Sinal de instabilidade. Dívida mundial supera riqueza em mais de quatro vezes
A dívida global, incluindo governos, famílias, empresas e corporações financeiras, atingiu 311,04% do Produto Interno Bruto (PIB) ao final do primeiro semestre deste ano, vale dizer, o endividamento total do mundo superou em pouco mais de quatro vezes todas as riquezas produzidas pelo planeta ao longo dos 12 meses terminados em junho deste ano, num sinal de instabilidades adiante. Aquela relação havia alcançado 303,61% ao final de 2019, antes da pandemia, que havia contribuído para elevar o endividamento global para um recorde de 336,90% do produto no primeiro trimestre de 2021.
Os dados são do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), que observa, de todo modo, um ritmo menos acentuado de crescimento daquela dívida na primeira metade deste ano, conforme informe distribuído ontem à imprensa pela entidade, que reúne instituições do setor financeiro ao redor do mundo. Segundo o monitor do endividamento global, veiculado mensalmente pelo IIF, a dívida mundial cresceu aproximadamente US$ 10,4 trilhões entre dezembro do ano passado e junho deste ano, alcançando qualquer coisa ao redor de US$ 365,54 trilhões frente a US$ 355,13 trilhões no fechamento de 2025, indicando uma variação de 2,93%. Na primeira metade do ano passado, a dívida havia crescido 6,58%, numa variação de US$ 21,451 trilhões.
A dívida foi pressionada no período, na visão do IIF, por taxas de juros crescentes, altos níveis do custo do serviço da mesma dívida, fator igualmente relacionado aos juros elevados, preços da energia (combustíveis, principalmente) em elevação e ainda pelo impacto da guerra aberta pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã sobre o ânimo dos investidores. Neste ano, acrescenta o instituto, a moderação foi mais evidente entre instituições financeiras e famílias, “setores mais sensíveis a taxas de juros”, ainda que o crescimento da dívida total tenha se mantido acima da média observada nos últimos cinco anos. “Governos e corporações não financeiras responderam pela maior parte do crescimento [da dívida total], com ambos setores atingindo novos recordes de alta”, registra o IIF.
Queda relativa
Responsáveis por pouco mais de um quarto da dívida global, os Estados Unidos tiveram seu endividamento total reduzido de US$ 108,245 trilhões em dezembro passado para US$ 93,361 trilhões, numa queda de 13,75% (quer dizer, perto de US$ 14,884 trilhões a menos). A baixa, no entanto, esteve concentrada entre setores corporativos financeiros e não financeiros e nas famílias, que tiveram a dívida consolidada reduzida de US$ 70,658 trilhões para US$ 54,617 trilhões, num tombo de 22,70% em seis meses. O governo estadunidense elevo sua dívida em 3,08% na mesma comparação, saindo de US$ 37,588 trilhões para US$ 38,744 trilhões, elevando a relação com o PIB de 122,18% para 122,29%.
Balanço
Quase 47% do aumento da dívida global, nos dados do IIF, concentraram-se na China, que teve seu endividamento ampliado de US$ 67,596 trilhões em dezembro do ano passado para US$ 72,493 trilhões, algo como US$ 4,896 trilhões a mais, ou seja, um incremento de 7,24%. Os setores financeiro e não financeiro, com inclusão ainda das famílias, tiveram maior participação relativa naquele crescimento, com a dívida variando de US$ 47,804 trilhões para US$ 50,681 trilhões, quase 70% do total. Em termos relativos, essa parcela da dívida chinesa cresceu 6,01%, num acréscimo de US$ 2,877 trilhões. Somados, EUA e China, no cenário geral, respondem por 45,37% da dívida global.
Na versão do IIF, os chamados mercados emergentes foram responsáveis por quase dois terços do aumento da dívida mundial, o que trouxe o saldo devido pela região para US$ 110,582 trilhões. “A acumulação de dívidas desacelerou mais fortemente nos mercados maduros, mas pressões fiscais continuam a se acumular”, anota o instituto. Para acrescenta na sequência que Estados Unidos, França, Reino Unido e Japão enfrentam déficits persistentes e despesas com juros crescentes.
No ano passado, prossegue o IIF, os países avançados pagaram mais de US$ 3,3 trilhões em juros apenas nos títulos públicos negociados no mercado internacional, mais do que as despesas estimadas com inteligência artificial, que consumiu US$ 2,6 trilhões, defesa (com inacreditáveis US$ 3,10 trilhões) e energias limpas, setor que recebeu um quinto a menos do que armas e guerras, num valor previsto em US$ 2,3 trilhões.
Na comparação com dezembro de 2019, quando a soma total das dívidas no mundo havia alcançado US$ 264,041 trilhões, perto de 303,6% do PIB, o crescimento acumulado até junho deste ano chegou a 38,44%, com alta de 52,38% para o endividamento dos governos, que saiu de US$ 72,498 trilhões para US$ 110,476 trilhões. Em relação ao PIB, a dívida pública global avançou de 82,42% para 94,74%. Para comparação, no encerramento de 2020, já em plena pandemia, os governos em todo o mundo chegaram a dever o equivalente a 98,62% de toda a riqueza produzida pela economia mundial.
Entre as economias maduras, a dívida pública variou de 103,01% para 107,68% do PIB entre 2019 e junho de 2026, saindo de 53,88% para 76,79% entre os países emergentes, dos quais em torno de 59,4% estavam concentrados na China. Medida em dólares, a dívida dos governos emergentes cresceu de US$ 17,688 trilhões para US$ 36,722 trilhões, num incremento de 107,61%. O setor público respondeu por 42,3% da variação acumulada pela dívida total naqueles países, saindo de US$ 65,545 trilhões para US$ 110,582 trilhões – num salto de 68,71% (ou em torno de US$ 45,037 trilhões a mais).
Nos países mais avançados, a contribuição dos governos para o aumento da dívida geral chegou a um terço aproximadamente, com alta de US$ 18,943 trilhões desde o final de 2019, algo como 34,6% a mais. O estoque do endividamento público nesta área elevou-se de US$ 54,811 trilhões para US$ 73,754 trilhões.
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