Trabalhadores buscam novas ocupações para fugir da crise

De cada 10 pessoas que tentam incrementar a renda com outra atividade, três não alcançam sucesso

Postado em: 19-09-2016 às 06h00
Por: Redação
De cada 10 pessoas que tentam incrementar a renda com outra atividade, três não alcançam sucesso

Wilton Morais

A recessão econômica que atingiu o país nos dois últimos anos fez com que trabalhadores de vários ramos do mercado procurassem uma segunda opção de trabalho. Este é o caso da representante de semi jóias Cristiane Vieira Maia. Devido às dificuldades do mercado concorrente, Cristiane passou a vender bolos de pote, na tentativa de melhorar a renda da família.

A vendedora não é a única, segundo pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, (FGV projetos), encomendada pela Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), o efeito da recessão econômica que o País viveu nos últimos anos, fez com que 55% dos cidadãos procurassem um trabalho extra. A pesar do fator, 29% não obtiveram sucesso e consequentemente não conseguiram outra opção de trabalho.

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"Como representante de semi Jóias, não estava obtendo lucros suficientes para manter os gastos da minha casa. Assim, ao fazer bolos de aniversario para a família, tive a ilustre idéia, em fevereiro deste ano, com apenas R$100, comecei fazer os bolos no pote", disse Cristiane Maia.

Segundo o professor do Curso de Ciências Econômicas Universidade Federal de Goiás (UFG), Everton Sotto Tibiriçá Rosa, o impasse da crise política agravou a volta da confiança, para novos investimentos no setor privado, o que tem justificado a desproporção de pessoas que obtém sucesso com a busca de um novo trabalho. Dessa forma, se o mercado não proporciona meios de desenvolvimento e alternativas, a solução possível é o trabalho por conta própria.

“O mercado de representação de semi jóias está bem ruim, ainda estou neste meio porque já possuo uma agenda de clientes, conquistada a longas datas. Mas se não tivesse entrado no trabalho dos bolos por conta própria, não possuiria condições favoráveis dentro de casa”, conta Cristiane. “Com os bolos no pote, consigo pagar as contas do supermercado”, conclui.

De acordo com a boleira, as saídas encontradas para driblar a falta de sucesso em novas opções de trabalho foram às vendas que são realizadas nas próprias lojas por onde a representante passa. “Vendo os ‘bolos da Cris’ por R$6, nas próprias lojas em que sou representante e em duas escolas que minha cunhada trabalha”, revela.

Se a situação está crítica no mercado de trabalho, a pesquisa aponta mais um problema.  Conforme a FGV, 76% dos cerca de 2.000 entrevistados estão preocupados com o risco de perder o emprego, destes 44% se posicionaram como muito preocupados. O que tem atraído mais profissionais para o trabalho autônomo.

“O mercado produtivo estava arrojado, porém, desacelerava, mas empregava cada vez mais pessoas, foi substituído intencionalmente pela guinada da política governamental, o que causou o ajuste fiscal para política monetária de dinheiro caro. Isso enfraquece a atividade econômica, empregos formais passam a ser evitados pelos empregadores. As demissões passam a mitigar o efeito das contratações”, explica o economista Everton Sotto.

Se vendendo aproximadamente 200 bolos por semana, Cristiane ainda encontra dificuldade na sua economia particular, na área de construção civil o impacto é ainda mais agravante. A pesquisa aponta que 418 mil vagas foram perdidas no setor, em 2015. O segmento foi o que mais eliminou postos de trabalho e soma atualmente 22,6 milhões de trabalhadores.

Qualificação

Com a falta de opção no mercado, se qualificar e adquirir conhecimento em cursos são elementos fundamentais para o profissional. Segundo a FGV, 41% dos entrevistados fizeram curso de qualificação para manter ou conseguir emprego, o que não quer dizer que todos conseguiram. “Neste cenário de crise, temo que a qualificação não seja uma estratégia que assegure o emprego, haja vista que a determinação que está sobre os empresários, aqueles que são criadores de empregos está na dificuldade de elevar ou manter o faturamento em uma economia em crise”, analisa o professor Everton Sotto.

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