Uma agenda para a reindustrialização do País

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 08 de setembro de 2021

Doutor e mestre em desenvolvimento econômico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (FCE/UFBA), Uallace Moreira destaca-se como um dos especialistas no debate sobre os rumos do setor industrial no País e também nas economias asiáticas, destacadamente na Coreia do Sul. Nesta entrevista, ele defende uma mudança na política macroeconômica para que o País comece a pensar em políticas que promovam a sua “reindustrialização”. A mudança deverá necessariamente vir associada a uma política industrial vinculada“a medidas de estímulos ao desenvolvimento industrial com a inovação”, assim como a uma “articulação entre os atores do sistema nacional de inovação, como governo, empresas e universidades”. O surgimento do novo paradigma da Indústria 4.0 pode gerar “janelas de oportunidades” para essa atualização do País em relação às economias mais industrializadas. De acordo com ele, “é necessário termos empresas nacionais fortes, com capacidade de internalizar tecnologia e promover inovação, operar na fronteira tecnológica. Isso é possível através do fortalecimento da aliança Estado, indústria (nacionais e estrangeiras) e universidades, isto é, fortalecer o sistema nacional de inovação para promover o upgrading nas estruturas produtivas do País”.

O Hoje – A indústria brasileira enfrenta um longo período de políticas macroeconômicas hostis, com o câmbio apreciado e taxas de juros nas alturas por praticamente quatro décadas, desde o final dos anos 1980. Quais foram os resultados dessa combinação de fatores sobre a estrutura da indústria?

Uallace Moreira – Na minha avaliação, desde os anos 1980, o Brasil passou a adotar políticas macroeconômicas de estabilidade, negligenciando as políticas industriais. Os anos 1990, na verdade, constituem um momento de ruptura com o modelo de desenvolvimento econômico que até então tinha vigorado, onde o papel ativo do Estado representava um elemento fundamental para o País alcançar um melhor desenvolvimento econômico.  É o momento de um processo de liberalização comercial, com as reduções das tarifas de importação e a desregulamentação financeira com a abertura da conta de capital, que proporcionou a integração do mercado financeiro nacional ao movimento dos mercados financeiros internacionais, ampliando a vulnerabilidade externa brasileira. É momento em que o modelo econômico neoliberal, com sua estrutura e dinâmica macroeconômica extremamente instável, passa a predominar, dando a direção e os novos rumos das políticas econômicas implementadas no País.

Isso se intensificou muito a partir do final dos anos 1990, em particular com o chamado tripé macroeconômico. A lógica do tripé macroeconômico implica em uma lógica rentista na orientação das políticas fiscal e monetária, penalizando a dinâmica do crescimento econômico. Isso porque, de um lado, a política fiscal é orientada por uma lógica de cortes de gastos correntes e de investimentos constantes. Por outro lado, a política monetária é de patamares de juros irracionais. Ou seja, a política macroeconômica é incompatível com um crescimento econômico mais elevado e contínuo, desestimulando o investimento no setor produtivo e alimentando a lógica rentista no país.  Um dos principais impactos foi o processo de desindustrialização precoce e acelerada, com a indústria de transformação reduzindo sua participação no PIB, no emprego e na pauta exportadora. Isto é, passamos a ter uma estrutura industrial marcada pela baixa diferenciação da estrutura produtiva e um encadeamento frágil sem força dinâmica para gerar um crescimento econômico com o investimento assumindo um papel dominante. 

O Hoje – O que a experiência internacional mostra em relação à adoção de políticas industriais?

Uallace Moreira –Durante esse período, enquanto a América Latina, em particular o Brasil, passou por um amplo processo de desindustrialização e inserção internacional regressiva, os países asiáticos passaram a ter maior proeminência no comércio internacional, com os países dessa região obtendo catch-up tecnológico e transformação em suas estruturas produtivas, tendo como resultado uma inserção internacional sustentada em produtos com maior complexidade tecnológica. Esses países construíram suas vantagens competitivas com políticas industriais e de inovação, fortalecendo empresas nacionais com ampla capacidade de internacionalização. Foram países que, mesmo promovendo um processo de abertura, jamais abandonaram políticas industriais e de inovação, e principalmente defenderam suas estruturas produtivas nacionais. Vejo essa realidade dos países asiáticos, como Taiwan, Coreia do Sul e China, como grande lição. É necessário termos empresas nacionais fortes, com capacidade de internalizar tecnologia e promover inovação, operar na fronteira tecnológica. Isso é possível através do fortalecimento da aliança Estado, indústria (nacionais e estrangeiras) e universidades, isto é, fortalecer o sistema nacional de inovação para promover o upgrading nas estruturas produtivas do País.

