aperto orçamentário para as famílias, com os juros consumindo parte ainda relevante dos rendimentos, num cenário externo muito mais complicado e incerto. Uma conta simples ajuda a entender o impacto muito limitado da redução dos juros.
Na ponta do lápis
Considere uma família de classe média com dívidas ao redor de R$ 20,0 mil contratadas juntos a bancos e financeiras. Suponha agora, rara leitora e raro leitor, que os bancos, num rasgo improvável de generosidade, decidam transferir para seus clientes, tomadores de empréstimos, toda a redução anunciada pelo Copom. Os juros médios cobrados das famílias com dívidas contratadas ao sistema financeiro nacional, que se encontravam nas alturas de 61,0% ao ano até janeiro passado, tenderia a ser reduzidos para 60,75%. O gasto com juros da família mencionada no início do parágrafo seria reduzido de R$ 12,2 mil para R$ 12,150 mil, um “ganho” de R$ 50. Levando-se em conta que o rodízio de esfirra oferecido por uma conhecida rede de lanchonetes sai a R$ 29,90 por pessoa, aquela família não teria economizado o suficiente para bancar o lanche de duas pessoas.
Balanço
Não parece um ganho que animaria as famílias a sair gastando a ponto de levar a atividade econômica a um “superaquecimento”. Mas se a dívida familiar foi de apenas R$ 1,0 mil? Neste caso, o gasto mensal com juros sairia de R$ 610 para – atenção – R$ 607,50. Um “ganho” de R$ 2,50. Não pagaria metade de uma esfirra de frango, a mais barata do cardápio, com preço de R$ 5,79 na promoção.
No segmento livre de crédito, com juros livremente impostos pelos bancos aos tomadores de empréstimo, o saldo de empréstimos e financiamentos tomados pelas pessoas físicas havia alcançado R$ 2,471 trilhões em janeiro deste ano, crescendo 12,41% frente a R$ 2,198 trilhões no mesmo mês do ano passado. Numa estimativa da coluna, a uma taxa média de 61% ao ano, os juros poderiam consumir algo como R$ 1,507 trilhão ao longo de um ano. Mantida a redução de 0,25 pontos percentuais durante um ano, “tudo o mais constante”, como gostam os economistas, aquela despesa seria reduzida em 0,41%, para R$ 1,501 trilhão.
O acirramento da guerra tem tornado os mercados mais instáveis, levando a oscilações intensas nos preços do petróleo, como se observou ao longo do dia de ontem. O barril do Brent, petróleo extraído do Mar do Norte, chegou a bater em US$ 119,11 por volta das seis horas da manhã, reagindo aos pesados ataques desferidos por Israel contra estruturas de produção de óleo e gás no Irã, que respondeu direcionando seus mísseis para o maior complexo global de exportação de gás natural, no Qatar.
Àquela altura, o mercado sinalizava um salto de 10,92% em relação ao fechamento do dia anterior, quando o barril havia alcançado US$ 107,38. Na cotação registrada às 18h45, o preço havia baixado 9,80%, encerrando as negociações por volta de US$ 107,43 e praticamente repetindo a cotação do fechamento anterior. Desde 26 de fevereiro, no entanto, quando o barril do Brent havia sido negociado a US$ 70,75, observa-se um salto de 51,84%.
O barril do West Texas Intermediate (WTI), que baliza o mercado estadunidense principalmente, apresentou volatilidade relativamente mais moderada, abrindo a manhã na faixa de US$ 98,93, mas numa elevação de 3,64% em relação à quarta-feira, 18. No começo da noite, o preço havia cedido para US$ 93,97, caindo 5,01% ao longo do período e encerrando o pregão perto de 1,56% abaixo dos níveis registrados no fechamento anterior. Mas com salto de 44,10% desde 26 de fevereiro, às vésperas do começo da guerra.
O encarecimento do petróleo certamente afetará os preços domésticos dos combustíveis aqui dentro, gerando focos inflacionários. O tamanho do “estrago” sobre as taxas de inflação dependerá, como parece evidente, da duração e da intensidade dos conflitos, que sim, podem escalar e gerar um cenário ainda mais gravosos para a economia global.
As medidas adotadas até aqui pela equipe econômica, ainda que limitadas, seguem um roteiro mais racional do que a opção de aumentar os juros ou mantê-los em níveis exageradamente elevados. A redução de impostos sobre o consumo de combustíveis e a taxa de exportações, como forma de estimular o aumento do refino doméstico do petróleo, reforçando a oferta de derivados, faz mais sentido do que uma gestão da política monetária ainda mais conservadora.