domingo, 27 de setembro de 2026

Rombo causado pelos juros já supera um trilhão de reais

Lauro Veiga Filhopor em
Rombo causado pelos juros já supera um trilhão de reais

As apostas do mercado estão feitas, com pressões devidamente endereçadas ao Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne entre hoje e amanhã, respectivamente 16 e 17, para definir o tamanho dos juros básicos dali em diante. Para a maioria dos apostadores, a alta diretoria do Banco Central (BC), que comando o comitê, deverá manter a taxa básica, mais conhecida como “taxa Selic” entre operadores, analistas e o jornalismo dito especializado, deverá manter os juros em inacreditáveis 15,0% ao ano, aproximando-se de uma taxa real muito próxima de 10,3% ao ano depois de descontada a inflação de 4,30% esperada para 2026 pelo mercado, segundo projeções coletadas pelo relatório Focus, divulgado semanalmente pelo BC.

A ser mantida ao longo dos meses finais deste ano naqueles mesmos níveis, como esperam os agentes financeiros instalados na Faria Lima, a taxa básica terá experimentado um incremento de 2,75 pontos percentuais, saindo de 12,25% ao final do ano passado. Conforme simulações do próprio BC, aquele acréscimo terá gerado uma pressão adicional de R$ 149,6 bilhões sobre a dívida bruta do governo geral, algo em torno de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) a se considerar a estimativa divulgada pela autoridade monetária em julho deste ano.

Mas o estrago será maior ainda, já que aquele quase R$ 150,0 bilhões dizem respeito “apenas” ao gasto extra ao qual estarão submetidos os governos em seus três níveis ao longo de 12 meses. Para efeito de comparação, cinco meses antes de concluído o exercício em curso, mas tomando o período de 12 meses encerrados em julho deste ano, dado mais recente divulgado pelo BC, a dívida bruta geral do governo experimentou elevação nominal de 8,26% em relação ao período de 12 meses imediatamente anterior, saindo de R$ 8,826 trilhões para R$ 9,555 trilhões.

Estrago trilionário

Houve um acréscimo, portanto, de R$ 728,776 bilhões, equivalentes a 5,92% do PIB, estimado pelo BC em R$ 12,321 trilhões no acumulado entre agosto de 2024 e julho de 2025. Em igual intervalo, os governos recompraram algo como R$ 278,250 bilhões da dívida bruta que rodava pelos mercados, recomprando títulos naquele mesmo valor, num total aproximado de 2,26% do PIB. Se você, ligeira leitora e ligeiro leitor, paga (ou recompra, o que dá no mesmo) uma parte de sua dívida, certamente alimentará a corretíssima expectativa de conseguir reduzi-la. No caso dos governos, a despeito dos esforços nessa direção, a dívida manteve-se em crescimento, como mostram os dados. O avanço deveu-se única e exclusivamente por conta dos juros, que somaram pouco mais de R$ 1,014 trilhão entre agosto do ano passado e julho deste ano, gerando um rombo correspondente a 8,23% do PIB.

Balanço

  • A despeito do estrago gerado pelos juros, um autoproclamado especialista em contas públicas tem se dedicado a comprovar que a política de aumentos reais para o salário mínimo seria, se não a principal, mas certamente uma das mais sérias ameaçadas à solidez fiscal do governo federal. Isso porque, mostram seus cálculos, aquela política tenderia a produzir uma elevação de R$ 165 bilhões na dívida pública ao longo dos quatro anos do atual mandato presidencial. Quer dizer, um acréscimo anual de R$ 41,3 bilhões, em valores arredondados.
  • Ao considerar esse tipo de política como “insustentável”, o mesmo economista alerta, em tom de advertência, que haveria um “piora” adicional de R$ 182,0 bilhões se a valorização do salário mínimo vier a manter o mesmo rumo entre 2027 e 2030. São estudos do tipo que levam a leitora e o leitor a desconfiar crescentemente das intenções de certo tipo de economista. Uma mera comparação, sem grandes cálculos macroeconômicos e sem modelos econométricos sofisticadíssimos, permite concluir pela total incoerência de “estudos” assim.
  • Afinal, o rombo gerado pelas despesas com juros, com estrago equivalente sobre a dívida pública, supera em quase 25 vezes o aumento das despesas causadas pela política de atualização real (acima da inflação) do salário mínimo. Com uma diferença igualmente estrondosa ainda: os gastos com juros não vão gerar um único emprego e nem ajudarão o País a produzir um parafuso sequer.
  • A alta do salário mínimo, ao contrário, vai gerar maior renda para famílias mais necessitadas, produzindo maior consumo de alimentos, roupas, calçados, remédios e outros itens essenciais, movimentado a economia em geral, estimulando a abertura de novos empregos e a realização de investimentos no setor privado. Como reflexo adicional, o crescimento do consumo tende a aquecer a arrecadação de impostos, compensando, ao final, o avanço do gasto público relacionado ao aumento do salário mínimo – um dado que ficou de fora da equação do economista badalado.
  • Divulgado no início do mês pelos economistas Clara Brenck e João Enrique Perez, do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), sediado na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), a nota sobre “A dependência externa das receitas fiscais: qual o efeito do Índice de Commodities na receita total?” tenta estimar os impactos de altas (e quedas) nos preços das commodities agrícolas (como soja e milho), metais (minério de ferro, por exemplo) e da área de energia (petróleo e gás) sobre a arrecadação e sobre o PIB.
  • “Mostramos que a correlação entre os preços das commodities e a receita [pública] é positiva e significativa”, anotam os dois economistas, sugerindo que uma elevação de um ponto percentual no indicador desenvolvido pelo BC para acompanhar aqueles preços produz um avanço de 0,18% para o PIB, na média, com ganho de 0,34% para a receita pública total.
  • Em seu ciclo positivo, a alta dos preços internacionais das commodities “pode ser elemento fundamental para a expansão de políticas públicas e o fomento do investimento público”, assim como ocorreu entre 2003 e 2005, quando os preços das commodities subiram 19,1% ao ano, em média, com elevação igualmente anual de 3,4% para o PIB. “O cenário externo favorável deve ser aproveitado e utilizado a favor de políticas que busquem o desenvolvimento econômico e a distribuição de renda”, acrescentam Brenk e Perez.
  • As fases de baixa nesta área, no entanto, podem gerar “desafios fiscais que não podem ser desconsiderados”, obrigando a adoção de políticas que permitam proteger “os gastos do governo, especialmente aqueles com investimento e proteção social, de choques externos exógenos”, providência que consideram “essencial para garantir a continuidade do papel do Estado em redistribuir renda e fomentar o desenvolvimento econômico”.

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