Na pandemia, brasileiro fica mais endividado e vê renda encolher

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 30 de abril de 2021

A massa salarial em seu conceito mais amplo, no dado mais recente divulgado pelo Banco Central (BC), experimentou queda nominal de quase 5,0% na comparação entre os 12 meses terminados em janeiro deste ano e os 12 meses anteriores, saindo de R$ 3,443 trilhões para R$ 3,272 trilhões – uma perda de R$ 170,915 bilhões, aproximadamente. O crédito ampliado contratado pelas famílias, que soma empréstimos e financiamentos do sistema financeiro, operações com fundos de pensão e consórcios, empréstimos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), dívida externa e outras formas de crédito, havia experimentado alta de 10,56% entre janeiro de 2020 e o mesmo mês de 2021, evoluindo de R$ 2,232 trilhões para R$ 2,467 trilhões.

Na definição do BC, a massa salarial ampliada disponível inclui salários, aposentadorias, pensões, pagamentos do programa Bolsa Família e benefícios de prestação continuada, descontados o Imposto de Renda recolhido na fonte e as contribuições para a Previdência. Por esse conceito, o endividamento das famílias avançou de 64,81% em janeiro do ano passado para 75,39% no primeiro mês deste ano. Considerando apenas os empréstimos e financiamentos concedidos pelo sistema financeiro, a relação entre dívida e renda saiu de 48,9% para 57,0%.

Entre fevereiro e março, a dívida das famílias avançou moderadamente, variando ao redor de 1,0% e atingindo praticamente R$ 2,510 trilhões, algo como 33,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas as estatísticas do BC registram um salto de 11,6% frente a março do ano passado, quando esse tipo de crédito havia se aproximado de R$ 2,249 trilhões, representando 30,0% do PIB. Até o momento, os indicadores da inadimplência entre pessoas físicas continuam bem comportados, representando 2,9% do crédito tomado aos bancos diante de 3,9% em março do ano passado e de 4,1% em abril, com o agravamento da pandemia. O descolamento entre renda e endividamento, no entanto, poderá complicar o cenário no mercado de crédito, trazendo elevação para o nível de empréstimos e financiamentos não honrados (ou exigindo que bancos e financeiras adotem estratégias para renegociar dívidas e/ou interromper temporariamente a cobrança de juros e prestações).

No vermelho

A oferta de novos créditos ao setor real da economia, representado por empresas e famílias, chegou a crescer em março deste, na comparação com fevereiro, um salto de 29,7% (saindo de R$ 313,8 bilhões para R$ 407,1 bilhões). O crescimento mensal, vigoroso apenas na aparência, não foi suficiente para evitar a queda nas concessões de novos empréstimos e financiamentos no primeiro trimestre deste ano. Os bancos emprestaram 10,6% a menos entre o trimestre final de 2020 e o primeiro deste ano, pois as concessões baixaram de R$ 1,134 trilhão para R$ 1,017 trilhão, num recuo de 1,04% diante do primeiro trimestre do ano passado. A queda ficou concentrada nas concessões direcionadas às empresas, que recuaram 6,8% (de R$ 504,1 bilhões para R$ 469,8 bilhões, acima apenas dos R$ 457,2 bilhões liberados pelo setor financeiro no segundo trimestre do ano passado).

Balanço

  • As medidas adotadas pelo BC para reforçar a oferta de dinheiro no setor financeiro, envolvendo a liberação de compulsórios e de garantias, recompra de títulos e outras medidas com propósitos idênticos (assegurar liquidez ao sistema), somaram qualquer coisa ao redor de R$ 2,622 trilhões no ano passado. O comportamento das concessões de novos empréstimos mostra que a maior fatia dessa dinheirama ficou “empoçada” nos bancos – quer dizer, o dinheiro foi em grande parte destinado a aplicações financeiras, ou seja, ao cassino dos juros, sem efeitos concretos sobre o lado real da economia.
  • O encolhimento do crédito neste início de ano, quando se consideram as concessões de novos empréstimos, especialmente no caso das empresas, pode ser um complicador a mais para uma economia que já enfrenta baixos níveis de demanda e desemprego elevado.
  • Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), consideradas em valores reais (descontada a inflação), as concessões às empresas já vinham em desaceleração, saindo de um incremento de 13,4% no terceiro trimestre do ano passado para uma variação de apenas 0,7% no último trimestre do ano, frente a idênticos períodos do ano anterior. No primeiro trimestre deste ano, registrou-se um tombo de 7,3% (em relação a igual intervalo de 2020).
  • Para o Iedi, essa retração estaria relacionada, dentre outros fatores, à demora do governo em retomar os programas de apoio a empresas que chegaram a ser lançados nos primeiros meses da pandemia, em 2020, mas foram todos encerrados em dezembro último. “A queda neste início de ano poderia ter sido mais acentuada não fosse o crédito oficial, que continuou crescendo a taxas substanciais: +40,1% em termos reais frente a janeiro-março/2020, embora não tenha escapado de alguma desaceleração em relação a trimestres anteriores”, acrescenta o Iedi.
  • As concessões para o financiamento de capital de giro encolheram drasticamente, certamente com impactos na gestão do fluxo de caixa para a maioria das empresas que dependem de crédito. No primeiro trimestre do ano passado, as concessões nesta área haviam somado R$ 61,565 bilhões, mas caíram para R$ 49,42 bilhões nos primeiros três meses deste ano, num tombo de 19,7%. A perda foi ainda mais drástica quando se consideram as concessões realizadas no quarto trimestre de 2020, na faixa de R$ 96,242 bilhões. Nessa comparação, os novos empréstimos despencaram 48,7%.
  • Ainda na análise do instituto, além da redução no “crédito novo”, registrou deterioração nas condições de financiamento para as empresa de forma geral, “prejudicadas pela redução de prazos médios e pela elevação das taxas médias de juros, que no segmento livre, que melhor refletem as condições de mercado, saíram de11,6% ao ano em dezembro de 2020 para 13,8% ao ano em março de 2021”.
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