Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Coluna

Renda do trabalho cai 9,7% neste ano e riqueza financeira continua sua escalada

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 29 de agosto de 2019

A
soma de todos os salários recebidos pelo conjunto das famílias brasileiras, já
descontados compromissos com Imposto de Renda e pagamentos à Previdência
Social, sofreu baixa de 9,66% entre o último trimestre do ano passado e o
segundo deste ano, enquanto a riqueza financeira, acumulada pelos mais ricos,
continuava sua escalada, alargando as desigualdades e agravando a concentração
da renda e das riquezas num país que já é o segundo mais injusto do planeta. Nas
estatísticas do Banco Central (BC), liberadas ontem para a imprensa, a massa
salarial disponível encolheu de R$ 295,351 bilhões no trimestre encerrado em
dezembro do ano passado para R$ 266,635 bilhões na média entre abril e junho
deste ano.

A
retração talvez ajude a explicar porque a economia voltou a namorar seriamente
com nova recessão ao longo do primeiro semestre. Como os dados acima não estão
atualizados com base na inflação do período, o tombo em termos reais foi bem
mais severo, afetando mais duramente a capacidade de consumo das famílias. Como
alívio, mas nem tanto, a massa salarial disponível apresentou elevação de 4,91%
na comparação com o segundo trimestre do ano passado, quando havia alcançado R$
254,143 bilhões. A queda mais recente, no entanto, significa um balde de água
fria sobre a demanda doméstica.

Na
verdade, a taxa de crescimento em 12 meses da massa salarial vem desacelerando
nos últimos meses. As estatísticas do BC tomam como base os rendimentos totais
recebidos pelos trabalhadores e registrados pela Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílio Ampliado, acrescentando transferências de renda do governo federal
por meio de programas sociais como o Bolsa Família, além de aposentadorias e
pensões recebidas pelas famílias e descontam pagamentos de impostos e
contribuições previdenciárias.

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Nos
12 meses encerrados em junho de 2016, o BC registrou avanço de 8,21% frente aos
12 meses terminados em junho de 2015, variação reduzida para 5,39% em junho de
2018.Até junho deste ano, sempre considerando um intervalo de 12 meses, a massa
salarial variou 4,57% frente a junho de 2018, saindo de R$ 3,145 trilhões para
R$ 3,288 trilhões.

Ciranda
financeira

Enquanto
isso, a montanha de reais estacionada em aplicações diversas no mercado
financeiro, incluindo a tradicional poupança, títulos de renda fixa, fundos de
investimento e outras operações com títulos federais e privados, avançou 3,22%
desde dezembro, com alta de 7,16% na comparação entre julho do ano passado e
julho deste ano. Em valores não atualizados, a riqueza financeira aumentou de
R$ 6,117 trilhões em julho de 2018 para R$ 6,555 trilhões no mesmo mês deste
ano, passando a representar 93,42% do Produto Interno Bruto (PIB). Em julho do
ano passado, a relação havia alcançado 91,28%.

Balanço

·  
Para
comparação, a fatia no PIB da massa salarial ampliada disponível (estimada com
base no conceito adotado pelo BC) recuou levemente de 47,11% em junho de 2018
para 47,05% no mesmo mês deste ano (tomando-se, no caso, a massa de salários
acumulada em 12 meses).

·  
Em
outra comparação, a riqueza aplicada no cassino dos juros chegou a ser quase
duas vezes maior do que toda a renda das famílias (sempre no conceito do BC,
repita-se). Em julho do ano passado, aquelas aplicações eram 94,52% maiores do
que a massa salarial ampliada disponível, diferença que avançou para 99,35% em
junho deste ano.

·  
No
final do primeiro semestre, as famílias voltaram a enfrentar o aumento das
dívidas bancárias e do serviço (juros e amortizações) gerado por esse tipo de
endividamento, comprometendo mais uma vez a capacidade de consumo na economia.

·  
O
endividamento total, incluindo empréstimos bancários e financiamentos
imobiliários, com destaque para a primeira categoria, saiu de 42,0% em junho de
2018 para 44,3% em junho deste ano, o mais elevado desde março de 2016.

·  
Numa
estimativa da coluna, construída com estatísticas do BC, o saldo daquela dívida
teria avançado de R$ 1,321 trilhão (19,80% do PIB) para R$ 1,457 trilhão
(20,85%), num salto de 10,3%.

·  
A
parcela da renda familiar destinada ao pagamento de juros e amortizações
daquelas dívidas avançou ligeiramente de 20,30% em junho do ano passado para
20,63% no mesmo mês deste ano, superado apenas por julho de 2017 (20,66%).

Considerada a massa de salários trimestral, o
pagamento de juros e amortizações teria exigido R$ 55,01 bilhões no segundo trimestre
deste ano, frente a menos de R$ 51,6 bilhões em igual período de 2018, num
aumento de 6,6%.