Aumento na conta de luz pega consumidores de surpresa

Postado em: 17-06-2021 às 07h52
Por: João Paulo
Agência anunciou 20% a mais no valor da bandeira vermelha na conta de energia | Foto: Jota Eurípedes

O aumento de mais de 20% no valor da bandeira vermelha na conta de energia elétrica já começa a preocupar consumidores em mais um serviço essencial para as pessoas. O anúncio foi feito pelo diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone. A decisão foi tomada devido à seca que atinge o Brasil e levou os reservatórios a terem baixos níveis de água.

Dessa forma, as usinas termelétricas são acionadas e, por sair de maneira mais cara ao governo, a conta já é repassada diretamente para o consumidor. O valor de R$ 6,24 para cada 100 quilowatts/hora já está em vigor.

Questionar sobre o aumento já deixa o empresário Dércio Antônio Fernandes Barbosa sem palavras. Ele é proprietário de um bar que fica no Setor Leste Vila Nova e, para ele, esse aumento acontece devido à falta de investimentos em governos anteriores. “O Brasil não fez o investimento anterior, em vários governos, agora vai correr para onde? Não vou falar se é viável ou não ter esse aumento por agora porque ele infelizmente já está ai. Eu acho que deveria ter tido um investimento que não estaríamos chegando nesse ponto.”

O bar de Dércio já tem 15 anos localizado no mesmo lugar e ele afirma que esse é o momento mais complicado que enfrenta. Além dos salários de 15 funcionários, têm a reposição diária de alimentos e estoque de bebidas. O aumento da luz é algo que, para ele, vai complicar ainda mais manter o restaurante aberto. “Se as coisas já estavam difíceis, agora que vai ficar ainda mais. Alguém vai conseguir sobreviver, mas muitos não darão conta”, destaca.

O empresário conta com freezers, geladeiras, máquina de chopp, expositores de cervejas e refrigerantes, televisores e um sistema de climatização que é ligado na energia elétrica. Ele já paga valores na conta de luz que variam de 3,5 mil a 4 mil. E pelo porte do comércio, já é incluído na bandeira vermelha. Ele afirma que tem interesse em fazer investimento na energia solar.

“Só não faço no momento, pois eu pago aluguel aqui. Não tenho sala própria. Eu acredito que é um custo benefício. Você paga caro pela instalação, mas com o tempo você consegue retirar esse valor. O nosso tempo também nos ajuda com isso. O Sol predomina boa parte do ano. Eu acho que quem puder partir para a energia solar é uma alternativa. O que não dá é trabalhar sem energia”, pontua.

A alta na energia é apenas um dos reflexos causados pela pandemia da Covid-19 e que assola empresários, principalmente do ramo alimentício. E o que mais agrava a situação é que muitos não conseguem repassar esses aumentos nos produtos que vendem. “Para se ter uma ideia, antes eu comprava a costela ponta de agulha por R$ 8 e conseguia vender o meu prato feito a R$ 10. Hoje, eu pago R$ 18 pelo quilo da mesma carne só consigo passar o meu PF por 15. Ou seja, eu diminuí a minha margem e estou falando de uma cadeia de negócios que também utilizam muita energia e que eu sentirei o impacto disso”, destaca.

Como funciona esse aumento

O economista Aurélio Troncoso explica que as termelétricas são mais caras devido à alta do preço do diesel, que é o que movimenta a energia nesses lugares. Porém, o que mais impacta o consumidor, conforme ele explica, é o valor cobrado ao consumidor para repor os 7% que as distribuidoras aumentaram para as concessionárias de energia. “A geradora está cobrando das operadoras um aumento de 7% e as distribuidoras estão cobrando 20% do consumidor. É uma diferença gritante de 13% na cobrança que foi autorizado pela Aneel”, pontua.

Aurélio explica que o sistema energético brasileiro está interligado, mas que a seca está se tornando cada vez mais presentes em todas as regiões do país. “A gente conta com usinas hidrelétricas em todos os estados brasileiros. Com isso, acontecia de haver reservatórios no Norte e Nordeste cheios que transmitiam energia para o Centro-Oeste, Sul e Sudeste na época de seca e vice-versa. Mas essa realidade mudou”, destaca.

Uma possível saída para essa questão, segundo ele, é a privatização da Eletrobras. Aurélio pontua que o monopólio de transmissão de energia trava a briga de preços atrás de livre mercado. “Dessa forma vai cair o preço da energia do país. Vai chegar em um ponto que vai ter concorrência muito forte do mercado, pois há muitas empresas na produção. A partir do momento que o governo vender essas linhas de transmissão e usinas, como a de Itaipu e Ilha Solteira, o custo de energia vai baratear pela concorrência de mercado.

Aurélio explica que esse mesmo problema se esbarra na usina eólica – feita pelo vento. No Brasil já há alguns pátios com os geradores instalados, mas não há linhas de transmissão que leve a energia que é ali gerada para algum lugar. “É como se fosse um teste. Eu tive um aluno que trabalha com essas questões no Piauí e ele tinha acesso a quantidade de energia que era gerada a todo momento ali. Mas não tinha transmissão. A energia era desperdiçada. O que é triste e uma possível saída para essa crise energética pois o clima brasileiro é favorável para esse tipo de geração de energia”, explica.

No caso do Dércio, Aurélio destaca que ele deve levar em consideração muitos fatores para tentar reduzir a energia, mesmo sendo difícil se tratando de um comércio. “Verificar se as lâmpadas utilizadas são de led. Trocar alguns aparelhos elétricos para outros que possam funcionar de outra forma. Evitar abertura de freezers e afins sem necessidade, buscar alternativas como promover uma noite de jantar à luz de velas. Tudo isso contribui com que haja redução de energia”, finaliza. (Especial para O Hoje)

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