Iris Rezende: o homem que construiu mil casas em um domingo

Moradores da Vila Mutirão se emocionam ao lembrar do que em que Iris Rezende, recém eleito governador de Goiás, decidiu erguer, no meio do pasto, mil moradias ao povo pobre da capital

Postado em: 10-11-2021 às 08h27
Por: Redação
Moradores da Vila Mutirão se emocionam ao lembrar do que em que Iris Rezende, recém eleito governador de Goiás, decidiu erguer, no meio do pasto, mil moradias ao povo pobre da capital | Foto: Reprodução

Por Alzenar Abreu e Yago Sales

Quando o som da sirene do Corpo de Bombeiros se aproximou do Palácio das Esmeraldas carregando o corpo de Iris Rezende Machado, de 87 anos, o encarregado da obra do Consórcio BRT, José Alves das Neves, de 60, pediu para desligar o maquinário. 

José se emocionou ao falar do dia em que pediu emprego ao Iris e nunca mais deixou o setor público. “Eu moro na Vila Mutirão, onde Iris construiu mil casas. Ele era o político do povo”, diz. 

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Nas ruas próximas da Praça Cívica, centenas de eleitores e admiradores de Iris se emocionaram à espera da liberação da fila que os levaria à despedida do homem que permaneceu mais de 60 anos na vida pública. Ele foi vereador, prefeito de Goiânia por quatro mandatos, senador, governador e ministro da Agricultura e Justiça. 

Por duas horas e meia, políticos, empresários e ex-auxiliares quando ele foi prefeito e governador, ouviram, atentos, à fala emocionada de dona Iris. Ao contrário da filha, Ana Paula, que usou uma tribuna para falar do pai, dona Iris se posicionou ao lado do caixão. “Eu estou te vendo ir embora”, lamentava-se ela, olhando para o marido com quem foi casada por 57 anos.

Acompanhada pela imprensa, uma celebração foi feita por Dom Washington Cruz e pelo Pastor Marcos, que prega em uma igreja de Campinas, que era frequentada pelo político. “Iris sempre passava a virada de ano em nossa congressão”, contou o pastor. 

Enquanto cânticos tentavam aliviar a dor de familiares, que choravam e se abraçavam, uma multidão se organizava em uma fila que passava pela sala Dona Gercina. 

Emocionados com a cobertura da morte do político pela televisão, o casal Maria Lúcia da Silva, de 57 anos, e Domingos Furtado de Oliveira, de 59, mostram a casa que moram desde o dia 20 de outubro de 1983, na Vila Mutirão. A residência é uma das mil unidades construídas, em apenas um dia, quando Iris acabara de assumir o governo de Goiás. O governador, à época, pegou a enxada e carpiu e demarcou lotes. Tudo isso em um domingo calorento que levou Goiás às manchetes nacionais. Como poderia, num período de crise financeira, um político conseguir dar mil casas ao seu povo? De qualquer forma, a construção coletiva ganhou reconhecimento e entrou para o livro dos recordes.

A audácia do político que andava pelas ruas de Goiânia com constante inconformismo e vontade de fazer mais conquistou a todos que, mesmo que apenas nas ruas, conheceram a jovialidade e necessidade de sempre construir uma trajetória que influenciasse a vida do povo goiano. 

“Era cuidado com as pessoas”, diz Maria. Merendeira de uma escola no bairro que, evidentemente, se tornou o maior reduto eleitoral de Iris, ela se emociona. “Iris nos deu um lugar para viver.” O marido dela complementa: “Além de doar as casas, Iris mandou um caminhão ir lá na invasão que a gente morava e buscar nossas coisinhas”, lembra. 

O irmão de Maria, o feirante João Batista Silva Filho, que mora em frente à casa dela, chora. Ao falar de Iris, ele lembra imediatamente da mãe, que morreu há alguns anos e tinha em Iris a própria esperança. “Minha mãe dizia que Iris era sempre a forma que o povo encontrava para mudar de vida”, declara ele. 