O Hoje – De que forma a chamada Indústria 4.0 entra nesse debate?

Uallace Moreira –A discussão sobre complexidade tecnológica nos oferece instrumentos relevantes para discutirmos a nova fronteira tecnológica. O debate mais recente sobre as transformações na estrutura industrial da economia mundial gira em torno do que se convencionou chamar de Indústria 4.0, conhecido também como a Quarta Revolução Tecnológica. A Indústria 4.0 é um amplo movimento de diversificação das tecnologias aplicadas à produção manufatureira, em que normalmente estão associados a combinação das seguintes tecnologias: sistemas ciber-físicos (CPS), Big Data Analytics, computação em nuvem, internet das coisas (IoT) e internet dos serviços (IoS), impressão 3D e outras formas de manufatura aditiva, inteligência artificial, digitalização, colheita de energia (energy harvesting) e realidade aumentada. Portanto, discutir a complexidade tecnológica nos possibilita refletirmos sobre a necessidade de termos estruturas produtivas que operem nessa nova fronteira tecnológica. Nos permite discutir instrumentos de políticas industriais e de inovação que promovam o catch-up tecnológico do Brasil para a superação da armadilha da renda média.

O Hoje –Sobre o mesmo tema, quais políticas seriam recomendadas para que a indústria retome a trajetória de crescimento, ganhe musculatura e complexidade, passe a realizar inovação e assegure maior relevância no cenário internacional?

Uallace Moreira – Não considero que seja uma resposta simples. Entretanto, como citado anteriormente, acredito que pensar em um processo de reindustrialização no País é pensar que o surgimento da Indústria 4.0 promove janelas de oportunidades. Para otimizar esse momento, precisamos rever a política macroeconômica do País. Não vejo possibilidade nenhuma de mudarmos nossas estruturas produtivas com a manutenção de uma política macroeconômica suicida, que impede avanços nas políticas industriais e de inovação. Do ponto de vista da política industrial, é importante vincular as medidas de estímulos ao desenvolvimento industrial com a inovação. A nova fronteira tecnológica implica em ampla capacidade de inovação (produto e processo). Nessa perspectiva da inovação, a indústria 4.0 é uma janela de oportunidade para países periféricos que têm capacidade construídas, que é o caso do Brasil. A articulação entre os atores do sistema nacional de inovação, como governo, empresas e universidades, pode desempenhar um papel importante no catch-up, principalmente considerando os diversos tipos e níveis de redes, sistema educacional, universidades, organizações financeiras, políticas públicas, entre outras dimensões. Acredito que o Brasil tem capacidades construídas em setores estratégicos. Por exemplo, como o da energia e o do petróleo; do complexo econômico industrial da saúde; na indústria eletroeletrônica e na indústria automotiva. Através da articulação entre políticas industriais e de inovação, é possível reindustrializar o Brasil e fortalecer novos setores, visualizando assim uma maior possibilidade de inserção externa com produtos mais intensivos em tecnologia.

O Hoje – De que forma essa falsa dicotomia entre Estado e setor privado tem impedido a real discussão de soluções e alternativas para a indústria e para a economia como um todo?

Uallace Moreira – Como você mesmo aponta em sua questão, é uma falsa dicotomia e que permanece na mentalidade de muitos economistas e analistas de mercado que ficaram presos as essas ideias ultrapassadas da década de 1980. A verdade é que pensar em desenvolvimento econômico no capitalismo é pensar na articulação entre Estado e setor privado. A aliança entre ambos é fundamental para o desenvolvimento econômico das nações e todos os países que tiveram êxitos em sua trajetória de desenvolvimento econômico tem como uma das principais marcas o Estado dando suporte ao setor privado para promover investimentos em setores estratégicos, com riscos elevados, particularmente quando falamos em inovação. O cenário atual deixa em evidência que é o momento de repensarmos na trajetória de desenvolvimento econômico brasileiro. A agenda neoliberal no País é uma agenda falida, que não promoveu crescimento econômico sustentável e nem transformações estruturais. É o momento de pensarmos em um projeto de nação, com crescimento econômico, distribuição de renda, inclusão e desenvolvimento das forças produtivas.

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