Soluções inteligentes ajudam a poupar água e energia no campo

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 21 de janeiro de 2022

Os desafios ambientais colocados no caminho do agronegócio e o encarecimento dos custos da energia, entre outros fatores, têm estimulado a busca de soluções mais equilibradas e sustentáveis pelo setor e por empresas que orbitam a atividade e que têm se encarregado de pensar alternativas. O uso mais eficiente dos recursos naturais, sobretudo da água, num momento de mudanças no clima, ocupa espaço crescente na agenda. A gestão inteligente da irrigação, com uso de ferramentas digitais e apoio de uma equipe especializada de mais de 70 consultores espalhados por nove Estados, tem permitido redução média de 20% no consumo de água e de energia nas fazendas assistidas pela startup, assegura Daniel Campanelli, head de tecnologia e inovação da iCrop. Criada em 2016, com matriz em Uberlândia e atuação em nove Estados, cobrindo os principais polos irrigados no país, a empresa desenvolveu a plataforma iCrop Vision ainda em 2017, que integra dados de mais de 300 estações meteorológicas instaladas em 1,2 mil clientes e monitora em torno de 7,5 mil pivôs centrais e mais de 50 culturas diferentes.

“Trata-se de uma plataforma robusta, desenhada para ser autoexplicativa e que oferece uma interface gráfica com informações sobre regime de chuvas, evaporação, balanço hídrico, nível de umidade do solo”, observa Campanelli. Os dados são tratados por um sistema baseado em machinelearning, o que permite a construção de modelos analíticos de forma automatizada. “O cliente enxerga os dados na tela da plataforma como se fosse de fato uma caixa d’água, indicando se o solo e a planta precisam ou não de água”, complementa ele, acrescentando que o sistema desenvolvido pela empresa permite a tomada de decisões de forma mais assertiva pelo produtor, tornando o processo de irrigação mais eficiente e evitando desperdícios e erosão.

Fatura mais barata

O impacto mais expressivo produzido pelo menor consumo de energia, esclarece Campanelli, tem sido percebido na fatura de energia. Isso porque, além da redução direta no uso da energia, o sistema orienta o produtor sobre os melhores horários para fazer a irrigação, em geral à noite, quando as tarifas são mais baixas. “O ganho na fatura pode se aproximar de 40%”, estima ele.Com quase 2,5 milhões de hectares assistidos desde sua criação, a iCropsubmeteu à Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) projeto para desenvolvimento de sua própria estação meteorológica, substituindo o equipamento hoje importado.

Balanço

  • Com unidades em Chapadão do Céu (GO) e Maracaju (MS), onde produz etanol a partir de milho, a CerradinhoBioreduziu o consumo de energia em 24% nas duas últimas safras, atingindo 37,8 quilowatts/hora por metro cúbico de etanol produzido na safra 2020/21, de acordo com Luiz Augusto Resende Nascimento, diretor de operações da empresa. Segundo ele, o processo de eficiência energética estruturado pela usina considera a necessidade de ganhos de escala como forma de maximizar o uso dos ativos, a implantação de melhores práticas de gestão e o projeto de uso eficiente da energia elétrica e térmica.
  • Depois de mapear em 2019 as soluções para otimizar o consumo e tornar o uso da energia mais inteligente, a CerradinhoBioreservou R$ 14,0 milhões para investir, entre outras iniciativas, detalha Nascimento, em um projeto de otimização da combustão nas caldeiras, na automação de bombas, compressores e torres de refrigeração, e ainda na substituição de motores e bombas por equipamentos mais eficientes e na recuperação de energia térmica para reaproveitamento no processo produtivo. Softwares de monitoramento em tempo real e sistemas de inteligência artificial permitem otimizar processos de produção nas áreas de etanol e cogeração de energia, entre outros.
  • A geração de energia com uso de placas fotovoltaicas foi a solução encontrada para que o assentamento Estrela da Lua, no Distrito Federal, conseguisse bombear toda a água necessária para a irrigação das culturas exploradas por oito famílias. “Foi o primeiro assentamento a receber sistema de bombeamento a energia solar”, afirma Tupac Borges Petrillo, assessor da diretoria e coordenador do programa de incentivo a energias renováveis da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF).
  • Iniciada em 2020, em meio à pandemia, a instalação do sistema foi realizada pela empresa Água Solar, de Belo Horizonte (BH), vencedora da licitação promovida pela Emater-DF. A inauguração oficial ainda não ocorreu, retoma Petrillo, mas o sistema já está em operação e a geração fotovoltaica deverá gerar uma economia anual em torno de R$ 4,8 mil, a valores atuais, com redução nas despesas com energia. Antes disso, as famílias assentadas captavam água pluvial numa caixa d’água de 16 mil litros. Nos períodos de seca, tinham que percorrer, uma vez por semana, em torno de 10 quilômetros para buscar água e encher a caixa.
  • Financiado com recursos de emenda parlamentar, Petrillo estima um custo de R$ 150,0 mil para todo o sistema, incluindo 10 placas, bombas, uma rede de dutos de 1,2 quilômetro e construção de tanques com proteção mecânica. Nesse processo, foram usadas geomembranas, que têm vida útil mais longa. A irrigação vai permitir que os assentados ampliem a produção de mandioca e instalem uma casa de farinha. Os planos incluem agora a exploração de hortaliças no assentamento.
  • Produtor de leite na Comunidade do Rio Tamanduá, na cidade de Petrolândia, região do Alto Vale do Rio Itajaí, em Santa Catarina, Sérgio Starosky instalou, nos últimos anos, dois sistemas de bombeamento de água e ainda um terceiro sistema de geração distribuída, alimentados pela energia gerada por placas fotovoltaicas, num investimento total de aproximadamente R$ 160,0 mil, detalha Tomás Pellizzaro Pereira, engenheiro agrônomo responsável por políticas públicas e crédito rural da gerência regional de Rio do Sul da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).
  • A propriedade precisava de água de boa qualidade e o recurso só estava disponível em grotas de difícil acesso, o que exigia o uso de bombas. Conforme Pellizzaro, optou-se pela instalação de sistemas autônomos, movidos a energia solar fotovoltaica. O consumo de água de qualidade reduziu a incidência de doenças no rebanho, melhorou o pastejo e aumentou a produção, elevando a produtividade média por animal de 18 para 20 litros por dia. “Como são 50 vacas em lactação, isso significou 100 litros por dia a mais”, complementa Pellizzaro. O investimento, estimado entre R$ 7,0 mil a R$ 8,0 mil na época, se pagou em 10 meses.
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