Jovem diagnosticada com “doença da urina preta” segue em estado grave

Internada há 17 dias em Goiânia, jovem apresentou os primeiros sintomas um dia após consumir comida japonesa

Postado em: 13-07-2021 às 09h57
Por: Maiara Dal Bosco
Internada há 17 dias em Goiânia, jovem apresentou os primeiros sintomas um dia após consumir comida japonesa | Foto: Reprodução

Segue internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital da rede particular da Capital, a jovem de Goianésia diagnosticada com Síndrome de Haff, mais conhecida como doença da “urina preta”. Kelly Silva, de 27 anos e que já está há 17 dias internada tratando da doença, chegou a ficar 10 dias intubada. Ela apresentou os primeiros sintomas no dia 24 de junho, um dia depois que ela e a prima consumiram comida japonesa. Apesar disso, a família afirma que vem reagindo bem ao tratamento.

O pai da jovem, Nivaldo Carlos da Silva, que está em Goiânia junto com a mãe da jovem, Maria da Conceição, para acompanhar o tratamento da filha, conta que Kelly e uma prima saíram no último dia 23 de junho para comerem comida japonesa, refeição que ela estava acostumada a consumir. Segundo Nivaldo, naquela noite, ela chegou em casa bem. Entretanto, no dia seguinte, começou a passar mal. “Na noite do dia 24 ela teve vômito, diarreia e fraqueza. Pensamos que seria uma intoxicação alimentar ou uma virose e passamos a noite em casa. No dia seguinte, ela havia piorado, então fomos ao pronto socorro de Goianésia, quando recebeu remédio e medicação.”, afirma.

Mesmo com medicação, o estado de saúde da jovem foi se agravando. Nivaldo relata que, na noite do dia 25, ela começou a perder os movimentos das pernas, dos braços e da cabeça, ocasião em que novamente procurou um hospital. “No sábado, dia 26, a situação dela se agravou mais uma vez. Fomos à Goiânia e ela deu entrada em um hospital particular. No domingo, ela deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI)”, conta Nivaldo.

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Graças à investigação do médico responsável, que quis entender melhor o que a jovem havia feito antes de ser internada,foi possível precisar o diagnóstico da doença. “Ela estava consciente e o médico quis saber o que ela havia feito. Foi então que ela comentou que tinha ido nesse restaurante e consumido comida japonesa. Logo depois apareceu a urina preta e, graças ao médico, muito estudioso, descobriu que se tratava da Síndrome de Haff.”, conta o pai da jovem.

Ainda no dia 29, devido à gravidade do quadro, a paciente foi intubada. “Ela ficou 10 dias intubada, e houve a possibilidade de amputação de membros como mãos e pés, por conta da má circulação e falta de oxigenação dos membros. Desde o dia 30, ela está fazendo hemodiálise diária”, lembra Nivaldo. Segundo o pai da jovem, o estado de saúde dela é grave e estável e ela seguirá na UTI para receber os melhores cuidados. “Não desejo o que estamos passando para ninguém.”, finaliza. 

Acompanhamento

Em nota divulgada ontem (12), a Prefeitura de Goianésia, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informou que está acompanhando o caso da paciente contaminada pela síndrome de Haff. Segundo o comunicado, a mesma encontra-se internada na UTI e o seu estado de saúde  é estável, porém ainda requer cuidados específicos. Além disso, a Vigilância em Saúde e a Vigilância Sanitária estão acompanhando o surgimento de possíveis novos casos. Para tanto, foi emitido um comunicado oficial de alerta epidemiológico para as instituições hospitalares a respeito de sinais ou sintomas relacionados à doença.

“A Secretaria Municipal de Saúde orienta a população em que em caso de dúvidas sobre a doença, bem como os seus sintomas, é importante procurar a Vigilância em Saúde, por meio do telefone (62) 98325-7918, ou procurar uma unidade hospitalar.  Sobretudo, vale ressaltar que até o momento existe apenas um caso oficialmente notificado, e que todos os novos casos serão divulgados de forma oficial pela Secretaria Municipal de Saúde”, finaliza o comunicado. (Especial para O Hoje). 

Infectologista alerta sobre consumo de peixe

De baixa incidência no Brasil, a Síndrome de Haff, ou doença da “urina preta”, como popularmente é conhecida, ainda não é uma doença totalmente esclarecida, apontam especialistas. O que se sabe, entretanto, é, que, assim como no caso da jovem de 27 anos, internada há 17 dias em Goiânia, a doença está vinculada ao consumo de peixes, como tambaqui, robalo e crustáceos, como lagosta e camarão, além de outros.  

De acordo com o médico infectologista e professor de Saúde Pública do Centro Universitário São Camilo, Sérgio Zanetta, suspeita-se que os peixes são contaminados por se alimentarem de alguns tipos de algas. “Não sabemos, contudo, se os peixes se contaminam com uma toxina, produzida em contato com a carne, ou se quando são ingeridos provocam essa doença.”, afirma.

Segundo Sérgio, ela pode ocorrer por conta do consumo de peixe mal cozido ou peixe cru. “O que ainda não compreendemos é se a ingestão dessas algas contaminadas é o que causa essa toxina ou se os peixes produzem a toxina quando submetidos a um tipo de criação em confinamento, por exemplo”, destaca o médico.

Agravantes

O especialista explica que, por ser uma toxina que provoca a rabdomiólise, ou seja, a síndrome de destruição do músculo, o resultado é que as proteínas começam a circular no organismo e são filtradas pelo rim, que, quando recebe essa carga grande de proteínas, tende a ser lesionado. “Os rins podem entrar em falência por conta dessa alta carga proteica, e, por isso que a hemodiálise se faz necessária: para que seja possível retirar a proteína no sangue. A urina escura já é um sinal da alta carga proteica e que os rins estão em sofrimento”, pontua Sérgio Zanetta.

Determinados pela situação de destruição muscular, os sintomas mais comuns são dores, prostração e sinais de insuficiência renal que afetam vários órgãos. O manejo, segundo ele, é proporcionar suporte ao paciente e realizar a hemodiálise ativamente para retirar a proteína que foi produzida pela produção dessa toxina, que age destruindo o músculo e que, dependendo da capacidade de reserva de cada pessoa, poderá indicar uma situação mais ou menos grave.

“Essas proteínas pesadas, vão obstruindo as pequenas artérias e, com isso, podem causar lesões de extremidades. É por isso que, como o rim não consegue filtrar, a hemodiálise se torna indispensável, para que as proteínas não se depositem em pequenas arteríolas e daí cause lesões, gerando até mesmo o risco de amputação de membros”, afirma.

Prevenção

Para evitar a doença, o médico alerta para o consumo de peixes com boa procedência, principalmente os que tenham meios de criação que sejam controlados. “A Vigilância Sanitária deve rastrear esse peixe, verificando se há condições adequadas na produção local, ou se é um lote de peixes que vêm de fora e em quais circunstâncias”, finaliza.  (Maiara Dal Bosco, Especial para O Hoje).

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