Remessas de lucros e pagamento de serviços tecnológicos elevam déficit
O déficit na conta de transações correntes, que vinha desabando nos meses iniciais deste ano, respondendo ao avanço no superávit comercial (exportações menos importações de bens e mercadorias), experimentou alta de 33,87% em agosto, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Segundo dados do Banco Central (BC), o déficit nas transações com o restante do mundo avançou de US$ 3,776 bilhões para US$ 5,055 bilhões em valores aproximados, correspondendo a uma elevação de US$ 1,279 bilhão. O resultado na balança comercial, vale dizer, a diferença entre exportações e importações, continua positivo e em crescimento, mas desta vez essa tendência não foi suficiente para compensar o aumento no déficit nas conta de serviço e de renda primária – basicamente por conta do crescimento das remessas de lucros e dividendos para fora no País e a pagamentos relacionados a “serviços tecnológicos”.
Na classificação adotada pela coluna, aqueles serviços incluem o pagamento de royalties pelo uso de tecnologias importadas, o aluguel de equipamentos (que representam, ao fim e ao cabo, também uso de tecnologias trazidas de fora) e ainda remessas para fazer frente a despesas nas áreas de telecomunicação, computação e informações. No total, o déficit na conta de serviços passou de US$ 4,095 bilhões em agosto do ano passado para US$ 5,251 bilhões em igual mês deste ano, num incremento de 28,22% (ou perto de US$ 1,156 bilhão a mais).
Na soma daqueles itens, no conjunto dos serviços associados ao uso de tecnologias importadas, as despesas líquidas, já descontadas as receitas na mesma área, saltaram 50,47% entre agosto do ano passado e igual mês deste ano, escalando de US$ 2,237 bilhões para US$ 3,366 bilhões, num gasto adicional em torno de US$ 1,129 bilhão – o que explica 97,66% do aumento observado em todo o déficit na conta de serviços.
Lucros e dividendos
A renda primária, que havia registrado remessas líquidas de US$ 5,407 bilhões em agosto do ano passado, teve o déficit elevado para US$ 6,954 bilhões no mesmo mês deste ano, significando alta de 28,60% ou qualquer coisa como US$ 1,547 bilhão a mais. As remessas de lucros e dividendos, incluindo ganhos com investimentos estrangeiros no lado real da economia e em operações em Bolsa e no mercado de títulos privados e públicos, subiram 40,4% na mesma comparação, saltando de US$ 4,219 bilhões para US$ 5,925 bilhões, algo como US$ 1,706 bilhão a mais. O impacto sobre a renda primária foi amenizado por uma redução de 12,47% nas despesas com juros, que saíram de US$ 1,215 bilhão para US$ 1,059 bilhão (em torno de US$ 155,994 milhões a menos).
Balanço
O saldo comercial continuou crescendo com algum vigor ao passar de US$ 5,311 bilhões para US$ 6,622 bilhões, num incremento de 24,67% ou em torno de US$ 1,310 bilhão a mais. Ganho explicado pela alta das exportações, que suplantou o avanço registrado pelas importações. As vendas externas de bens e mercadorias aumentaram 12,11% entre agosto do ano passado e igual período deste ano, saindo de US$ 29,688 bilhões para US$ 33,284 bilhões – perto de US$ 3,596 bilhões a mais.
As compras de bens e mercadorias importadas, na mão contrária, registraram variação positiva de 9,38%, passando de US$ 24,377 bilhões para US$ 26,663 bilhões, numa variação de US$ 2,286 bilhões em termos absolutos.
O investimento estrangeiro direto no País experimentou baixa em agosto, reduzido de US$ 7,659 bilhões no passado para US$ 7,396 bilhões neste ano, num recuo de 3,44%. No acumulado entre janeiro e agosto, o BC anota ligeiro avanço de 2,42% em relação aos oito primeiros meses do ano passado, com os investimentos elevando-se de US$ 62,895 bilhões para US$ 64,414 bilhões.
Ao longo dos 12 meses terminados em agosto deste ano, o investimento estrangeiro direto alcançou US$ 86,564 bilhões, em torno de 3,39% do Produto Interno Bruto (PIB), o que se compara com US$ 79,279 bilhões nos 12 meses imediatamente anteriores. Nessa comparação, observa-se uma elevação de 9,19%, mas um recuo de 0,25 pontos percentuais na relação entre investimentos e PIB, que havia atingido 3,64% entre setembro de 2024 e agosto de 2025.
Em igual período, o déficit em transações correntes apresentou baixa de 18,05%, reduzido de US$ 76,918 bilhões (3,53% do PIB) para US$ 63,038 bilhões (3,39% do produto), em grandes números, em queda de aproximadamente US$ 13,881 bilhões. O investimento estrangeiro, que já havia superado o déficit em transações correntes em 3,07%, ampliou a diferença para 37,32%. Em outros termos, o investimento realizado por estrangeiros havia superado o déficit corrente em US$ 2,360 bilhões nos 12 meses finalizados em agosto do ano passado e, nos 12 meses seguintes, o saldo positivo foi aumentado em quase 10 vezes, para US$ 23,527 bilhões.
Nos oito meses iniciais deste ano, o déficit em transações correntes continuou apresentando números negativos, numa redução de 9,12%, recuando de US$ 47,879 bilhões entre janeiro e agosto de 2025 para US$ 43,512 bilhões (baixa de US$ 4,367 bilhões). O superávit comercial ajudou na melhoria das contas externas ao avançar de US$ 37,835 bilhões para US$ 48,690 bilhões, num salto e 28,69% (mais US$ 10,855 bilhões).
Os déficits nas contas de serviços e de renda primária aumentaram, pela ordem, 10,05% e 6,53%, evoluindo de US$ 35,201 bilhões para US$ 38,740 bilhões no primeiro caso e de US$ 53,344 bilhões para US$ 56,827 bilhões no segundo. Somadas, aquelas duas contas acresceram US$ 7,022 bilhões ao déficit corrente do País com o resto do planeta, resultado compensado com alguma folga pela alta no saldo comercial positivo.
Os dados do BC permitem destacar a participação decisiva das despesas líquidas com “serviços tecnológicos” e das remessas de lucros e dividendos no aumento daqueles déficits. Os gastos com serviços associados a processos tecnológicos e equipamentos foram ampliados de US$ 21,399 bilhões para US$ 24,760 bilhões, subindo 15,71% ou algo em torno de US$ 3,361 bilhões a mais – o que representou 94,98% do aumento no déficit de serviços em geral.
As remessas de lucros e dividendos cresceram de forma menos intensa e registraram elevação de 8,56%, saindo de US$ 35,072 bilhões para US$ 38,073 bilhões, num acréscimo de US$ 3,001 bilhões – algo como 86,14% do aumento do déficit na conta de renda primária.
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