quarta-feira, 11 de março de 2026

“Riqueza” financeira supera 160% do PIB e salta 129% em seis anos

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 11 de março de 2026

O Brasil vai se consolidando como uma espécie de paraíso dos muito, mas muito ricos mesmo, consolidando sua posição como um dos países mais desiguais e injustos no planeta na distribuição da renda e das riquezas geradas ano a ano por seus trabalhadores e suas empresas, que acabam capturadas em porções muito generosas pelos donos do dinheiro. Como já anotado neste espaço, a ampla dominância do rentismo sobre as decisões de política econômica e sobre a distribuição dos ganhos acumulados pelo conjunto da sociedade desde os anos 1980 mantém-se como um dos grandes entraves às pretensões de desenvolvimento econômico e de construção de um país autônomo e mais justo.

Em mais uma aproximação da situação dramática causada pelas políticas antipovo, enquanto a “brigada austericida” direciona sua ferocidade contra as chamadas despesas sociais, os haveres financeiros em poder dos muito ricos, somando nessa conta pessoas não residentes no Brasil, continuaram escalando nos últimos anos. Apenas no ano passado, aqueles haveres somaram R$ 20,824 trilhões, incluindo aplicações financeiras em fundos de investimento, títulos públicos e privados e outros veículos desenvolvidos pelo setor financeiro para atrair o dinheiro que sobra da economia (quer dizer, a “liquidez” doméstica no economês predominante).

Aquela montanha de dinheiro representou 163,48% do total de riquezas geradas pela economia naquele ano, consolidadas no Produto Interno Bruto (PIB), estimado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em R$ 12,739 trilhões. Analisado o mesmo dado sob outra ótica, os haveres estacionados no mercado financeiro superaram o valor produzido pelo lado real da economia em R$ 8,085 trilhões, quer dizer, 63,48% a mais.

Disparidade

A comparação entre 2024 e 2025 mostra uma alta de 11,94%, quer dizer, algo como 7,37% acima da inflação do ano passado, que havia recuado para 4,26%. Como referência, em 2024, o estoque de haveres financeiros havia alcançado pouco menos de R$ 18,604 trilhões, algo como 157,94% sobre o valor do PIB daquele ano, alguma coisa na faixa de R$ 11,779 trilhões.

Com base nos dados oficiais, o PIB registrou variação nominal de 8,14%, correspondendo a um acréscimo de R$ 959,315 bilhões. O que permite outra linha de avaliação. O aumento registrado pelos haveres, algo em torno de R$ 2,220 trilhões a mais, foi nada mais do que 131,5% maior do que o aumento das riquezas produzidas pela economia real, aquela que cria empregos, fabrica produtos e gera novos serviços.

Balanço

• Para não deixar de anotar, a política de juros altos, como parece evidente, desempenha papel central em todo esse processo, causando distorções em cadeia sobre toda a economia e tornando o País mais injusto ao patrocinar o aumento da concentração de renda e de riquezas.

• Num intervalo relativamente mais longo, tomando 2019 como referência, período que antecede a pandemia, o saldo dos haveres financeiros acumulou um salto de 128,73%. Essa comparação considera, nos dados do Banco Central (BC), um total de R$ 9,104 trilhões ao final de 2019, representando 123,21% do PIB.

• Em seis anos, portanto, aqueles haveres registraram um incremento de R$ 11,720 trilhões, enquanto o PIB, tomado a valores nominais, experimentou elevação de R$ 5,349 trilhões no mesmo intervalo. A diferença entre os dois números mostra um total de R$ 6,370 trilhões a favor dos muito ricos, que conseguiram elevar suas aplicações em mais de duas vezes todo o avanço acumulado pelo PIB.

• A comparação com a evolução da renda nacional bruta disponível das famílias, no conceito desenvolvido pelo BC, torna a comparação ainda mais escandalosa. Em 2019, o total de haveres já era 73,87% maior do que a renda das famílias, um abismo literal. Naquele ano, considerando a definição adotada pela autoridade monetária, a valores não atualizados, as famílias receberam algo próximo de R$ 5,236 bilhões, em torno de 70,86% do PIB.

• No ano passado, o abismo alargou-se ainda mais e o total de haveres passou a ser 126,95% maior do que toda a renda familiar bruta. Não que a renda tenha sido congelada no período. Pelo contrário, houve um crescimento nominal de 75,23%, com a renda elevando-se para R$ 9,176 trilhões, diante de uma variação de 72,40% para o PIB, igualmente em termos nominais. A renda passou a representar 72,06% do produto, não muito distante da relação observada em 2019.

• O problema é que o saldo dos haveres financeiros cresceu quase três vezes mais do que a renda das famílias por conta das escolhas de política econômica realizadas em todo o período (e mesmo antes), que sempre beneficiaram em maior intensidade exatamente os mais ricos, aqueles que podem participar do cassino de juros altos, embolsando ganhos sem trazer para o País qualquer tipo de contribuição ou contrapartida.

• Enquanto a renda bruta disponível apresentou incremento de R$ 3,939 trilhões, o que não deixou de ser expressivo, os haveres financeiros, como já anotado, aumentaram em quase R$ 11,720 trilhões. Se a renda total correspondia, em 2019, a uma fração equivalente a 57,52% dos haveres financeiros, essa relação encolheu para 44,06% no ano passado.

• Para relembrar, a renda nacional disponível inclui os salários pagos aos trabalhadores, dividendos e outras rendas recebidas por donos de empresas, rendimentos de aluguéis, juros e demais rendimentos de aplicações financeiras, aposentadorias, pensões e benefícios do sistema nacional de assistência social, como os benefícios de prestação continuada, renda mensal vitalícia e Bolsa Família, além de transferências eventuais de renda, a exemplo do auxílio emergencial pago em 2020 e em parte de 2021. Depois de somar todos aqueles valores, o BC desconta os valores pagos pelas famílias a título de imposto de renda e impostos sobre o patrimônio (como IPTU e ITR), as contribuições para a Previdência e transferências de renda feitas pelas famílias para outras instituições e para fora do Brasil.

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