Setor financeiro responde por 47,5% da dívida das famílias, aponta Serasa
Apresentado na segunda-feira, 4, pelo governo federal, o Novo Desenrola Brasil tende a produzir algum alívio para o orçamento das famílias mais endividadas, mas com impactos limitados ao longo do tempo ao não atacar causas estruturais daquele endividamento, segundo análise dos economistas Flávio Ataliba Barreto, João Mário S. de França e Pedro Avelino, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Varga (Ibre/FGV). O crédito no País continuará muito caro e, especificamente no caso das famílias, concentrado em linhas de empréstimos de curtíssimo prazo e de custos ainda mais exorbitantes.
Conforme pesquisa divulgada ontem pela Serasa e realizada pelo Instituto Opinion Box, o sistema financeiro, aqui incluídos bancos, administradoras de cartões de crédito e financeiras, concentrou 47,50% de toda a dívida dos inadimplentes, que somavam impressionantes 82,8 milhões de pessoas em março passado, pouco mais da metade ou mais precisamente 50,51% da população adulta no País. Comparado a março de 2025, o contingente dos endividados aumentou 9,4% aproximadamente, saindo de 75,7 milhões há um ano – o que significa dizer que 7,1 milhões de brasileiros ou de residentes no País engrossaram o número de inadimplentes naqueles 12 meses, numa média de quase 592,0 mil a mais a cada mês.
O valor total das dívidas em atraso aumentou 27,2% em termos nominais naquele mesmo intervalo, saindo de R$ 438,0 bilhões para R$ 557,0 bilhões em grandes números (algo perto de R$ 119,0 bilhões a mais em um ano, correspondendo a uma média mensal de R$ 9,92 bilhões). Ainda nas estimativas da Serasa, as dívidas com bancos, cartões e financeiras, somadas, mantiveram certa estabilidade em termos proporcionais nos últimos 12 meses, já que haviam respondido por 47,54% do total em março do ano passado. Mas registrou-se elevação expressiva em relação aos números pré-pandemia, com as dívidas financeiras respondendo por 38% do total devido pelos consumidores em junho de 2018.
As estatísticas apuradas pelo Opinion Box permitem estimar, em uma aproximação feita pela coluna, que o valor das dívidas financeiras anotou crescimento mais vigoroso, com alta ao redor de 30,8% desde março de 2025, avançando de R$ 202,2 bilhões para R$ 264,6 bilhões.
Em Goiás
A pesquisa, que coletou dados entre 10 e 15 de abril de 2026, ouvindo 1.904 entrevistados, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais para cima ou para baixo, mostra um cenário muito parecido em Goiás, com elevação do percentual de inadimplentes de 44,39% em março do ano passado para 47,02% no mesmo mês deste ano, mantendo-se abaixo da média nacional. O Estado surge em uma situação intermediária no ranking regional, fora dos 10 com menores indicadores de inadimplência, mas também fora do grupo com taxas mais elevadas. No Centro-Oeste, Goiás apresenta o índice mais baixo, considerando que em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal o percentual de inadimplentes alcançou 53,36%, 59,55% e 62,77% respectivamente. Nesta relação, a capital federal ficou atrás apenas do Amapá, onde 65,1% dos moradores tinham dívidas em atraso.
Balanço
Ainda de acordo com o trabalho da Serasa, entre as dívidas financeiras, o cartão de crédito respondia por 73% do total do endividamento, com participação de 56% para os empréstimos e 33% para o uso do limite de conta ou cheque especial. Os percentuais justificam-se porque cada consumidor inadimplente detinha mais de três dívidas em aberto, em média. Adicionalmente, entre aqueles com dívidas no cartão, em torno de 37% deviam mais de R$ 10,0 mil e 36% não conseguem pagar o que devem já há mais de dois anos.
“Quando o crédito rotativo passa a ser utilizado de forma recorrente, especialmente em valores elevados, o risco de endividamento prolongado aumenta significativamente. Isso ajuda a explicar por que uma parcela relevante da população permanece com dívidas por tanto tempo”, afirma Aline Maciel, diretora da Serasa.
Mesmo diante de taxas de desemprego historicamente baixas, acrescenta ela, em torno de 38% dos consumidores atribuíram seu endividamento ao desemprego e/ou à perda de renda. Os demais fatores somados – a exemplo de gastos emergenciais (16%), descontrole financeiro (13%), apoio a familiares ou a amigos (10%) e atraso no pagamento de contas básicas, como luz, água e gás (7%), superaram aquele percentual, atingindo 46%.
Ainda conforme Aline, os dados da pesquisa reforçam que “o endividamento bancário no Brasil não está associado ao consumo impulsivo, mas a uma tentativa de manter o básico em dia”. Como desdobramento da mesma constatação, o cenário à frente torna-se mais desafiador. “Quando despesas essenciais, como alimentação e saúde, passam a ser financiadas no crédito, o risco de efeito bola de neve aumenta significativamente”, acrescenta ela.
Os dados para Goiás mostram um total de 2,68 milhões de inadimplentes, concentrando perto de 10,2 milhões de contratos de dívidas num valor total de R$ 18,5 bilhões (ao redor de 3,3% do total nacional). A inadimplência entre os goianos foi ligeiramente mais elevada entre os homens, aproximando-se de 51,4% no dado de março deste ano, atingindo 36,1% dos consumidores com idades entre 26 e 40 anos e 34,4% na faixa entre 41 e 60 anos. Ou seja, qualquer coisa como 70,5% dos inadimplentes tinham entre 26 e 60 anos.
A participação dos débitos em atraso no cartão e com bancos frente ao endividamento total dos consumidores goianos, de toda forma, apresentava dados muito próximos da média brasileira, chegando a 27,62%.
Aline considera que o Novo Desenrola, em sua versão 2.0, poderá aliviar o cenário de alto endividamento, mas não deverá representar uma solução duradoura para um problema que se tornou estrutural na economia, agravado pelo custo escorchante do crédito.
Segundo os economistas Flávio Ataliba Barreto, João Mário S. de França e Pedro Avelino, do Ibre/FGV, mesmo depois de uma primeira edição do programa, os números mais recentes do SPC Brasil mostravam, em março deste ano, que “mais de 85% das novas negativações vieram de consumidores reincidentes, enquanto o intervalo médio entre uma dívida negativada e a seguinte foi de apenas 74 dias”.
Além disso, prosseguem, agora recorrendo a dados da Serasa, “42% dos inadimplentes em 2026 já estavam nessa condição havia dez anos, o equivalente a cerca de 34 milhões de pessoas presas em um ciclo que programas de renegociação, isoladamente, não conseguem romper”.