Trabalho digno: conheça melhor quem são as pessoas que deixam Goiânia limpa

Postado em: 31-07-2021 às 08h00
Por: Carlos Nathan Sampaio
O Hoje conversou com profissionais da limpeza na capital sobre o dia a dia nas ruas e ouviu deles o apelo pela conscientização da população na forma de lidar com os resíduos | Fotos: Nathan Sampaio

Guiomar Rodrigues Hilário [foto acima], de 43 anos, e seu marido, acordam todos os dias antes das 5 horas da manhã, tomam o café, arrumam suas marmitas e percorrem, de moto, 16 quilômetros, do Setor Maysa, em Trindade, até um dos Pontos de Apoio da Companhia De Urbanização de Goiânia (Comurg), no Jardim América, em Goiânia. O casal, ambos varredores de rua da capital há mais de 10 anos, passam seus dias limpando as ruas dessa região da cidade.

Diabética, Guiomar tem três filhos, um de 22, outra de 23 e outro de 26. Segundo ela, os filhos foram criados com o esforço do trabalho que ela realiza hoje, o mesmo foi dito para o sonho que ela realizou: comprar a casa própria. “Tinha o sonho de ter minha casa e parar de depender dos outros, porque boa parte da minha vida e da infância dos meu meninos foi sempre na casa da sogra. Eu também tenho a minha moto”, diz ela satisfeita.

Conversando com Guiomar e com diversos outros profissionais da limpeza urbana, a reportagem do O Hoje notou que há muitas coisas em comum: uma gratidão pelo trabalho e pelas realizações atribuídas a ele. Da mesma forma, há descontentamento generalizado em dois quesitos: a redução de profissionais e a falta de colaboração dos cidadãos para como lixo.

“Não é porque existe varredor que a gente é obrigado a fazer tudo, então tem que se conscientizar para a limpeza na sua própria porta, porque se facilitar pra gente não teríamos Goiânia tão suja quanto hoje. Então eu acho que a responsabilidade é tanto do governo como da sociedade, não é só de um, porque se os dois não trabalharem juntos não tem como mudar nada. E é a saúde, a limpeza, a educação, a segurança, é tudo”, manifestou Guiomar.

Além disso, a varredora alertou para o número de profissionais que vem diminuindo. “Diminuiu o número de colaboradores. Muitos nós perdemos para a Covid, entendeu? Alguns se aposentaram, outros se afastaram, mas as pessoas continuam cobrando muito e não veem que nosso pessoal reduziu e não houve mais concurso. Eu mesma já tive vários problemas por causa dos movimentos repetitivos e eu adquiri a diabetes durantes esses anos, então as pessoas não estão saudáveis, o que também dificulta o trabalho, não é a mesma força de antes e ainda bem que eu já vacinei com aquela dose única”, conclui a profissional.

De acordo com a Comurg, são apenas 4.169 profissionais de limpeza – varredores, coletores, motoristas, e outros – incluindo os afastados pela pandemia, licença prêmio e afastamento pelo INSS. Ou Seja, considerando que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima a população de Goiânia em 1,5 milhão de pessoas, então há apenas um servidor da limpeza para cada 360 goianienses.

Os servidores possuem carga horária de 8 horas diárias, 220 mensais, sendo escalados em sábados de forma alternada, e aos domingos de acordo com escala, com folga durante a semana. A carga horária noturna é de 6 horas sendo escalados em sábados de forma alternada (exceto coleta orgânica), com carga horária 12×36 em algumas áreas sendo elas varrição de feiras, roçagem e pintura de meio fio, poda, extirpação ou aterro sanitário.

A média de lixo domiciliar recolhida por dia, também é cerca de 1,2 toneladas por dia, chegando a uma média mensal de 35 mil toneladas.

Coleta diária

Seguindo a linha de profissionais entrevistados, a reportagem também falou com Samuel Ferreira Santos, de 35 anos. Formado em administração de empresas e em gestão em segurança pública, Samuel é coletor há mais de 10 anos. Ele explica que o trabalho de um coletor é acompanhar o caminhão em alguma região da cidade e recolher o lixo das lixeiras de casas e alguns estabelecimentos comerciais.

