Setor público responde por 55% da queda na ocupação neste ano
As demissões no setor público no trimestre finalizado em fevereiro passado explicam muito mais da metade da queda no número de trabalhadores ocupados em todo o País, com expressiva concentração entre servidores sem carteira assinada, de acordo com a mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada na sexta-feira, 27, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com os três meses imediatamente anteriores, o total de ocupados foi reduzido de 103,019 milhões, recorde na série histórica iniciada em 2012, para 102,145 milhões, significando o afastamento de 874,0 mil trabalhadores, num recuo de 0,85%.
Entre os demitidos, em torno de 480,0 mil exerciam algum tipo de função no setor público, que teve o total de ocupados reduzido de 13,1 milhões no trimestre entre setembro e novembro do ano passado para 12,620 milhões ao final dos três meses seguintes, correspondendo a uma redução de 3,7%. O número de demissões nesta área respondeu, portanto, a 54,9% de todas as vagas encerradas naquele mesmo período – contribuição, na verdade, marginalmente superior àquela registrada para o setor privado como um todo. Ainda no setor público, quase 91,7% das demissões, num total de 440,0 mil, atingiram servidores sem carteira, que teve seu número reduzido de 3,490 milhões para 3,050 milhões, num corte de 12,6% ao longo do trimestre encerrado em fevereiro deste ano.
No setor privado, embora a variação tenha sido proporcionalmente mais modesta, em valores absolutos, as demissões foram apenas ligeiramente menores, com afastamento de 475,0 mil trabalhadores, o que gerou um recuo de 0,9% para o total de ocupados no setor. Esse número foi reduzido de 52,986 milhões para 52,510 milhões, ainda correspondendo a 51,4% do total de pessoas ocupadas. Em linha com o perfil das demissões no setor público, perto de 72% das vagas fechadas na área privada correspondiam a empregados sem carteira. Os informais no setor privado, sem considerar a categoria de empregados domésticos, foram reduzidos de 13,632 milhões para 13,290 milhões, somando 342,0 mil demissões, numa redução de praticamente 2,5%. A proporção de trabalhadores sem carteira no setor privado, no entanto, manteve-se virtualmente inalterada, na faixa de 25,3%.
“Efeito juros”
O mercado de trabalho iniciou o ano em aparente desaceleração, pelo menos em relação aos números históricos registrados ao final de 2025. O desaquecimento relativo, ainda a ser confirmado pelas próximas edições da PNADC, parece refletir a política de arrocho monetário adotada pelo Banco Central (BC), trazendo como consequências maior níveis de endividamento das famílias, aumento nas despesas com o serviço daquele dívida (quer dizer, com juros e amortizações) e avanço ainda dos índices de inadimplência para pessoas físicas. Em conjunto, aqueles fatores tendem a reduzir a renda disponível para consumo de bens e serviços, tolhendo as decisões de consumo das famílias.
Balanço
Com ritmo menos intenso de contratações, a desocupação voltou a crescer no curtíssimo prazo, ainda que os indicadores nesta área mantenham-se ainda próximos de níveis historicamente muito reduzidos. O número de desempregados avançou de 5,644 milhões no trimestre concluído em novembro do ano passado para 6,243 milhões entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano, em torno de 599,0 mil a mais, numa alta de 10,6%. A taxa de desemprego variou de 5,2% para 5,8%, voltando aos níveis do segundo trimestre do ano passado.
Além dos servidores sem carteira, categoria não considerada pelo IBGE ao estimar a informalidade no mercado de trabalho, empregados sem carteira, trabalhadores por conta própria e empregadores sem registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), em conjunto, tiveram influência até mais relevante na definição de tendências para a ocupação no curtíssimo prazo. O número de informais recuou 1,4% entre novembro de 2025 e fevereiro deste ano (sempre tomando os trimestres finalizados em cada um daqueles meses), baixando de 38,817 milhões para 38,267 milhões, perto de 550,0 mil a menos – o que representou 62,9% do total de vagas encerradas em todo o mercado no mesmo intervalo.
O segmento “formal”, numa estimativa própria, mas baseada nos dados da PNADC, apresentou certa resiliência, com estabilidade para o número de trabalhadores ocupados, que passou de 60,712 milhões para 60,828 milhões, em torno de 116,0 mil a mais, numa oscilação inferior a 0,2%.
As estatísticas do IBGE mostram, de toda forma, uma situação melhor em todo o mercado de trabalho na comparação com igual período do ano passado, o que parece confirmar um movimento de acomodação no curto prazo, sugerindo, como já comentado, algum desaquecimento mais recentemente. A taxa de desocupação entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025 havia atingido 6,8% e caiu um ponto percentual em 12 meses, com avanço de 1,5% para o total de trabalhadores ocupados, correspondendo a 1,462 milhão de vagas a mais abertas no período.
A perspectiva de desaceleração torna-se mais provável quando se compara a evolução dos ocupados entre o trimestre finalizado em fevereiro de 2025 e o mesmo período do ano anterior, quando registrou-se elevação de 2,4% com abertura de 2,349 milhões de vagas.
A população desocupada foi reduzida em 14,8% na saída do trimestre dezembro 20024 a fevereiro de 2025 para igual trimestre encerrado em fevereiro deste ano, encolhendo de 7,328 milhões para 6,243 milhões (quer dizer, em torno de 1,085 milhão a menos). Entre dezembro último e fevereiro, no entanto, o número de desempregados aumentou 13,4% (738,0 mil a mais), saindo de 5,503 milhões no quarto trimestre do ano passado, sinalizando, da mesma forma, uma tendência mais recente de esfriamento do mercado. Para registro, a taxa de desemprego no trimestre final de 2025 havia baixado para 5,1%.
O rendimento real médio recebido pelos trabalhadores em todas as ocupações atingiu novo recorde no trimestre concluído em fevereiro deste ano, saindo de R$ 3.606 nos três meses imediatamente anteriores para R$ 3.679, numa variação de 2,0% acima da inflação. Comparado ao mesmo período do ano passado, houve um aumento de 5,2% em termos reais. A elevação foi puxada pelos ganhos de 4,0% nos rendimentos pagos pelo setor de informação e comunicação e de 4,5% na área de administração pública, defesa, seguridade social, educação saúde e serviços sociais.
Como consequência, a massa de rendimentos reais cresceu 1,1% entre novembro do ano passado e fevereiro deste ano, saindo de R$ 367,005 bilhões para R$ 371,092 bilhões (mais ligeiramente inferior aos valores registrados em janeiro, na faixa de R$ 371,973 bilhões).
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