Tortura: entidades associam ato na Cidade de Goiás a extremismo

Para entidades, organizações e a Prefeitura da Cidade de Goiás, a manifestação é um ato extremista e precisa ser combatido.

Postado em: 03-05-2021 às 09h18
Por: Nielton Soares
“Deus perdoe os torturadores” e logo abaixo “Nosso Brasil pertence ao Senhor Jesus” e “Direita com Bolsonaro”, destacava manifestantes com farda semelhante aos farricocos | Foto: redes sociais

Um ato de manifestação de duas pessoas, no último sábado (1º/5), na Cidade de Goiás ganhou repercussão e repúdio de várias entidades. A data marcou o Dia do Trabalhador e também de protestos em todo o Brasil em favor do presidente Jair Bolsonaro.

Os dois manifestantes se vestiram semelhantes a farda dos farricocos, personagens que cobrem todo o corpo e rosto durante a realização de evento religioso da Semana Santa. Eles foram fotografados em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, considerada patrimônio da cultura afro-brasileiro. E seguravam uma faixa onde se lia: “Deus perdoe os torturadores” e logo abaixo “Nosso Brasil pertence ao Senhor Jesus” e “Direita com Bolsonaro”.

Para entidades, organizações e a Prefeitura da Cidade de Goiás, a manifestação é um ato extremista e precisa ser combatido. Segundo o prefeito da cidade, Aderson Liberato Gouvea, esses atos extrapolaram a normalidade democrática e desrespeito a democracia e as instituições.

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Já a Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat) informou que irá acionar o Ministério Público de Goiás (MPGO) para apuração do caso. A Associação Cultural Pilão de Prata da cidade de Goiás, por nota, associou o ato como da Ku Klux Klan (KKK): “Justo em solo sagrado e patrimonial da cultura afro-brasileiro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos erguida às custas do flagelo do povo negro e de seus remanescentes”, lamenta a associação.

Nota Prefeitura de Goiás

“A Prefeitura Municipal de Goiás foi surpreendida com as manifestações realizadas no dia 1° de maio, em defesa de torturadores e da ditadura militar.

A utilização de um símbolo da tradição religiosa e cultural da Cidade de Goiás, o farricoco da procissão do Fogaréu, para fazer apologia a tortura e a ditadura militar, é não somente uma afronta a sociedade vilaboense e a fé de nosso povo, mas configura crime, previsto no art. 287 do Código Penal.

Celebrar a tortura, em frente ao Convento Dominicano, congregação que teve membros perseguidos e torturados é cruel. Do mesmo modo, fazer alusão a grupos supremacistas e o racismo é atacar os Direitos Humanos conquistados a duras penas no Brasil.

Os atos extrapolaram a normalidade democrática, desrespeitando a própria democracia e as nossas instituições”

Nota da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT)

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Goiás, 02 de Maio de 2021.

Na tarde de ontem, como é de amplo conhecimento, fomos surpreendidos com a distribuição de algumas fotografias nas redes sociais, das quais continham duas pessoas com vestimentas brancas, capuz com dois furos sobre a cabeça e que portavam uma espécie de cartaz/faixa com a descrição “Deus perdoe os torturadores” e logo abaixo “Nosso Brasil pertence ao Senhor Jesus” e “Direita com Bolsonaro”.

A Organização Vilaboense de Artes e Tradições – OVAT, instalada em 1965, entidade da sociedade civil organizada sem fins lucrativos, com a missão de zelar pela memória e a salvaguarda do patrimônio imaterial de Goiás, desde sua fundação é a mantenedora da Procissão do Fogaréu e de outras expressões culturais de nossa cidade.

Devido à demanda de questionamentos e mensagens de apoio recebidas nas redes sociais, pela UFG, imprensa e por pessoas que reconhecem os serviços que prestamos gratuitamente para a dinamização e valorização da cultura vilaboense e goiana, a estes e quem interessar, esclarecemos que a OVAT e a Procissão do Fogaréu não participaram dessa exibição pelas ruas de Goiás e tão pouco tem conhecimento de quem sejam os possíveis autores.

Em detrimento da repercussão negativa que isso ensejou, tomaremos todas as medidas cabíveis junto as autoridades competentes: MP, Polícia Civil, MPF, Polícia Federal e OAB, e a estas nos colocamos à disposição naquilo que for necessário para averiguar a autoria deste fato.

Desde a fundação da OVAT, as suas atividades e realizações sempre semearam o ecumenismo ao lado da Igreja Católica, a harmonia com as demais religiões, o respeito entre elas e a ampla defesa aos direitos humanos.

A OVAT é contra: a incitação à ditadura, intolerância religiosa e étnica, preconceitos, silenciamentos, tortura, violência e quaisquer que sejam os atos que estimulem a violação dos direitos difusos e sociais.

Agradecemos a população e as instituições pelas manifestações e o apoio prestados.

Organização Vilaboense de Artes e Tradições – OVAT,

Fundada em 1965

Nota da Associação Cultural Pilão de Prata

A Associação Cultural Pilão de Prata da cidade de Goiás repudia o ato organizado pelo grupo apoiador de Bolsonaro na manifestação ocorrida na cidade de Goiás em 01 de maio de 2021 que agiu violentamente de forma racista e criminosa criando aspectos de violência simbólica latente inspirados na ceita Ku Klux Klan, assassina de povo negro.

Justo em solo sagrado e patrimonial da cultura afro-brasileiro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos erguida às custas do flagelo do povo negro e de seus remanescentes.

Inescrupulosos caminharam pelo território quilombola em afronta à vida destes que carregam consigo o legado de seus antepassados.

Mancharam o simbólico religioso da cidade de Goiás ao vestirem com referência às indumentárias representativas da Procissão do Fogaréu, tão cara para cultura de nossa cidade.

Em um momento tão crítico com mais de 400.000 (quatrocentos mil) mortos numa pandemia descontrolada profanaram o chão de Oxum, da Rainha Zinga, dos Bantus, das nossas crianças e dos nossos velhos.

Estamos indignados e profundamente violentados diante de tamanho ato irreparável e digno de medidas jurídicas de responsabilização pelos diversos crimes cometidos de apoio à tortura, de racismos.

Goiás é Patrimônio Mundial e isso é um crime contra a humanidade e à vida.

Pilão de Prata é vida do povo negro e jamais se silenciará!

se silenciará!

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