Em meio a alagamentos, Paço engaveta projeto de jardins para conter águas da chuva

Gestão passada planejou a criação de 350 jardins de chuva e a Seinfra não soube informa quantos deles foram implantados

Postado em: 17-11-2021 às 08h22
Por: Nielton Soares
Gestão passada planejou a criação de 350 jardins de chuva e a Seinfra não soube informa quantos deles foram implantados | Foto: Reprodução

Todos os anos, por cerca de três meses, Goiânia sofre com o grande volume de água que cai do céu em um curto período de tempo. Os transtornos são alagamentos, deslizamentos, bueiros entupidos entre outros. Um dos projetos para amenizar esses problemas parece que foi esquecido ou abandonado pela prefeitura. Os jardins de chuva, iniciativa que transformaria rotatórias em ilhas para a captação das águas fluviais, não teve continuidade desde sua criação, em 2019. Na época foi prometido a instalação de 350 jardins, mas nem a prefeitura sabe ao certo quantos foram realmente implementados e não planeja dar sequência na ação.

Aprovado pela Câmara Municipal de Goiânia, o projeto previa a criação de 350 jardins de chuva por toda a cidade. Porém, até o momento, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) não soube estimar ao certo quantos desses jardins foram instalados e funcionam na Capital. A pasta se limitou a destacar que “são mais de 15” e que a prefeitura está “estudando novas alternativas” em um grande programa de retenção de água previsto para 2022.

A assessoria de imprensa da Seinfra foi indagada em relação ao que seria esse ‘grande programa de retenção de água’, mas reforçou que ‘está sendo elaborado’. Por outro lado, enquanto o Paço parece que abandonou a iniciativa e não implanta outras alternativas, a cidade sofre durante o período chuvoso. Os pontos críticos passíveis de alagamentos triplicaram desde 2018, conforme mostrou reportagem do O Hoje, no último dia 11.

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Em apenas três anos, o número passou de 57 locais para 176 lugares suscetíveis a alagamentos. Dentre os quais, as ruas no Jardim Presidente, Setor Faiçaville e Jardim Europa. Esses mesmos locais integravam o programa de implantação de jardins de chuva. Apesar de poucos, foram contemplados mais setores nobres, como Setor Universitário e Setor Sudoeste.

Na época, o então titular da Seinfra, Dolzonan da Cunha Mattos, chegou a afirmar que defendia a permeabilização do solo, entendendo que a situação de impermeabilidade causava muitos transtornos para a população. Ele citou que os jardins de chuva estavam sendo criados em muitas cidades brasileiras, como Joinville (SC) e Paulínia (SP).

Poços de infiltração

A ideia em Goiânia era a abertura de valas, que funcionavam como poços de infiltração de água, no sentido transversal. No entanto, sem perder a característica de praça, contendo árvores e grama. Assim foi feito na 11ª Avenida, no Setor Universitário, em uma área de aproximadamente 415 metros quadrados, no cruzamento com a 1ª Avenida e cerca de 452 metros quadrados nos demais cruzamentos. O intuito foi evitar que a água desaguase diretamente no Córrego Botafogo. Já o serviço de jardinagem e manutenção dos jardins de chuva ficaram sob responsabilidade da Companhia de Urbanização do Município de Goiânia (Comurg). A empresa foi procurada sobre o assunto e respondeu que a Seinfra é quem deveria implantar mais jardins pela cidade.

Suspensos, os jardins de chuva fazem parte do conceito de infraestrutura verde, como cita a urbanista Adriana Bernardi. A importância deles é no sentido da infiltração natural da água no solo, funcionando como um local de recargar dos lençóis freáticos. Além do papel de absorver do solo, há a questão, observada por ela, da filtração da água, que contém produtos químicos, por exemplo.  “A lavagem das calçadas leva muita sujeira (para os rios), aumentando a toxidade da água. Essa água de uma forma ou de outra vai acabar servido para nosso consumo”, alertou.   

