Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Coluna

“Riqueza” financeira estacionada no mercado passa a superar 95% do PIB

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 28 de outubro de 2019

A
redução dos juros básicos pouco alterou o cenário no mercado financeiro, até
porque a economia continua amplamente sob o domínio do setor, em um país onde
os rentistas (aqueles que vivem dos lucros gordos proporcionados por aplicações
financeiras) ditam a política econômica desde pelo menos o final da primeira
metade dos anos 1990. Não é exatamente causa de surpresa, portanto, que a
chamada “riqueza” financeira continue a avançar, assumindo proporções
exageradas ao longo do tempo, acirrando a concentração e as desigualdades num
País que já se coloca entre os mais desiguais do planeta.

Numa
conta que soma o estoque de dinheiro estacionado em aplicações na tradicional
caderneta de poupança, em fundos de renda fixa, em títulos privados e papéis
federais, emitidos pelo Tesouro, essa “riqueza” passou a corresponder a praticamente
95,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em setembro deste ano. Segundo dados do
Banco Central (BC) trabalhados pela coluna, essa “riqueza” financeira avançou
de R$ 6,271 trilhões em setembro do ano passado, quando correspondia a 92,88%
do PIB, para R$ 6,713 trilhões em igual mês deste ano, acumulando variação de
7,05%.

Para
comparação, ainda conforme as séries estatísticas do BC, em setembro de 2015 a
participação do saldo daquelas aplicações financeiras no PIB havia sido de
87,51%. Ou seja, a montanha de dinheiro desviada para aplicações financeiras e
para o cassino dos juros registrou uma elevação equivalente a 7,56 pontos porcentuais
sobre o PIB, demonstrando um vigor não observado em todo o restante da
economia, que continua patinando quase três anos após encerrada a recessão.

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Dreno de reais

Em
valores nominais, a “riqueza” financeira aumentou 33,63% desde setembro de
2015, saindo de R$ 5,024 trilhões. O PIB, nas projeções adotadas pelo BC,
registrou elevação nominal em torno de 23%. Apenas como referência, o Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresentou elevação de 20,27%
entre setembro de 2015 e o mesmo mês de 2019. Toda essa dinheirama permanece estacionada
principalmente em aplicações de curtíssimo prazo, sem gerar emprego, renda e um
mísero parafuso sequer, com o mercado financeiro funcionando como um dreno do
dinheiro que circula no País. Na prática, não faltam recursos, mas falta
poupança, entendida como as “reservas” construídas pelas empresas, pelos
governos e pelas famílias para financiar o crescimento, a expansão dos negócios
e a ampliação do bem-estar da sociedade

Balanço

·  
Agora,
caro leitor, cara leitora, compare com o que tem ocorrido com a massa salarial
ampliada disponível. O nome parece complicado, mas significa a soma de todos os
salários pagos, mais rendimentos de pensões, aposentadorias e dos programas
públicos de transferência de renda para os mais pobres (como o Bolsa Família),
já descontados o Imposto de Renda recolhido na fonte e a contribuição para a
Previdência, num cálculo realizado pelo BC.

·  
Neste
caso, como há uma defasagem maior na divulgação, já que a autoridade monetária
depende da divulgação pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) dos números mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio
Contínua (PNADC), a comparação levará em conta o período entre agosto de 2015 e
igual período deste ano.

·  
Nesse
intervalo, a tal “riqueza” financeira cresceu 31,8% (já que havia alcançado R$
5,017 trilhões em agosto de 2015, saltando neste em agosto deste ano para R$
6,609 trilhões). A participação no PIB saltou de 87,71% para 93,87%, num
acréscimo de 6,16 pontos de porcentagem.

·  
A
massa salarial, com os avanços registrados antes da crise, acumulou variação
muito próxima, subindo 31,4% (de R$ 2,533 trilhões para R$ 3,328 trilhões). Mas
sua fatia no PIB avançou 2,98 pontos, saindo de 44,29% para 47,27%. Embora a
variação nominal tenha sido muito próxima, o avanço sobre o PIB das “riquezas”
financeiras foi duas vezes maior (6,16 diante de 2,98 pontos de porcentagem,
mais claramente).

·  
Num
período mais recente, as diferenças têm se alargado. Entre agosto de 2018 e o
igual mês deste ano, enquanto a massa salarial cresceu 5,44% (em valores
nominais), a “riqueza” financeira aumentou 6,21%.

Considerando a participação no PIB, o lado
financeiro da economia ampliou sua vantagem, elevando sua fatia de 92,47% para
93,87% (1,40 pontos a mais). A parte da massa salarial disponível na riqueza
total elevou-se ligeiramente de 46,90% para 47,27% (quer dizer, um acréscimo de
apenas 0,37 pontos).