Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Coluna

Relação de troca da pecuária avança, apesar do salto no preço do bezerro

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 06 de dezembro de 2019

A
escalada nos preços do boi gordo e do bezerro, que começou a dar sinais de
algum refluxo nos primeiros dias de dezembro, ainda não parece ter afetado as
margens do setor e, até o momento, tem mesmo favorecido tanto os segmentos de
recria quanto o de engorda e terminação de bovinos. Numa avaliação preliminar,
tomando a série de dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada
(Cepea), da Esalq/USP, a relação de troca no setor (que “mede” a relação entre
os preços da arroba do boi gordo e dos bezerros) subiu fortemente nos últimos
30 dias encerrados em 4 de dezembro frente a idêntico período encerrado em 4 de
novembro deste ano.

Na
média, os preços da arroba do boi gordo saltaram 26% naquela comparação,
passando de R$ 162,92 nas quatro semanas terminadas no dia 4 de novembro para
R$ 205,33 na média dos 30 dias seguintes. O custo do bezerro, sob o ponto de
vista do pecuarista que trabalha exclusivamente com terminação e engorda, subiu
em torno de 10% em idêntico período, saindo de R$ 1.357,87 para R$ 1.495,40. Considerando
o peso médio dos bezerros naqueles períodos em Mato Grosso do Sul (região
selecionada pelo Cepea como referência para o setor), o valor de cada arroba de
boi gordo permitiria comprar o equivalente a 1,685 arrobas de bezerro no
período mais recente, o que significou uma elevação próxima de 13,5% diante de
1,485 arrobas no período de 30 dias imediatamente anterior.

Ao
longo de 12 meses, incluindo como base para comparação o período entre 5 de
novembro e 4 de dezembro de 2018, a evolução entre aqueles dois preços sugere
que ainda há espaço para maior valorização do bezerro ou, alternativamente, uma
redução nos preços do boi gordo (como já tem ocorrido) sem que isso afete o
equilíbrio e as margens entre as duas pontas do sistema pecuário. Enquanto os
preços médios do bezerro subiram de R$ 1.233,40 para R$ 1.495,40 (numa alta de
21,2%), os valores médios alcançados pela arroba nas negociações realizadas na
B3 (a Bolsa de Valores de São Paulo) saltaram 40,2%, avançando de R$ 146,43
para R$ 205,33. A relação de troca observou elevação de 10,6% a favor do boi
gordo, sugerindo igualmente margens brutas mais elevadas para confinadores e
terminadores (sem considerar aqui os custos da ração, de outros insumos,
medicamentos e de outros gastos variáveis).

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“Festa” no
curral

Nos
quatro primeiros dias de dezembro, dado mais recente apurado pelo Cepea, os
preços da arroba apresentaram baixa de 6,5% frente aos valores registrados no
último dia útil de novembro, caindo de R$ 231,55 para R$ 216,50. No caso do
bezerro, os preços ainda avançaram de R$ 1.580,16 para R$ 1.594,39 (variação de
0,9%), buscando acompanhar a elevação mais forte registrada pelo boi gordo nas
semanas anteriores, influenciada pelas compras chinesas, o que tem patrocinado
por aqui uma verdadeira “festa da pecuária”, na descrição do consultor de
agronegócio do Itaú BBA, César de Castro Alves. Ao longo de novembro, a arroba
havia experimentado salto de 35,5% e os preços do bezerro, ponta a ponta,
avançaram pouco menos de 14%.

Balanço

·  
Afetada
drasticamente pela peste suína africana, a China deverá aumentar sua importação
de proteína animal em quase 30% neste ano, estima Alves, o que já tem
favorecido as exportações brasileiras do setor. A dinâmica dos preços da carne
suína no mercado chinês foi afetada igualmente de forma dramática, conforme o
consultor, diante de alta de 200% nos preços dos leitões entre agosto e o final
de novembro.

·  
Por
conta do ciclo mais curto, a China ainda conseguirá aumentar sua produção de
frango em 20%, mas os volumes nem de longo serão suficientes para suprir a
demanda doméstica por proteína animal. O resultado foi um aumento “anormal” dos
pedidos de importação de carne bovina a partir de outubro, no pico da
entressafra brasileira.

·  
De
acordo com Alves, diante do retrocesso da Austrália no mercado global de carne
bovina e da baixa disponibilidade relativa do produto na Argentina, o Brasil
está praticamente sozinho neste mercado, lembrando que os Estados Unidos, outro
grande produtor e exportador, “está em guerra (comercial, obviamente) com a
China”.

·  
O
número de plantas habilitadas para exportações pelos chineses cresceu de 15
para 37 aqui dentro. Mas há uma limitação, lembra Alves: a China importa carne
bovina apenas de animais com no máximo 30 meses de idade (dois anos e meio), média
em geral alcançada apenas nos sistemas mais tecnificados
no Brasil.

·  
De
qualquer forma, apenas em outubro, a China importou 65,8 mil toneladas de carne
bovina in natura do Brasil, respondendo por 41% de toda a exportação do setor
naquele mês, pagando preços acima da média. De fato, o País conseguiu vender a
tonelada de carne bovina in natura a US$ 4.473 quando se considera o total das
exportações. Nas vendas para a China, o valor médio por tonelada atingiu US$
5.670 – ou seja, 26,8% a mais.

·  
Pelos
dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações do setor recuaram
quase 9% em novembro, baixando de 170,498 mil no mês anterior para 155,582 mil
toneladas (ainda 19,3% maior do que em novembro de 2018, quando os embarques
atingiram 130,466 mil toneladas).

A alta dos principais cortes da carne bovina
(alcatra, paleta, patinho, costela e coxão duro) explicou 30,4% do Índice de
Preços ao Consumidor (IPC) em Goiânia, que subiu de 0,03% em outubro para 1,27%
em novembro, o mais elevado para o mês desde 2015. Para que não consome carne,
a inflação teria sido de 0,88%.