Pistas de caminhada devem ser exclusivas para pedestres

Postado em: 07-09-2021 às 09h13
Por: João Paulo
Projeto de lei aprovado na Câmara Municipal de Goiânia proíbe que ciclistas, skates, patins, hover-boards e patinetes elétricos utilizem pistas de caminhada da cidade. | Foto: Reprodução

Projeto de lei aprovado na Câmara Municipal de Goiânia proíbe que ciclistas utilizem pistas de caminhada.  Também foi proibido o trânsito de skates, patins, hoverboards, patinetes elétricos ou todo equipamento de duas ou três rodas. Em caso de descumprimento, o infrator pode receber uma advertência e multa. O valor pode dobrar em caso de reincidência. O texto, agora, aguarda a sanção do prefeito Rogério Cruz (Republicanos).

De acordo com o vereador Sandes Júnior (PP), a justificativa para o projeto é para garantir e promover a segurança dos pedestres que fazem caminhada nesses espaços. “O número de adeptos destes tipos de transportes estão cada vez mais frequentes, pois o surgimento dessas modalidades vêm aumentando também o número de acidentes causados pelos usuários, que por sua vez não deveriam estar circulando nas pistas de caminhada, pois o local é impróprio para uso, o que de certa forma prejudica o livre deslocamento de pedestres.”

O texto continua: “Os acidentes e reclamações são notórios e vem surgindo, seja por meio dos munícipes que nos procuram no gabinete ou até mesmo por pessoas que denunciam nas redes sociais.” Apesar disso, o vereador não trouxe dados sobre o aumento desses acidentes.

Realidade que poderia ser mudada

Quem gosta de pedalar, sabe que é uma paixão que vem desde muito cedo. Pelo menos é o que destaca o agente de propriedade industrial, Frederico Martins, 32 anos. “Eu ganhei minha primeira bike aos 8 anos de idade. Lembro como hoje, minha mãe me deu um cofre e durante um tempo fui juntamos o dinheiro para comprar. Lógico que a grana juntada não dava pra comprar, mas foi uma ótima maneira de dar valor ao dinheiro”, relata.

Frederico utiliza a bicicleta para trabalhar. Com ela, faz 2 quilômetros para chegar até a empresa. Porém, aos finais de semana, afirma que se aventura em trilhas, que vão de 30 a 50 quilômetros de percurso. Apesar dessa liberdade no campo, ele sabe que não conta com uma infraestrutura necessária. “Infelizmente não temos a cultura de construir ciclovias como nos países europeus. Mas há tempo para isso, Goiânia tem diversos parques e avenidas que poderiam ser readequados para esse propósito”, destaca.

Sobre o projeto em questão, ele destaca que a falta de espaço acaba fazendo com que se tenha uma mistura com ciclistas, pedestres, patinetes e motos elétricas nos parques.”A exemplo do Parque Areião, temos uma extensa área que poderia ser adequada ao invés de termos um projeto que vem só para dificultar o lazer dos goianiense”, pontua.

O agente de propriedade rural afirma que os ciclistas nas pistas de caminhada criam certas situações desagradáveis. “Acredito que sim [atrapalham], haja vista que não se tem espaços demarcados. Algumas vezes, aqueles pedestres que estão correndo não marcam uma direção contínua e acabam andando em zigue-zague, onde pode acontecer um acidente. Para mudar isso, em alguns locais de Goiânia, uma simples demarcação indicando ciclovia já ajudaria bastante”, afirma.

Lado positivo

O agente de call center, Antônio Marcos Machado Rocha , 23 anos, acha que o projeto pode trazer um lado positivo para os ciclistas. “Acho um projeto de iniciativa e eficiência, pois as vias para os ciclistas são poucas o que acaba sendo perigoso para o ciclista andar na rua obrigando-o a ir para a calçada e isso acaba prejudicando o tráfego dos pedestres”, destaca.

Segundo ele, Goiânia ainda carece de certa infraestrutura importante para os ciclistas. “As faixas de ciclistas estão presentes apenas nos parques mais acessados, popularmente falando, e presentes também nas principais vias dos setores Centro e Sul. Creio que seria viável ter mais vias para ciclistas, mas também avenidas principais que ligam os setores (via arterial e via coletora que estão presentes no CTB)”, pontua.

Para ele, dá para reverter a situação. “As autoridades deveriam fazer um mapeamento para alargar as calçadas em regiões estratégicas da cidade e as vias que ligam os bairros até essas regiões estratégicas (usar as linhas dos ônibus como exemplo)”, pontua.

Assim como Frederico, Marcos também gosta de percorrer grandes trajetos, que oscilam de 40 a até 100 quilômetros. Ele também conta que desde muito cedo teve gosto pela amada ‘magrela’. “Pedalo desde cedo nas ruas do meu bairro [Parque das Laranjeiras]. É um bairro tranquilo, até hoje pode-se encontrar crianças pedalando pelo parque Sabiá e Bosque Bouganville. Comprei minha primeira bike profissional MTB aos 20 anos de idade e fui convidado a entrar em um grupo de ciclistas (Bykeiros da Elite) para conhecer melhor as trilhas MTB que têm escondidas em nossa cidade. Com isso, expandi um pouco no mapa, trilhas de terra que ligam Goiânia com Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Hidrolândia, Roselândia e por fim a cidade Bela vista de Goiás. Tive a oportunidade de ir de cidade pelas pistas de ciclovia existentes na GO-020. Atualmente pedalo aos domingos com meu grupo e sempre partimos para uma trilha que tenha cachoeira ou rio, exemplo: trilha de Roselândia ou a trilha da coxinha, que se localiza em frente ao posto sobrado na GO-020”, conta.

Federação diz que nova lei só reforça a legislação

A Federação Goiana de Ciclismo (FGC) se manifestou sobre o projeto de lei do vereador Sandes Júnior. Para a entidade, a proibição ‘vem apenas para reforçar o que já traz as legislações superiores’ e reforçou que se a pista for de uso exclusivo para caminhada, ‘não faz sentido o uso da bike’. Sobre o teor, o vice-presidente da FGC, Emanuel Muniz, afirmou que a ‘orientação aos usuários da bicicleta como prática esportiva, lazer ou meio de transporte sempre será no sentido da harmonia entre veículos motorizados ou não, pedestres e transeuntes’.

“Quanto ao uso de espaço determinado para a atividade em questão, a proibição através do projeto de lei vem apenas para reforçar o que já traz as legislações superiores, onde a bicicleta tem seu espaço em concomitância com veículos nas vias públicas ou em locais exclusivamente para bicicletas que é o caso das ciclovias”, destacou Muniz. “O correto seria a pressão dos usuários dos espaços pela implantação de ciclovias, ciclorrota ou ciclofaixa”.

O vice-presidente da FGC disse que a entidade conversa com o poder público já há algum tempo, no intuito de direcionar investimentos para ciclovias e ciclofaixas da Capital. “Em Goiânia, foi pedido já para a gestão atual que, além da revitalização dos espaços existentes, seja feita a retomada do plano cicloviário de Goiânia com a expansão de novas rotas”, informou.

Muniz confirmou que FGC também mantém diálogo com o governo do Estado, com uma reunião realizada em abril deste ano sobre a questão. “Pedimos que o Estado pudesse buscar recursos junto ao governo federal para realização de estudos e implantação de novas ciclovias no interior do estado”, concluiu. (Especial para O Hoje)

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