Infraestrutura

Para se ter ideia, na cidade de São Paulo, a Subprefeitura Sé construiu mais de 20 mil metros de jardins de chuva. Eles foram distribuídos entre os distritos da Sé, República, Santa Cecília, Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação e Liberdade. De acordo com a administração local, os jardins vêm cumprindo a função de ampliar a permeabilidade urbana, minimizando os efeitos do escoamento superficial e retendo a água. Além disso, contribuem para a minimização dos efeitos de enchentes e alagamentos.

No contexto geral, os jardins são incluídos no conceito de sustentabilidade. Lá, as obras utilizam reciclagem do concreto removido da rua para a criação do próprio jardim. O arquiteto e paisagista André Graziano esclarece que o asfalto e o concreto da área do jardim são removidos, uma área é escavada com cerca de 1,20 m de profundidade; e preenchida com entulho reciclado sobre o material poroso é recolocada a terra, com composto orgânico produzido pelo pátio de compostagem da cidade; e as mudas, como árvores, palmeiras, arbustos e forrações, predominantemente nativas.

Nos locais, são plantadas várias espécies de árvores e plantas, incluindo as que produzem flores e frutas, que atraem muitos animais. O biólogo Rodrigo Silva frisa que a água da chuva que desce ao longo do jardim empoça e corre por estes pequenos espaços atraindo sapos, rãs e pererecas.

Nos jardins de São Paulo, a prefeitura destacou que já foram plantadas vedélias, grama-amendoim, agapantos brancos e azuis, grama-esmeralda, capim-do-texas verde e rubro, cordylines, ruélias roxas, biris vermelhos e amarelos, pau d’água; e variadas espécies arbóreas nativas como: de ipês roxo, branco e amarelo-do-brejo, mirindibas, dedaleiras, alecrim-de-campinas, jerivás, araçás amarelos e roxos, coração-de-negro, sangra d’agua e paineiras.

Conceito de ‘planta chuva’ é usado em todo o mundo

A ideia foi do africano Zephaniah Phiri Maseko, natural de Zimbábue. Por morar em uma região de clima semiárido, a iniciativa dele foi de buscar alternativas para segurar a água da chuva e facilitar a infiltração no solo ou criando alternativas para que a chuva não se concentrasse em poças e causasse erosões na região.

Maseko começou a trabalhar no projeto em 1966, ‘plantando água’ para sobreviver. Porém, as técnicas utilizadas para reter as escassas chuvas e elevar o lençol freático foram sendo utilizadas pelos engenheiros nos jardins de chuva. A cidade estadunidense de Tucson, localizada no deserto do Arizona, passou a adaptar as técnicas para o ambiente urbano, o que reduziu a quantidade de inundações nos períodos de chuva.

Como a Prefeitura de Goiânia abandonou o projeto, há alternativas de se criar o jardim de chuva em casa. Nesse sentido, a própria população pode contribuir criando sumidouros de águas fluviais. A urbanista Adriana Mikulaschek reforça que é um erro jogar toda a água que cai no telhado na sarjeta. “Essa rua não consegue absorver tudo isso e gera alagamentos pela quantidade e velocidade. Essa água ainda vai chegar contaminada e vai destruir tudo que encontra”, salienta.

No entanto, o desafio é fazer com que a chuva se infiltre no local que ela cai. “Isso é complicado, mas o uso de infraestruturas verdes é um instrumento bastante eficaz para que isso aconteça. São infraestruturas aliadas à natureza”, comenta. A especialista diz ser necessário um amplo projeto integrado, como represas de contenção, lagoas de contenção, ao invés da chuva ir para a boca de lobo. Mikulaschek acrescenta que embora haja um Plano Diretor e leis determinando a criação de áreas verdes, não é isso o que vem ocorrendo em Goiânia. “Seria necessário ter pelo menos 15% de área permeável dentro de cada lote”, frisa. (Especial para O Hoje)

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