Samuel é formado em administração e sonha em ser policial civil

“Minha rota faz a parte mais periférica da cidade, a parte Sudoeste. Lá temos 12 trechos e cada dia vai alternando um, um dia faz um setor e o outro dia faz o outro, para poder atender todo mundo. Sempre são três coletores e o motorista, aí é desse jeito aí e já fazem 10 anos que estou aqui”, explica ele.

Samuel, que tem uma filha de 7 anos, é casado com uma professora e possui sua casa própria, apesar de ser satisfeito com seu trabalho como coletor, ainda possui o sonho de ser policial. “Eu fiz diversos concursos, mas como aqui chamou primeiro, vim trabalhar aqui. Mas eu pretendo sim crescer, fazer algo melhor. Porque eu estudei, eu fiz até o ensino superior. Quero ser policial civil, é um sonho meu”, revelou para a reportagem.

O coletor também alerta e pede mais conscientização ao goianiense. “O que eu espero da população é o seguinte: que todo mundo tenha um senso bem comum e que pense no próximo, porque colocar o lixo da melhor forma também é pensar no próximo, sabe? Muita gente coloca o lixo de qualquer jeito, com vidro quebrado, lâmpadas quebradas, não está nem ai com quem vai pegar, quem vai juntar. Eu sei que nós temos a função de limpar a cidade, mas cada um tem a função de organizar o seu próprio lixo e, às vezes, as pessoas colocam o lixo solto na lixeira. Cada um tem que pegar seu lixo e arrumar direitinho, separar o vidro, separar o lixo reciclável do orgânico e tudo isso falta a conscientização da sociedade”, pede Samuel.

Outro profissional da limpeza, Willian Couto dos Santos, de 41 anos, é motorista de caminhão de lixo há 13 anos. Casado e com uma filha de 5 anos, Willian também começa às 7 horas e passa o dia com os coletores pela cidade. Ele reforça a importância do profissional de limpeza. “Nós como motoristas devemos, além de transportar o lixo, se dobrar na segurança dos meninos lá atrás, do trânsito”, diz ele.

Willian conta que seu gosto pela profissão foi herança de seu pai. “Meu pai que me ensinou tudo. Ele também trabalhava na companhia, mas infelizmente já nos deixou. Teve um infarto fulminante há 12 anos. Nós começamos a trabalhar aqui praticamente juntos, mas logo em seguida ele infartou, mas foi uma profissão que ele me deixou de herança, foi me ensinando desde criança”, contou o motorista. O profissional que também conseguiu sua casa própria relata que, apesar dos seus pais não terem tido condição de ajuda-lo na vida, ele garante que faz de tudo pela sua filha.

A limpeza da cidade é uma responsabilidade de todos

Ações para intensificar coleta seletiva

Visando intensificar a conscientização sobre a importância da coleta seletiva, a Prefeitura de Goiânia vai promover, em conjunto com suas secretarias, ações para disseminar informações sobre a coleta seletiva e estimular a prática da mesma. A primeira pasta a receber o projeto será a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), com iniciativas na sede principal e nos 47 pontos de apoio da companhia.

De acordo com a prefeitura, haverá um treinamento de uma equipe multiplicadora sobre o funcionamento do Projeto de Coleta Seletiva e essa equipe fará posteriormente o trabalho de educação ambiental com os todos os servidores da Comurg, sejam eles da sede administrativa, sejam eles dos vários Pontos de Apoio espalhados pela cidade.

No trabalho de educação ambiental serão utilizados diversos tipos de materiais gráficos, como: cartazes, folhetos explicativos, banners e adesivos. O objetivo é que o colaborador aprenda a separar o resíduo orgânico do reciclável em sua casa e a dissemine as informações em sua comunidade. A ideia é que cada servidor seja um multiplicador e ajude a propagar a necessidade de separação e destinação correta dos resíduos.

Somado a isso, a comunidade, que já participa da coleta seletiva separando seus resíduos, que são recolhidos em dias específicos, passará a contar com pontos de apoio espalhados pela cidade, facilitando o descarte correto do lixo. Serão 46 pontos de entrega voluntária (PEV) com instruções para separar e descartar o resíduo. O material arrecadado será destinado às cooperativas e associações de catadores vinculadas ao Programa Goiânia Coleta Seletiva (PGCS), que envolve cerca de 200 famílias que sobrevivem desta renda. (Colaboraram Victoria Lacerda e Giovana Andrade)

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