Paradoxos humanos contemporâneos

Postado em: 06-01-2022 às 10h49
Por: Redação
Confira o artigo de opinião de Manoel L. Bezerra Rocha | Foto: Redação

Alguns fatos recentes têm levado-me à uma reflexão acerca das realidades que nos forçam a enfrentá-las e nos intrigar tanto com os seus paradoxos quanto sobre como pode ser possível coexistirem e com elas convivermos.

Minhas inquietações coincidem com a leitura simultânea que estou fazendo de dois excelentes livros que abordam bem os nossos dramas políticos, ecológicos, éticos, que estamos vivenciando. Um, pessimista pelo próprio título, denominado “O Mundo em Desajuste – quando nossas civilizações se esgotam”, do libanês Amin Maalouf, traça um panorama distópico dos primeiros anos do século XXI, no qual o autor aponta que estamos vivenciando desajustes intelectuais e que as tais “afirmações identitárias” têm tornado difíceis a coexistência harmoniosa. Prossegue o autor afirmando que há no mundo um desajuste econômico e financeiro com consequências imprevisíveis, como desajuste climático, sintoma da perturbação de nosso sistema de valores.

O segundo livro, intitulado “O Novo Iluminismo”, do canadense Steven Pinker, parte de uma visão positiva da humanidade, ressaltando a defesa da razão, da ciência e do humanismo. Nele o autor rechaça os alarmistas e profecias apocalípticas, demonstrando, com dados, que a saúde, a vida, a prosperidade, a segurança, a paz, o conhecimento e a felicidade estão em ascensão em todo o mundo. Ainda segundo o autor, esse progresso não é consequência de alguma força cósmica. É uma herança do Iluminismo, ou seja, a convicção de que a razão e a ciência podem impulsionar o florescimento humano. 

Eu não cederia à tentação de escolher entre um e outro autor. Acredito que as duas percepções sobre o tempo em que vivemos possam coexistirem, como um dado da realidade, de nossa racionalidade, independentemente da maneira como vemos o mundo e qual a nossa impressão, se positiva ou negativa. 

No momento em que incursiono em elucubrações deste texto, raiam os primeiros minutos do dia em que se inicia a COP 26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, este ano sediada em Glasgow, na Escócia. Tá, mas o que a COP 26 tem a ver com os paradoxos entre otimismo e o pessimismo indicados acerca dos autores? Bem, todo ponto de vista é a vista de um ponto.

A COP 26 ocorre poucos meses após a divulgação do relatório sobre o clima, publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) das Nações Unidas, indicando prognósticos catastróficos sobre o aquecimento global, segundo ele, irreversíveis. 

O paradoxo é que no mesmo período da divulgação do IPCC o mundo inteiro assiste impressionado a disputa empreendida entre os dois maiores bilionários da Terra, Elon Musk e Jeff Bejos, inaugurando a corrida espacial pela iniciativa privada, onde turistas igualmente bilionários gastam fortunas para permanecerem alguns minutos no espaço a fim de experimentarem as sensações da gravidade zero.

O desejo do ser humano em explorar novos horizontes, por si só, nada tem de errado. No passado, as grandes navegações legaram à humanidade mais conhecimento científico e expansão sobre a Terra. O problema é o dispêndio de vultosas riquezas para a exploração de um espaço irrisório e observação de planetas vizinhos visivelmente já devastados, como o desértico Marte, enquanto a nossa Terra, tão rica, bela e necessária à nossa sobrevivência como espécie humana e da diversidade de nossa fauna e flora, agoniza, vítima de nós mesmos, em nossa irracionalidade ecológica.

Alguns analistas afirmam que metade do que já foi gasto nesses pequenos passeios a poucos quilômetros da estratosfera terrestre seria suficiente para financiar medidas urgentes em defesa do planeta Terra e de seu ecossistema, como a limpeza do convenientemente esquecido ou pouco falado “Sétimo Continente”, como é conhecido o entulho de resíduos plásticos que flutua no Pacífico Norte, numa área de 1,6 milhões de Km². Ou seja, três vezes o tamanho da França, o maior depósito de lixo oceânico, fora o que se encontra submerso.

São esses paradoxos atuais da humanidade que nos causam um terrível desalento sobre a nossa responsabilidade com a nossa morada. Nada contra o progresso, o avanço científico, tecnológico, o desbravamento sobre o espaço ou outros mundos. Porém, fico com as reflexões do bilionário Bill Gates, este que tem sim uma preocupação ecológica. Segundo ele, antes de se gastar bilhões de dólares em uma corrida espacial, “ainda temos muito o que fazer pelo nosso planeta Terra”.

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