A menos de um quilômetro dali, a Padaria do Povo, uma das primeiras panificadoras da região, guardava nos fundos um enorme quadro com imagens históricas. Fotos aéreas da chegada de milhares de toneladas de concreto que ergueram as mil residências naquele domingo. Proprietário do estabelecimento, Cláudio Santos Costa, de 46 anos, resume bem a popularidade do político que mais visitava o bairro. “Aqui, Iris era o nosso político favorito. Não sabemos se outro vai voltar tanto quanto ele por aqui”, afirma, limpando o quadro. “Com a morte de Iris, vou procurar uma forma de restaurar. É uma grande lembrança”, diz ele.

Homem dos mutirões deixa legado do ‘político que andava com o povo’

Apesar de não abarcar todos os que queriam dar o último adeus ao ex-governador, senador, ministro e prefeito de Goiânia, Iris Rezende, o Palácio das Esmeraldas, ontem (9) recebeu e velou o corpo de um dos maiores líderes políticos da história de Goiás.

Tido como ex-assessores e pessoas simples entrevistadas pelo O Hoje, Iris era um político que “conversava olhando nos olhos” de quem fosse. Sendo rico ou pobre. E, aliás, poderia contar a história mais sem graça do mundo”, ele parava e dava atenção”, lembrou o ex-assessor dele, por mais de 15 anos, o carioca Vilmar Batista. Ele foi diretor de várias autarquias do governo do ex-prefeito. 

Até o Palhaço Preguinho, Aluibartone  Machado, 58, foi prestigiar a despedida do amigo. “Eu trabalhei por cinco anos no Mutirama. Animando a meninada. Hoje, sem levar o riso, choro a falta de um amigo que me tratava como celebridade. Quantas vezes eu chegava e beliscava o rosto dele, gente! imagina! E dizia: ‘- Esse é meu menino’. E ele ria. Achava bom”.

Aluibartone portava bandeira de Iris da última campanha e carregava, com orgulho, nas mãos, várias fotos que tirou com ele. 

Para Roseli Silveira, que acompanhou a trajetória do ex-prefeito desde os dois anos de idade, Íris era ídolo do povo. O líder dos mutirões lembra um momento memorável com o político goiano em 1966. “Desde às 6h da manhã ele roçando o dia todo, junto com a população no bairro para construir casas no setor Sudoeste. “Ele almoçava e jantava na minha casa”.

Para a amiga da família e assessora de Dona Iris, Fabiana Machado, Iriz Rezende era alguém que gostava de pessoas. “Eu aprendi muito com ele.Tudo o que sei sobre política. Que é estar no meio da população”, diz.

Momentos

“Eram 2h30 da manhã. Depois de um temporal. O Iris me ligou porque estava preocupado. Precisava ver o que tinha acontecido com a cidade. Saí com ele para fazer uma ronda e visitarmos os pontos de maior estragro”, diz Denes Pereira, atual presidente da Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego). Denes trabalhou diretamente com Iris, por vários anos, à frente da Comurg. 

Para o prefeito de Catalão, Adib Elias, do Podemos, disse que Goiás perdeu o maior líder político de sua história. “Ele que escreveu essa história para o Brasil”.

Adversário Cordial

Para o Deputado Estadual pelo MDB, Humberto Aidar, Iris deixou um histórico de grande popularidade, de edificação política que pontuaram, para sempre, a história em Goiás e no Brasil. “Chegamos a ser adversários políticos. Mas ele sempre me tratava com decoro. Depois que filiei-me ao MDB ele ficou feliz comigo. Ele respeitava os adversário”, diz.“Ele tinha história de homem de trabalho, de energia. Que saiu da roça para ser um dos ícones da política de Goiás”, completou.

Marlúcio Pereira, ex-deputado estadual pelo PRB, contou um momento memorável quando Iris contou para ele que, ainda vereador, teve a missão de entregar uma placa de homenagem ao presidente que tomaria posse, Juscelino Kubitschek. “Ele não sabia que precisava de credenciamento. Fretou um ônibus e levou vários vereadores. E, ao chegar lá, foram todos barrados. Ele achou um jornalista de Goiás e gritou o nome dele. Não pensou duas vezes, pediu ajuda e entregou a homenagem. Ele sempre foi de se reinventar”, conta. 

Para o primo Oswaldo de Souza, que não conseguiu entrar no velório, devido ao protocolo sanitário, diz que só resta, agora,  recordar. “O primo cheio de vigor que não tinha cerimônia e abraçava a todos da família e era amigo do povo”disse.

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