Entenda como as ações humanas estão agravando seca na bacia do Rio Araguaia

Alguns pontos da bacia estão completamente na terra fofa e poeira

Postado em: 29-09-2021 às 07h54
Por: Daniell Alves
Alguns pontos da bacia estão completamente na terra fofa e poeira | Foto: Fernando Alves

A falta de conscientização por parte das pessoas agravou a seca do Rio Araguaia, aponta o titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema), Luziano de Carvalho. Duas afluentes do rio estão completamente secas em alguns pontos. O rio do Peixe e o rio Javaés estão com leito interrompido por conta da degradação que levou a seca.

Atualmente, é possível atravessá-los a pé, com água abaixo da canela, a terra tomou conta de grandes espaços, onde antes percorria a água. Os vídeos foram gravados por moradores locais e enviadas à Delegacia. Na região de Nova Crixás (GO), na semana passada, um canal do Araguaia estava em terra fofa.

Locais que, anteriormente, eram cheios de água e repletos de peixes estão na terra e na poeira. A população chega a passar de carro por um dos canais do Araguaia, onde, até há pouco tempo, corria o leito do rio e só era possível sair de canoa ou barco.

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Vídeos de uma moradora de Aruanã, no Oeste de Goiás, mostram o Rio do Peixe, que é afluente do Rio Araguaia, muito seco. É possível ver vários barrancos de areia e a água batendo apenas nos calcanhares da mulher. Ela atravessa o leito de uma ponta a outra a pé. “O Rio do Peixe está caminhando para isso há muito tempo. Há 27 anos já falava que o Araguaia iria secar e o pessoal está se assustando só agora”, alertou Luziano.

Agravamento

Contudo, este cenário não se resume à questão climática e à seca, mas principalmente à ação humana na bacia do Araguaia, que vem agravando o problema.  Segundo o delegado, a atuação de proprietários rurais na expansão de áreas de pastagens e de lavoura, em detrimento de proteção às nascentes, lagos naturais e reservatórios de água, é o que está causando o desequilíbrio do lençol freático de um dos rios mais famosos do Centro-Oeste.

“Eu tenho imagem de fazendeiros que têm 20 mil bois na fazenda e que pega uma lagoa, uma represa ou um rio e faz um desvio para a fazenda dele para dar água para o gado. O que acontece? A água se perde no meio do pasto e não volta mais”, conta Luziano.

O uso de drenos para converter áreas brejosas, que funcionam como reservatórios naturais de água, em pasto é o principal problema da região do Araguaia, na visão do delegado.

Preservação

Ele alerta para o desmatamento em áreas de nascentes, locais que devem ser preservados. Imagens feitas por drones mostram como a vegetação nativa foi retirada totalmente do entorno de lagoas naturais, em algumas propriedades no Vale do Araguaia. Em alguns casos há gado passando em cima do local que começou a servir de pasto.

Luziano de Carvalho ressalta que desenvolveu projetos de recuperação das nascentes e contenção de voçorocas ao longo do rio, mas o Araguaia atingiu um desequilíbrio muito grande e existe uma demanda e ação depredatória do que o rio pode oferecer.

A maior preocupação é como estará o rio que é e onde atrai milhares de turistas do Brasil, durante a alta temporada que será no próximo ano, o cenário é inevitável e que não se mostra positivo.

Divisa natural

O Araguaia nasce perto da Parque Nacional das Emas, no município de Mineiros (GO), e deságua no Rio Tocantins, formando uma grande rede hidrográfica que une a Região Centro-Oeste ao Norte do Brasil. Esse rio faz a divisa natural entre os Estados de Mato Grosso e Goiás, depois entre Mato Grosso e Tocantins e finalmente entre Pará e Tocantins. Possui uma extensão de mais de 2 mil km e é considerado um dos rios mais piscosos do mundo.

O rio é navegável em grande parte de seu curso (em 1.818 Km), com profundidade mínima de 0,8 m. O leito do rio é arenoso e em constante mudança. Os acidentes geológicos são de pequeno porte, mas frequentes. Quando as águas baixam, aparecem boa quantidade de travessões e rápidos. Abaixo da cidade de Luis Alves, o Araguaia se separa e forma a maior ilha fluvial do mundo, a Ilha do Bananal ou de Camonaré, com 20 mil quilômetros quadrados, que abriga reserva indígena. (Especial para O Hoje)

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