Precisa-se de especialistas em cabelo crespo

Assumir o cabelo natural tem se tornado comum, um ato que quebra padrões e empodera. No entanto, o mercado ainda carece de profissionais especializados nos fios

Postado em: 10-09-2016 às 06h00
Por: Toni Nascimento
Assumir o cabelo natural tem se tornado comum, um ato que quebra padrões e empodera. No entanto, o mercado ainda carece de profissionais especializados nos fios


Da Redação

Nos últimos quatro anos, especificamente, o número de mulheres e homens que frearam os alisamentos capilares e assumiram o cabelo crespo/cacheado ficou mais visível. Com a ascensão das redes Facebook e Instagram, além dos famosos Youtubers que dirigem o seu trabalho ao público crespo, a troca de informação sobre aceitação e cuidados com o cabelo ficou mais fácil. No entanto, abandonar a química alisadora e voltar ao natural não é um processo simples, demanda muita atenção aos fios, principalmente de profissionais especializados que, infelizmente, ainda estão em falta. 

Muitas pessoas, principalmente mulheres, já iniciam o dissabor com os cabelos crespos ainda na infância. Penteá-los era sinônimo de tortura, e se não houvesse uma quantidade satisfatória de cremes para “domá-los”, uma trança bem firme poderia resolver o “problema”. A verdade é que os pais não sabiam como lidar com os fios, não haviam produtos voltados para o público crespo e, mediante as coleguinhas da infância com os seus cabelos lisos, o caminho mais fácil a ser tomado era o alisamento. 

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E assim cresceram muitos meninos e meninas, envoltos ao preconceito e com a ideia de que o liso era o cabelo mais bonito, o mais fácil de lidar e o mais aceitável. No momento, muitos acreditam vivenciar este período de aceitação como uma espécie de “moda do black power”, mas esse processo vai muito além disso e significa para muitos a desconstrução de modelos padrões e a construção de uma identidade. A contribuição dos profissionais especializados em cabelos crespos e cacheados torna-se muito importante nessa trajetória, mas o mercado ainda carece deles e o público sente a falta. 

Profissionalização 

Walkíria Barros trabalha com salão de beleza há 17 anos. No início ela ainda não havia se especializado e decidiu trabalhar com crespos assim que sua irmã perdeu os cabelos em decorrência de um alisamento, um mês antes de seu casamento. No Kira’s Cabelo e Maquiagem, localizado no Criméia Leste, Walkíria chega a atender 36 clientes por dia. O segredo para conquistar tantas pessoas, defende ela, deveria ser de lei para qualquer cabeleireiro que pretende trabalhar com cabelo afro: a especialização. 

Walkíria é uma profissional de referência em Goiânia. Em constante formação, ela graduou-se no curso de Gestão em Estética e Beleza, fez cursos técnicos de pele e manicure e, agora, está prestes a terminar o curso de Terapia Capilar. Para ela, cuidar de cabelo não é só beleza, é uma questão de saúde. “Salão de beleza é uma bomba relógio. Você precisa saber se sua cliente toma medicação, se está em algum tratamento, se tem alguma alopecia, para depois você tratá-la adequadamente”, diz.

A crítica da cabeleireira é em relação ao número de pessoas que dizem tratar de cabelo afro, mas não estudam para isso. Em Goiânia, tem se feito mais tranças, permanente afro e outros procedimentos sem o cuidado necessário. “É por isso que fiz terapia capilar, eu não posso trançar o seu cabelo, por exemplo, sem saber se você tem alguma alopecia (perda de cabelo)”, afirma. Entender o funcionamento do cabelo afro e cacheado é essencial.

Orientação

“O nosso foco é você reconhecer o seu cabelo e aceitá-lo do jeito que ele é”. A tarefa não é fácil. Mas, para que isso se cumpra, Walkíria e as auxiliares orientam suas clientes para que os cuidados aos fios não fiquem limitados ao salão. A orientação faz toda a diferença porque, segundo a cabeleireira, o cliente pode solicitar um procedimento que pode causar danos ao couro cabeludo. “A questão é não enganar, pensar na saúde deve ser o mais importante, mais do que o dinheiro que você pode ganhar”, coloca. 

No entanto, não é só a saúde do cliente que está em jogo. Se a profissional são entender profundamente o procedimento e a química que utiliza, o trabalho pode se tornar nocivo. “Conheço muitos cabeleireiros que desenvolveram câncer e alergias provenientes da utilização de elementos que causam danos à saúde”, afirma Walkíria.

Identidade

Susane Figueiredo e Vera Lúcia Chaves têm muitas coisas em comum. Ambas alisaram o cabelo ainda crianças e cresceram com piadas racistas. A administradora Susane enfrentou três longos anos de transição até cortar toda a parte alisada do cabelo, “eu me tornei livre de padrões sociais, foi uma ação de me aceitar e gostar do meu cabelo”, diz. Vera Lúcia, 50, tinha uma relação estressante com os fios, “era cansativo aquela coisa de salão toda semana para escovar, passar chapinha”. Há três anos ela recuperou de vez os cachos e se viu livre de uma rotina de cuidados difícil. 

A insatisfação com o cabelo crespo movido pelo preconceito foi uma experiência também vivida por Flávio Herrera. Ela desenvolveu um complexo de inferioridade muito grande e raspava a cabeça. Hoje, após decidir assumir o Black Power, Flávio se encontrou e tornou-se seguro com a sua imagem. Para ele, se assumir como tal é um processo de empoderamento, o qual contribui para a afirmação da identidade negra.

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