Coluna

Viciados em juros altos, bancos elevam “margem” de lucro em meio à pasmaceira

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 12 de outubro de 2019

Os
teóricos do monetarismo, doutrina que coloca o controle da moeda no centro de
toda política econômica, sustentam que os movimentos – para cima ou para baixo
– das taxas de juros necessariamente terão impacto sobre o lado real das
economias, mais cedo ou mais tarde. Nas fases de alta dos juros, o impacto
seria necessariamente “contracionista”, quer dizer, ajudaria a segurar a
economia, e o inverso se daria diante de reduções
persistentes e duradouras dos juros, o que promoveria (ao contrário da fase
anterior) um barateamento do crédito, estimulando sua contratação por empresas
e famílias, ajudando a recolocar a economia de volta na trilha do crescimento.

Se
verdadeiro o paradigma central da teoria monetária, que dá sustentação à
chamada política de metas inflacionárias adotada no Brasil desde o final dos
anos 1990, os efeitos da redução dos juros básicos sobre a atividade deveriam
já estar se manifestando. Para algumas correntes do pensamento econômico, no
entanto, o Banco Central (BC) demorou excessivamente a adotar uma política
menos moderada de cortes nas taxas, contribuindo para manter a economia no
sufoco e o desemprego elevado. Daqui em diante, acredita-se que os impactos
mais positivos sobre o lado real da economia começariam a ser visualizados mais
nitidamente ao longo do próximo ano, entre outros fatores, porque as taxas de
mercado não sofrem redução proporcional e em igual velocidade na ponta do
crédito. Adicionalmente, alguns economistas consideram que a política monetária
(quer dizer, a política de juros do BC) afeta muito mais os custos do
investimento e sua redução tenderia a afetar a economia muito mais por esse flanco,
sem influenciar de forma mais decisiva a demanda das famílias.

Numa
comparação baseada nos relatórios mensais sobre o mercado de crédito divulgados
pelo BC, nas operações livremente contratadas entre bancos, empresas e pessoas
físicas, os juros médios subiram de 35,56% ao ano em dezembro de 2018 para
37,89% em agosto deste ano (alta de 2,33 pontos). No mesmo intervalo, a taxa
Selic manteve-se inalterada em 6,5% ao ano até junho deste ano, quando sofreu
corte de meio ponto, para 6,0%.

Um
avanço importante dos atrasos no recebimento do crédito poderia justificar a
elevação dos juros pelos bancos. Mas a taxa média de inadimplência apresentou
variação apenas nas casas decimais, saindo de 3,85% em dezembro para 3,99% em
agosto. Em tese, a flutuação não parece justificar a alta nos juros cobrados
pelos bancos.

Em causa própria

Na
verdade, mesmo diante da redução nos custos de captação dos bancos (ou seja, na
remuneração que o sistema paga para tomar recursos “emprestados” de
investidores), o “spread” bancário, sempre no mercado livre, saltou de 27,76
para 31,58 pontos entre dezembro de 2018 e agosto deste ano – o que mostra um
sistema financeiro “viciado” em juros e margens excessivamente altas.Numa
avaliação mais genérica, os tais “spreads” correspondem à diferença entre as
taxas pagas pelos bancos aos investidores e os juros cobrados dos tomadores de
crédito, numa espécie de “margem bruta” do sistema financeiro, antes de
descontados custos e despesas gerais do setor, incluindo os custos gerados pela
necessidade de provisionar (reservar) recursos para cobrir o risco de perdas
nos empréstimos e financiamentos concedidos.

Balanço

·  
A
questão é que o custo de captação dos bancos (ou seja, os juros que o sistema
paga para o investidor deixar seu dinheiro em aplicações financeiras diversas)
vêm caindo, o que significa dizer, em princípio, que os juros cobrados dos
tomadores de empréstimos e financiamentos poderiam estar substancialmente mais
baixos.

·  
Ainda
no segmento de recursos livres, a taxa de captação dos bancos havia recuado de 7,8%
para 6,3% no cálculo feito pelo BC.Traduzindo: o dinheiro ficou mais barato
para os bancos, mas a queda não foi repassada aos tomadores finais de crédito,
já que o setor financeiro preferiu engordar seus lucros em meio à pasmaceira
geral na economia.

·  
Balanço
final: o custo de captação recuou 1,5 ponto de porcentagem em oito meses; os
juros cobrados pelo sistema financeiro avançaram 2,3 pontos; e o “spread”
cresceu 3,8 pontos de porcentagem, em média.

·  
Em
termos proporcionais, como visto, a inadimplência subiu muito pouco, quase nada
desde dezembro do ano passado. Mas o saldo das operações de crédito livremente
contratadas entre bancos e famílias avançou em ritmo superior à inflação e ao
crescimento nominal projetado pelo BC para o Produto Interno Bruto (PIB).

·  
Em
dezembro, na soma das operações contratadas por pessoas físicas e pessoas
jurídicas, o estoque de crédito livre somava quase R$ 1,758 trilhão,
representando 25,7% do PIB. Oito meses mais tarde, o saldo dessas operações
subiu para R$ 1,865 trilhão, em valores nominais e arredondados, numa variação
próxima de 6,1%. Passou a representar praticamente 26,5% do PIB.

Sempre em valores nominais, sem descontar os tais “deflatores” (uma taxa
de inflação especialmente calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) para medir a variação real do PIB), o produto avançou 3,1%
desde dezembro. O crédito para empresas, na verdade, cresceu bem menos,
variando algo ligeiramente abaixo de 1,6%. O crescimento das operações de
crédito livres foi sustentado pelas pessoas físicas, com alta de quase 10%,
sempre na comparação entre dezembro de 2018 e agosto deste ano. 

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