Coluna

Rombo na balança comercial da indústria pode ter crescido até 60%

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 23 de janeiro de 2020

A
depender dos critérios adotados e da classificação de produtos escolhida, o
déficit na balança comercial do setor industrial poderá ter apresentado avanço
entre quase 9,0% e pouco mais de 60,0% em 2019, acumulando o terceiro ano
consecutivo de piora na diferença entre exportações e importações, segundo a
edição deste mês do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), publicado pelo Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).Essa variação
ocorreu primordialmente em função de uma redução de 3,4% no volume exportado
pela indústria de transformação, na comparação com 2018, e de um avanço de 2,7%
nos volumes importados pelo setor, conforme aponta o documento.

A
tendência de agravamento do déficit da indústria, aliás, está entre os fatores
a sustentar a expectativa do Ibre de nova queda no superávit comercial
brasileiro ao longo deste ano (O Hoje, 21/01/2020). O crescimento do déficit
comercial da indústria, prossegue o Icomex em sua análise, ocorreu tanto em
2017 quanto em 2018, quando o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ficou
limitado a 1,3% em cada um daqueles dois anos. Mais do que isto, lembra ainda o
Ibre, a taxa efetiva de câmbio (que considera uma média das cotações das moedas
dos principais mercados de destino das exportações brasileiras) registrou
desvalorização real em torno de 10% – o que, teoricamente, deveria favorecer as
exportações e frear as importações, reduzindo (e não aumentando, como ocorreu)
o déficit na balança comercial do setor.

De
acordo com o Icomex, “os dados da indústria de transformação mostram que, entre
2017 e 2018, as exportações cresceram 3,9% e as importações 20%, em valor”. Numa
ressalva, o instituto relembra que os números das importações estão
superestimados em função das operações envolvendo plataformas de petróleo e de
mudanças nas normas do Repetro, regime aduaneiro especial de exportação e de
importação de bens destinados à exploração de petróleo e gás natural. Com a
inclusão das plataformas, as importações da indústria de transformação chegaram
a crescer 11,6% entre 2017 e 2018, em volume. Excluídas, o crescimento ainda
foi expressivo, na faixa de 6,0%.

Problema
estrutural

Qualquer
que seja a métrica adotada, no entanto, sobrepõe-se o fato de que as
importações avançaram mesmo diante de uma desvalorização do real e com
crescimento medíocre do PIB, o que sugere um problema mais estrutural da
indústria, resultado da substituição da produção local pela importação de
insumos, peças, acessórios e mesmo de produtos acabados. Uma estratégia
defensiva adotada pelo setor para sobreviver e enfrentar décadas sucessivas de
extrema valorização da moeda brasileira frente a outras moedas. A tendência
repetiu-se em 2019, com alta do déficit comercial industrial num cenário de
crescimento ainda mais modesto, mas com valorização cambial em torno de 0,3% na
comparação com o ano anterior.

Balanço

·  
O
saldo comercial dos produtos industrializados varia conforme a metodologia e o
conjunto de bens escolhidos. Na edição deste mês do Icomex, o Ibre apresenta as
séries para a balança comercial entre 2011 e 2019 considerando, primeiramente,
a classificação de bens manufaturados adotada pelo País desde os anos 1970. A
segunda série segue a classificação da indústria de transformação adotada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ao calcular o PIB. E a
terceira e última considera a classificação adotada pela Organização das Nações
Unidas (ONU) em seu International Standard Industrial Classification (Isic),
que define uma espécie de padrão internacional para classificação industrial.

·  
No
primeiro caso, a balança comercial de bens manufaturados, que corresponde à
metodologia adotada pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da
Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Secex/Mdic), atingiu seu pior
resultado na década em 2014, quando o déficit atingiu US$ 109,6 bilhões.

·  
Os
anos de crise fizeram o déficit cair para US$ 43,7 bilhões em 2016. Nos três
anos seguintes, o rombo cresceu até alcançar US$ 74,1 bilhões no ano passado,
acumulando alta de 69,6% e avançando 9,0% na passagem de
2018 (quando o déficit havia somado US$ 68,0 bilhões) para 2019.

·  
Na
classificação do IBGE, adotada igualmente pelo Ibre na confecção das análises
incluídas mensalmente no Icomex, o déficit apresentou um salto ligeiramente
superior a 60% no ano passado, saindo de US$ 15,6 bilhões em 2018 para US$ 25,0
bilhões, o pior número em cinco anos. Em 2016 e 2017, a indústria de
transformação havia anotado superávits de US$ 5,6 bilhões e US$ 6,0 bilhões
respectivamente.

·  
Aplicando
a classificação do Isic, divulgada igualmente pela Secex, o déficit comercial
do setor teria aumentado 37,1% entre 2018 e 2019, passando de US$ 22,9 bilhões
para US$ 31,4 bilhões. Para comparação, em 2016 e 2017, o setor transitou de um
pequeno déficit comercial (próximo a US$ 300,0 milhões) para um modesto
superávit (ao redor de US$ 500,0 milhões).

·  
A
balança comercial do setor de manufaturados (dados da Secex) sofreram piora
mais relevante, em Goiás, no terceiro trimestre de 2019. Com queda de 9,2% nas
exportações e alta de 7,7% nas importações frente ao mesmo período de 2018, o
déficit setorial aumentou 11,0% (de US$ 650,91 milhões para US$ 723,0 milhões).

 

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