sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Setor público responde por 55% da queda na ocupação neste ano

Lauro Veiga Filhopor em

As demissões no setor público no trimestre finalizado em fevereiro passado explicam muito mais da metade da queda no número de trabalhadores ocupados em todo o País, com expressiva concentração entre servidores sem carteira assinada, de acordo com a mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada na sexta-feira, 27, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com os três meses imediatamente anteriores, o total de ocupados foi reduzido de 103,019 milhões, recorde na série histórica iniciada em 2012, para 102,145 milhões, significando o afastamento de 874,0 mil trabalhadores, num recuo de 0,85%.

Entre os demitidos, em torno de 480,0 mil exerciam algum tipo de função no setor público, que teve o total de ocupados reduzido de 13,1 milhões no trimestre entre setembro e novembro do ano passado para 12,620 milhões ao final dos três meses seguintes, correspondendo a uma redução de 3,7%. O número de demissões nesta área respondeu, portanto, a 54,9% de todas as vagas encerradas naquele mesmo período – contribuição, na verdade, marginalmente superior àquela registrada para o setor privado como um todo. Ainda no setor público, quase 91,7% das demissões, num total de 440,0 mil, atingiram servidores sem carteira, que teve seu número reduzido de 3,490 milhões para 3,050 milhões, num corte de 12,6% ao longo do trimestre encerrado em fevereiro deste ano.

No setor privado, embora a variação tenha sido proporcionalmente mais modesta, em valores absolutos, as demissões foram apenas ligeiramente menores, com afastamento de 475,0 mil trabalhadores, o que gerou um recuo de 0,9% para o total de ocupados no setor. Esse número foi reduzido de 52,986 milhões para 52,510 milhões, ainda correspondendo a 51,4% do total de pessoas ocupadas. Em linha com o perfil das demissões no setor público, perto de 72% das vagas fechadas na área privada correspondiam a empregados sem carteira. Os informais no setor privado, sem considerar a categoria de empregados domésticos, foram reduzidos de 13,632 milhões para 13,290 milhões, somando 342,0 mil demissões, numa redução de praticamente 2,5%. A proporção de trabalhadores sem carteira no setor privado, no entanto, manteve-se virtualmente inalterada, na faixa de 25,3%.

“Efeito juros”

O mercado de trabalho iniciou o ano em aparente desaceleração, pelo menos em relação aos números históricos registrados ao final de 2025. O desaquecimento relativo, ainda a ser confirmado pelas próximas edições da PNADC, parece refletir a política de arrocho monetário adotada pelo Banco Central (BC), trazendo como consequências maior níveis de endividamento das famílias, aumento nas despesas com o serviço daquele dívida (quer dizer, com juros e amortizações) e avanço ainda dos índices de inadimplência para pessoas físicas. Em conjunto, aqueles fatores tendem a reduzir a renda disponível para consumo de bens e serviços, tolhendo as decisões de consumo das famílias.

Balanço

Com ritmo menos intenso de contratações, a desocupação voltou a crescer no curtíssimo prazo, ainda que os indicadores nesta área mantenham-se ainda próximos de níveis historicamente muito reduzidos. O número de desempregados avançou de 5,644 milhões no trimestre concluído em novembro do ano passado para 6,243 milhões entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano, em torno de 599,0 mil a mais, numa alta de 10,6%. A taxa de desemprego variou de 5,2% para 5,8%, voltando aos níveis do segundo trimestre do ano passado.

Além dos servidores sem carteira, categoria não considerada pelo IBGE ao estimar a informalidade no mercado de trabalho, empregados sem carteira, trabalhadores por conta própria e empregadores sem registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), em conjunto, tiveram influência até mais relevante na definição de tendências para a ocupação no curtíssimo prazo. O número de informais recuou 1,4% entre novembro de 2025 e fevereiro deste ano (sempre tomando os trimestres finalizados em cada um daqueles meses), baixando de 38,817 milhões para 38,267 milhões, perto de 550,0 mil a menos – o que representou 62,9% do total de vagas encerradas em todo o mercado no mesmo intervalo.

O segmento “formal”, numa estimativa própria, mas baseada nos dados da PNADC, apresentou certa resiliência, com estabilidade para o número de trabalhadores ocupados, que passou de 60,712 milhões para 60,828 milhões, em torno de 116,0 mil a mais, numa oscilação inferior a 0,2%.

As estatísticas do IBGE mostram, de toda forma, uma situação melhor em todo o mercado de trabalho na comparação com igual período do ano passado, o que parece confirmar um movimento de acomodação no curto prazo, sugerindo, como já comentado, algum desaquecimento mais recentemente. A taxa de desocupação entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025 havia atingido 6,8% e caiu um ponto percentual em 12 meses, com avanço de 1,5% para o total de trabalhadores ocupados, correspondendo a 1,462 milhão de vagas a mais abertas no período.

A perspectiva de desaceleração torna-se mais provável quando se compara a evolução dos ocupados entre o trimestre finalizado em fevereiro de 2025 e o mesmo período do ano anterior, quando registrou-se elevação de 2,4% com abertura de 2,349 milhões de vagas.

A população desocupada foi reduzida em 14,8% na saída do trimestre dezembro 20024 a fevereiro de 2025 para igual trimestre encerrado em fevereiro deste ano, encolhendo de 7,328 milhões para 6,243 milhões (quer dizer, em torno de 1,085 milhão a menos). Entre dezembro último e fevereiro, no entanto, o número de desempregados aumentou 13,4% (738,0 mil a mais), saindo de 5,503 milhões no quarto trimestre do ano passado, sinalizando, da mesma forma, uma tendência mais recente de esfriamento do mercado. Para registro, a taxa de desemprego no trimestre final de 2025 havia baixado para 5,1%.

O rendimento real médio recebido pelos trabalhadores em todas as ocupações atingiu novo recorde no trimestre concluído em fevereiro deste ano, saindo de R$ 3.606 nos três meses imediatamente anteriores para R$ 3.679, numa variação de 2,0% acima da inflação. Comparado ao mesmo período do ano passado, houve um aumento de 5,2% em termos reais. A elevação foi puxada pelos ganhos de 4,0% nos rendimentos pagos pelo setor de informação e comunicação e de 4,5% na área de administração pública, defesa, seguridade social, educação saúde e serviços sociais.

Como consequência, a massa de rendimentos reais cresceu 1,1% entre novembro do ano passado e fevereiro deste ano, saindo de R$ 367,005 bilhões para R$ 371,092 bilhões (mais ligeiramente inferior aos valores registrados em janeiro, na faixa de R$ 371,973 bilhões).

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