Setor de baixa intensidade tecnológica assegura superávit comercial do país

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 04 de maio de 2021

O salto de 191,6% registrado pelo superávit da balança comercial do País nos primeiros três meses deste ano, frente a igual período de 2020, foi integralmente assegurado por setores que menos investem em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias na classificação atualizada recentemente pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as maiores economias do planeta. Num trabalho realizado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), com base naquela classificação, o saldo total da balança comercial saltou de US$ 2,703 bilhões para US$ 7,883 bilhões, enquanto a diferença entre exportações e importações nos setores de baixa e média-baixa intensidade tecnológica avançou de US$ 23,290 bilhões para US$ 28,881 bilhões.

A variação, naqueles setores, chegou a 24,0% comparando os dois primeiros trimestres de 2020 e de 2021, mas todo o crescimento do superávit comercial do País no período ficou concentrado naquelas duas áreas, que incluem a agropecuária, a indústria extrativa, construção, móveis, têxteis e vestuário, papel e celulose, impressão e atividades financeiras, entre outros serviços de menor especialização. Na outra extremidade, ainda considerando a classificação estabelecida pela OCDE, os setores de alta e média-alta intensidade tecnológica registraram o pior resultado desde o primeiro trimestre de 2014, com déficits de US$ 7,994 bilhões e de US$ 13,985 bilhões respectivamente.

Na comparação com os primeiros três meses do ano passado, o rombo comercial avançou 3,2% no segmento de alta intensidade, saindo de US$ 7,746 bilhões em 2020, e 10,1% no segundo setor, depois de ter alcançado US$ 12,697 bilhões no acumulado entre janeiro e março do ano passado. A indústria de transformação como um todo registrou certa estabilidade no déficit comercial, com as importações superando as exportações por uma diferença de US$ 14,364 bilhões, conforme o Iedi. Embora tenha praticamente repetido o déficit de 2020 (US$ 14,359 bilhões), sempre no mesmo trimestre, foi o mais elevado para o período desde 2015 (quando havia atingido US$ 14,613 bilhões).

Os dados da indústria

As exportações de bens típicos da indústria de transformação avançaram 5,4%, saindo de US$ 27,336 bilhões para US$ 28,820 bilhões na comparação entre o primeiro trimestre deste ano e igual período de 2020. Mas, se comparadas a 2018 (US$ 33,018 bilhões), as vendas externas do setor baixaram 12,7%. As importações, por sua vez, atingiram o maior valor pelo menos desde o primeiro trimestre de 2016, crescendo de US$ 41,695 bilhões para US$ 43,184 bilhões entre o primeiro quarto de 2020 e idêntico intervalo deste ano, numa variação de 3,6%. No caso das exportações, foi o primeiro avanço desde o primeiro trimestre de 2018, enquanto as importações do setor têm crescido desde 2017.

Balanço

  • Na avaliação do Iedi, os bens primários foram responsáveis pela melhoria na balança comercial brasileira como um todo. “Essa expansão do superávit comercial ocorreu enquanto o Brasil já padecia por conta da segunda onda da pandemia da Covid-19. Tal comportamento pode ser associado em parte à redução no poder aquisitivo da população, na qual parcela das famílias que vinha compondo a classe média tem passado para a condição de pobreza, afora a deterioração dos que já se encontravam nessa situação”, acrescenta o instituto.
  • A deterioração na balança comercial (exportações menos importações) do setor de alta tecnologia, que inclui a fabricação de aeronaves, a indústria farmacêutica e o complexo eletrônico (computadores, produtos e componentes eletrônicos e óticos), veio com redução de 1,4% nas exportações (de US$ 1,204 bilhão para US$ 1,187 bilhão, a menor em seis anos) e alta de 2,6% nas importações (que passaram de US$ 8,951 bilhões para US$ 9,181 bilhões).
  • Conforme o Iedi, a indústria aeronáutica, fortemente afetada pela pandemia, teve déficit ao redor de R$ 464,0 milhões, relativamente mais baixo do que no primeiro trimestre de 2020. As exportações do setor baixaram 5,9%, para apenas US$ 644,0 milhões. Mas as importações despencaram 35,3%. O complexo eletrônico acumulou rombo de US$ 5,5 bilhões, maior contribuição para o resultado negativo do setor de alta tecnologia. A questão é que as exportações até cresceram (+13,2%), mas continuam muito baixas, próximas de US$ 291,0 milhões, enquanto importações atingiram US$ 5,8 bilhões, crescendo 13,8%.
  • As vendas externas de produtos farmacêuticos entraram em declínio, baixando 4,2%, para US$ 263,0 bilhões, diante de importações próximas a US$ 2,3 bilhões (alta de 6,1%), deixando um saldo negativo de US$ 2,0 bilhões em valores aproximados.
  • Mais sintomático cenário vivenciado pela economia brasileira está no que não consta na relação de bens e serviços exportados pelo Brasil. Entre os setores de alta tecnologia, por exemplo, não há registro de exportações de serviços de pesquisa e desenvolvimento d tecnologias. No segmento de média-alta intensidade tecnológica, que contempla, entre outras áreas, a indústria de material bélico pesado, munições e armamentos, veículos, instrumentos e material médico e hospitalar, máquinas e equipamentos, outros equipamentos de transportes, igualmente estão fora do mercado internacional setores relacionados à tecnologia da informação e à prestação de serviços de informação.
  • Diante da ausência de maior detalhamento, cabe anotar a forte elevação nas importações de equipamentos bélicos, armas e munições no primeiro trimestre deste ano, com salto de 91,3% em relação ao mesmo período de 2020, enquanto as exportações do setor cresceram 49,8%. Não se descarta a possibilidade bastante realista de que as compras externas tenham sido estimuladas pelas medidas de relaxamento no controle da entrada de armamentos e munições importadas adotadas pelo governo.
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