Segunda-feira, 22 de julho de 2024

Coluna

Renda das famílias havia acelerado a tendência de retração em maio

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 14 de julho de 2020

A
renda das famílias não só continua encolhendo, mas acelerou o ritmo da queda em
maio, o que torna o cenário à frente ainda mais incerto,
num momento em que os casos de infestação pelo Sars-CoV-2 avançam, se
deslocando para o interior do País, governos e prefeituras prosseguem nos
planos de liberalização das atividades e os riscos de uma segunda onda de
contaminações não deveriam ser descartados desde já.A Pesquisa Nacional por
Amostra de DomicílioContínua (PNADC), realizada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), já havia mostrado queda real (descontada a
inflação) de 7,3% para a massa de rendimentos efetivamente recebidos pelos
trabalhadores no trimestre móvel encerrado em maio deste ano na comparação com
o mesmo período de 2019, anota a Instituição Fiscal Independente (IFI), no
Relatório de Acompanhamento Fiscal divulgado ontem.

Como
os salários efetivos, ou seja, de fato recebidos pelos trabalhadores, na média,
mantiveram-se estáveis no período, a perda veio da retração do emprego no
período. A estabilidade dos “rendimentos do trabalho” – termo que traduzido do
economês pode muito bem ser entendido como o velho e bom salário – explica-se
porque os primeiros a perder o emprego são em geral trabalhadores com menor
nível de capacitação e, portanto, com salários mais baixos, e também os
informais, especialmente pelas características únicas da crise que assola a economia,
derivada de uma pandemia viral. Num efeito estatístico, o rendimento médio não
cai, mas a renda recebida por todos fica mais curta.

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Retrato mais
fiel

O
Banco Central (BC), como sabem as raras leitoras e raros leitores que
acompanham este espaço, divulga com certa defasagem a massa salarial ampliada
disponível. O dado mais recente disponível diz respeito a maio deste ano e
continuava apontando queda na comparação com os períodos anteriores. No cálculo
da IFI, o indicador do BC havia registrado queda real de 4,7% no trimestre
terminado em maio frente ao mesmo período de 2019. “Além dos rendimentos
efetivos do trabalho, o indicador inclui outras fontes de recursos que se
configuram como renda para as famílias (benefícios de proteção social – como o
Benefício de Prestação Continuada ou BPC, bolsa família e seguro desemprego – e
previdenciários pagos pelo governo federal) e desconta o Imposto de Renda (IR) e
as contribuições previdenciárias, configurando-se como uma aproximação mais
fidedigna do efetivo volume de recursos que circulam e dinamizam a economia”,
ressalta a instituição.

Balanço

·  
Na
série de dados do BC, a massa salarial disponível é apresentada em valores
nominais, com a conta levando em consideração uma média móvel trimestral, o que
ajuda a escapar das flutuações mensais que nem sempre sugerem tendências à
frente.

·  
No
trimestre março-maio, as famílias chegaram a registrar um total de R$ 265,947
bilhões disponíveis para fazer frente a despesas diversas, inclusive outros
impostos (que não o IR), prestações de dívidas e compromissos variados do dia a
dia. Mas mesmo em termos nominais, o valor era 13,1% mais baixo do que no trimestre
dezembro de 2019 a fevereiro de 2020, quando massa de renda havia alcançado R$
305,993 bilhões. Na comparação, observa-se uma perda nominal de R$ 40,406
bilhões.

·  
No
trimestre final de 2019, a massa salarial das famílias havia atingido, agora em
valores corrigidos pela inflação oficial, perto de R$ 320,021 bilhões. Até
maio, portanto, a renda murchou em quase R$ 54,074 bilhões, refletindo um tombo
de 16,9% em termos reais. Também em valores corrigidos pelo Índice Nacional de
Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a renda das famílias no trimestre finalizado
em maio deste ano foi a mais baixa para o período desde 2016, ou seja, na saída
da recessão mais recente. Perda mais forte do que aquela verificada entre
dezembro e abril.

·  
Ainda
de acordo com o relatório da IFI, o saldo do crédito para grandes empresas tem
caminhado mais rapidamente do que aquele destinado a micro, pequenas e médias
empresas. Segundo a instituição, “enquanto os saldos de crédito destinado às
grandes empresas registraram aumentos de 3,4% em março, 8,4% em abril e 9,5% em
maio, em termos reais, o crédito voltado às micro, pequenas e médias empresas
subiu 3,7%, 4,7% e 6,1%, nessa mesma ordem.

·  
Considerado
a preços de maio deste ano, o estoque do crédito liberado para as grandes
empresas aumentou 12,9% desde fevereiro, saindo de R$ 897,0 bilhões para R$
1,012 trilhão (R$ 115,0 bilhões a mais). No caso das empresas de menor porte, o
crescimento ficou muito próximo de 3,0% (ou seja, quase um quarto da taxa
anotada pelas grandes), com o saldo avançando de R$ 538,0 bilhões para R$ 555,0
bilhões, em grandes números (um avanço de apenas R$ 17,0 bilhões (um sétimo do
crédito aportado a mais para as maiores companhias do País).

·  
Segundo
a IFI, “esse maior crescimento relativo do crédito destinado a grandes
empresas, comparativamente ao crédito voltado a micro, pequenas e médias
empresas, reforça a percepção de que, especialmente as companhias de maior
porte, voltaram-se ao crédito bancário como instrumento para se financiar após
o agravamento das condições econômicas decorrentes da pandemia”.