Resistência a adotar irmãos deixa fila da adoção mais lenta

Postado em: 19-06-2021 às 09h40
Por: Maiara Dal Bosco
O Estado tem 967 pretendentes aptos para adotar, mas a preferência é por crianças sem irmãos e de pouca idade | Foto: Divulgação

A adoção, muito mais do que uma relação de afeto, é uma demonstração do amor incondicional de quem deseja se tornar um pai ou uma mãe. Mesmo assim, das 967 pessoas aptas a adotar em Goiás, a fila de 82 crianças e adolescentes segue a passos lentos. Essa demora pode ser explicada pela ‘preferência’ dos futuros pais, que na maioria das vezes querem crianças na faixa dos 4 anos de idade e sem irmãos.

Segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 20% dos futuros pais aceitam crianças até dois anos. Até 4 anos, são 33,15%. Até a faixa etária de 8 anos, o percentual já cai para 11,48% e até 12 anos, cai para 1,34%. Além disso, somente 36% dos pretendentes aceitam adotar dois irmãos. Três ou mais irmãos são a preferência de somente 2,3% dos pretendentes. 

Mas com a família da empresária Daniele Flöter Rassi, mãe de Ana Júlia (10) e Milena (7), a estatística fez o caminho inverso. Ela conta que as filhas nasceram no coração dela e do marido, o médico Pablo Rassi, com 4 anos e 11 meses e 2 anos e 8 meses, respectivamente. A história do casal com a adoção, entretanto, começou anos antes, ainda na época do namoro. “Assistimos ao filme “Um sonho possível”, que mexeu muito com a gente. Desde sempre já pensávamos em adotar”, conta Daniele. E foi por meio da adoção que o sonho de serem pai e mãe se tornou possível.

Daniele lembra que iniciou o contato com o Juizado em 2014. Em setembro de 2015, o casal entrou no Cadastro Nacional de Adoção, ferramenta criada para auxiliar juízes de varas de infância e juventude a cruzar dados e localizar pretendentes para adotar crianças aptas à adoção. “Casamos em 2010 e começamos a tentar engravidar. Não deu certo, mas o desejo da maternidade era muito forte em nós. Partimos para adoção, caminho que escolhemos para concretizar nosso desejo.”, afirma.

Depois de cumprirem com todas as etapas exigidas pela Justiça para estarem aptos à adotar, Daniele e Pablo começaram a realizar busca ativa. “Entendemos que queríamos ser pai e mãe, e não necessariamente de um neném”, conta Daniele. Foi neste interim que o casal soube de Ana Júlia e Milena. “Conhecemos a história delas por alto em dezembro de 2015. Em janeiro de 2016, estivemos como voluntários no Lar Batista, onde pudemos conhecer a história delas em detalhes, além de também conversar com a Juíza e com o promotor da cidade, para compreender como estava o processo delas de destituição, bem como se ele iria mesmo ocorrer”, pontua. A partir de então, pediram à Justiça a guarda provisória das meninas.

Certeza

Pouco tempo depois, em abril de 2016, Daniele e Pablo viveram um dia marcante. No dia 19, eles chegaram à audiência como um casal sem filhos e saíram pais de duas meninas: haviam ganhado a guarda provisória das duas irmãs. Além deles, outros três casais também haviam pedido a guarda de Ana Júlia e Milena, mas somente Daniele e Pablo estavam habilitados no Cadastro Nacional da Adoção.  “Naquele momento ainda a gente sabia que era uma guarda provisória, elas ainda não estavam destituídas, e as coisas poderiam mudar. Mas, dentro do nosso coração, a gente já tinha certeza que elas eram as nossas filhas”, descreve a empresária.

Depois daquele dia, a empresária lembra que vários outros momentos marcantes vieram. Entre eles, o dia em que as certidões de nascimento de Ana Júlia e de Milena ficaram prontas. “O dia em que recebemos a certidão de nascimento delas, com os nossos nomes e sobrenomes, com os nomes dos nossos pais, registrando de fato, que a partir daquele momento elas eram também no papel as nossas filhas, foi muito especial”, lembra Daniele.

Coração aberto

Passadas a ansiedade e expectativa para o encontro com as filhas, parte que Daniele considera a mais difícil ao longo de toda a gestação de coração, hoje ela compartilha em seu perfil no Instagram, @maeagoraeusou, a história dela com a adoção, as alegrias e os desafios da maternidade real. E, sempre que pode faz questão de ressaltar a importância da adoção tardia. “Abram o coração para a adoção tardia, adoção de irmãos, porque quando você encontra seu filho, você sente, você tem certeza”, afirma.

À época do curso de adoção, uma das sugestões que a empresária deixou no Juizado foi para que, os grupos que realizem os cursos, ou seja, quem está se preparando para adoção, tenham a oportunidade, mesmo que em grupo, de visitar lares e abrigos e ter contato com essas crianças que esperam por uma família. “Esse contato faz com que você veja que muitas vezes o desejo de um neném não faz sentido porque tem um adolescente ali que você vai olhar e falar ‘é meu filho’, tem um grupo de irmãos que você vai falar ‘são eles’. Você vai sentir no seu coração”, finaliza. (Especial para O Hoje)

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