Crise força consumidor a parcelar contas básicas no cartão

Postado em: 09-09-2021 às 08h10
Por: João Paulo
Cerca de 11,89 milhões de famílias estão com alguma dívida em aberto e a maioria causada por alimentação e transporte | Foto: Jota Eurípedes

A vida econômica do goiano não anda fácil. Para sobreviver, é um verdadeiro malabarismo para que as contas possam ser quitadas – ou pelo menos a maioria deles. Agora, boa parte das pessoas passaram a colocar no cartão de crédito também as contas recorrentes, como alimentação, combustíveis e medicamentos. A situação ainda se agrava, pois muitos desses consumidores realizam o parcelamento destes produtos, mas a prática não é bem vista por economistas.

Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que, no mês de agosto, cerca de 11,89 milhões de famílias estão com alguma dívida em aberto. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) aponta que, desse total, 83% se concentram no cartão de crédito.

O levantamento aponta que isso acontece pois, nos lares de baixa renda, o crédito tem sido utilizado para garantir insumos básicos, como a comida. Com a alta inflação sobre itens essenciais na cesta de consumo das pessoas de menor renda, as famílias acabam tirando espaço do orçamento e se endividando mais para consumir itens de primeira necessidade, como alimentos. “O dinheiro não está chegando ao fim do mês e as pessoas estão usando o cartão de crédito para fazer essa cobertura”, explica Izis Ferreira, pesquisadora responsável pelo levantamento da CNC.

O levantamento da CNC aponta que os principais fatores para a alta manutenção do endividamento das famílias são a expansão do acesso ao crédito, o alto índice de desemprego e a inflação elevada. José Roberto Tadros, presidente da CNC, destaca que as dívidas de trabalhadores informais são de pessoas que recorrem ao crédito para investir em pequenos negócios. “Mas há uma necessidade grande de planejamento do orçamento familiar para que esse alívio não vire um problema ainda maior do que o que se tinha inicialmente, uma bola de neve”, alerta.

Os dados apontam que 19,2% dos consumidores tiveram acesso ao crédito no primeiro semestre de 2021. O percentual é o maior desde 2013. O levantamento também mostrou que o crédito mais acessível, com juros mais baixos, contribuiu para o aumento gradual do endividamento. Outro fator que veio em sequência foi a alta na inflação. Os dados demonstram que, desde novembro, quando estava em 66%, o endividamento teve elevações consecutivas.

Combustível

A social media Nathália Fernandes é uma das pessoas que adotou a prática de dividir produtos básicos. Ela conta que, na última semana, colocou R$ 200 de combustível e dividiu o valor em seis vezes. “Estamos vendo se vale a pena. Parcelamos a gasolina em 6x. Como o valor está muito alto, as parcelas menores não pesam tanto no fim do mês”, conta.

De acordo com ela, a alimentação também passou a ser dividida no cartão de crédito por causa dos preços da comida. “Tanto alimentação, quanto gasolina a gente tem tentado parcelar. Pois uma simples compra, itens básicos, têm saído por mais de R$ 200 no mercado. Então, temos parcelado para entrar no orçamento e conseguirmos fechar o mês.”

Nathália afirma que não tinha esse costume antes da pandemia, mas pelo fato de sofrer uma redução de salário e pelos altos preços dos produtos, que tiveram sucessivos aumentos. “Não dividíamos nem a gasolina, nem a alimentação. Mas como os preços eram muito altos foi uma solução que encontramos para não fechar o mesmo no vermelho”, reforça.

Segundo ela, o parcelamento está compensando, já que as parcelas não ficam tão pesadas e que cabem no orçamento.

Remédios

Diabética, a aposentada Marly dos Santos também sofre para fechar o orçamento no azul. Para isso, ela afirma que passou a parcelar no cartão de crédito os nove tipos de remédios que têm que tomar para o seu tratamento.

“Eu recebo um salário mínimo e só vi essa solução para conseguir terminar de pagar as outras contas. Eu sei que não é a melhor saída, mas é o que posso fazer no momento. Além de remédio, preciso fazer exames, comer e ainda pagar a moça que me ajuda, pois sou deficiente visual”, pontua a mulher, que também é hipertensa e faz hemodiálise.

Ela conta que já chegou a ter meses que não conseguiu arcar com todas as suas obrigações. “É triste. Ver as coisas faltarem e não poder fazer nada. Isso machuca muito. Eu já fiquei um mês sem fazer os meus exames porque não tinha dinheiro para eles. Acabei tendo que usar o meu cartão e parcelar, para poder conseguir pagar”, afirma.

Medida não compensa

De acordo com o economista Benito Salomão, o parcelamento de despesas recorrentes é um erro, pois há um alto risco de endividamento. “Despesa corrente como alimentação ou combustíveis, você acaba tendo todo mês e aí se você faz no cartão de crédito neste mês, você tem que pagar o cartão e continuar comprando. Então corre-se o risco de virar uma bola de neve. É uma coisa extremamente complicada. Se as famílias puderem evitar é melhor”, destaca.

Benito destaca que é até complicado dar uma dica para os trabalhadores. “As pessoas entram nos supermercados e se sentem assaltadas. O que eu posso dizer é que as pessoas devem procurar promoções, atacarejos e até mesmo verificar na internet. Mas infelizmente não há muito o que fazer. Cerca de 70% dos preços são reajustados para cima. Com isso, o trabalhador está perdendo sua renda de forma muito aguda e muito contundente”, afirma.

Busca do consumidor por crédito cresce 14,3%

Segundo o Indicador de Demanda do Consumidor por Crédito da Serasa Experian, a procura por recursos pelos brasileiros teve um aumento de 14,3% em julho, com relação ao mês anterior. A alta foi puxada pelo Nordeste, cujo crescimento no período foi de 17,8%. Norte e Sul também se destacam.

Para o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, dois fatores explicam a expansão da busca por crédito. “Por um lado, o avanço da vacinação em massa, impulsionando os níveis de confiança do consumidor, torna-o mais propenso a demandar crédito, principalmente aquelas linhas relacionadas com consumo (veículos, bens duráveis) e com formação de patrimônio (imóveis). Por outro lado, o repique da inflação nestes últimos meses tende a fazer com que os consumidores, especialmente os de renda mais baixa (que são mais afetados pela inflação), busquem crédito naquelas linhas que são mais utilizadas para cobrir buracos em seus orçamentos domésticos, como por exemplo o crédito consignado e os empréstimos pessoais”.

A análise por renda mostra que aqueles com ganhos mensais de até R$ 500 tiveram aumento acima da média total, de 16,4%, consideração o comparativo entre junho e julho deste ano. Na sequência aparecem os que ganham de R$ 500 a R$ 1.000.

Variação anual

Os dados de julho/21, com relação ao mesmo mês do ano anterior, revelam uma alta de 22,3%. O índice foi puxado pelo Nordeste, com alta de 32,5% no período. Os brasileiros com ganhos mensais de até R$ 500 ficaram acima da média total (31,8%), assim como os que ganham de R$ 500 a R$ 1.000 (22,9%).

Além disso, recentemente, a Serasa mostrou que a procura de crédito por empresas cresceu 12,7% em julho se comparado com o mês anterior. O levantamento mostra que as grandes empresas foram as que mais recorreram para ajudar, representando 24,9% – apontado como percentual recorde desde o início do levantamento em 2007. (Especial para O Hoje)

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