Especialista alerta sobre o respeito a saúde mental no ambiente de trabalho e o adoecimento laboral

Postado em: 09-12-2021 às 08h20
Por: Nielton Soares
Lucélia Pereira (1º da esq. para dir.) diz que trabalha feliz porque possui uma rotina organizada e acolhimento de gestores. “Temos um excelente clima de trabalho”, diz | Foto: Jota Eurípedes

Em tempos de incertezas com alta do desemprego, ter um trabalho é essencial para a sobrevivência. Além disso, a atividade é importante para a manutenção da autoestima e da saúde mental. Porém, quando essa rotina se torna uma fonte de ansiedade, desmotivação e outros distúrbios é preciso agir. Mas o que as empresas podem fazer para lidar com a situação e mitigar e proporcionar um ambiente mais saudável para os funcionários?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 18 milhões de brasileiros sofram com algum distúrbio relacionado à ansiedade. Esse número coloca o Brasil na liderança dos países, onde as pessoas estão mais ansiosas.

Outro dado é sobre o estresse. Que de acordo com o levantamento da Vittude (plataforma digital voltada para o cuidado com a saúde mental) indica que 37% das pessoas passam por problemas como estresse severo; 59% sofrem com a depressão e 63% têm sintomas de ansiedade.

A psicóloga entrevistada pela reportagem de O Hoje, Ana Carolina Peuker, cita que há fatores psicossociais do trabalho que podem constituir riscos para o adoecimento mental. Dentre os quais, apontados por ela, estão abuso moral por parte da chefia, pressão por prazos incisivos ou falta de colaboração entre os colegas. “Esses fatores que afetam a qualidade de vida e bem-estar do trabalhador vão repercutir na produtividade, vão determinar maiores afastamentos por motivos de doenças. Então para que um negócio seja sustentável, ele depende muito da atenção que é dada a tudo isso,” pontua.

Para tanto, a especialista ensina que é necessário a prevenção, evitando as cobranças excessivas, desorganização no ambiente empresarial e falta de benefícios. Além disso, há também o fator demissão, que causa medo nos funcionários. Isso tudo, estão entre os principais motivos que podem contribuir para a deterioração da saúde mental dos funcionários. “Então, contribuir para um ambiente saudável, é colaborar para que as pessoas se sintam mais felizes e realizadas também”, salienta. Além desses aspectos subjetivos, Peuker cita os fatores psicossociais que vão desde a interação entre o lugar que as pessoas executam suas tarefas até a relação delas com os colegas e com a chefia. 

Adoecimento

Acerca do adoecimento laboral, a psicóloga descreve que quadros sutis, como da apatia, podem revelar uma vulnerabilidade a um transtorno de humor e até depressão. “Não necessariamente vai se culminar numa depressão, mas é algo que precisa ser observado, de alguma maneira as emoções nos guiam em relação ao nosso comportamento. Assim, tais sentimentos podem ser considerados sinalizadores importantes. Por isso é tão importante a educação emocional”, aconselha.

Segundo Peuker, como as emoções são sutis, fica mais difícil de diagnosticar por um olhar desatento. Assim, a doença pode manifestar-se em diferentes graus de intensidade e os sintomas ou serem confundidas com outras patologias psicológicas. 

Nesse sentido, uma simples desmotivação pode estar ligada a fatores externos, tais como um local inadequado de trabalho, demandas abusivas, falta de uma política de benefícios empresarial e outros. A desmotivação pode provocar estresse e tristeza. Porém a depressão vai mais além disso. Uma pessoa deprimida pode ter mudanças bruscas de humor, dificuldade de se concentrar, sentimento de culpa, alterações no apetite, crises de choro, dentre outros sintomas.

Ainda sobre a apatia, ela relaciona a emoção de como está o ritmo de trabalho, se falta reconhecimento profissional, se a pessoa não tem autonomia no trabalho que desempenha, não tem uma relação com todos, não tem apoio dos superiores ou mesmo se enfrenta algum problema pessoal. 

Ela destaca que os fatores psicossociais do trabalho podem colocar os colaboradores em risco, mas também, causar prejuízos para as empresas, “Sem as pessoas não se têm negócios de sucesso. Então, quando a saúde mental está sob ameaça, a saúde física desse colaborador também está. Porque não há essa dissociação entre saúde mental e saúde emocional. O ser humano é um ser integrado. Por isso, é muito importante termos políticas de gestão que possam definir uma série de processos para evitar problemas emocionais”, aconselha.

Investimento no bem-estar

Ter a vida doce no trabalho é a história da gerente de produção de uma loja de bolos caseiros, próximo ao Goiânia Shopping. Lucélia Pereira da Silva diz que atua num clima de paz e se sente muito feliz no trabalho. “ Temos muita união aqui entre os funcionários. Acredito que a organização dos processos, a metodologia que adotamos nos trazem segurança. Porque sabemos o que cada um tem de executar. E aqui é tudo organizado. Sem falar do respeito que temos pela proprietária Roberta Santesso. Ela nos trará como se fôssemos da família. Quando ela percebe que alguém está triste, ela conversa e divide bem as tarefas para que não tenhamos sobrecarga. Isso nos traz tranquilidade para levar ao nosso consumidor um produto saboroso feito com todo carinho “, conta.

Mesmo ao oferecer mais de 100 tipos de bolo ela diz que todos produzem com alegria e sem desespero. “Por isso ficamos motivados”, explica.

Outra empresa do segmento de consórcio de imóveis e veículos, com uma unidade em Goiânia, tem adotado o conceito de ambiente saudável para os funcionários. Até o departamento de pessoal recebeu um nome diferente de Recursos Humanos (HR) para Pessoas e Resultados (PR), sob gestão da diretora Brenda Donato. 

Na empresa a preocupação é com o bem-estar. Que passou a ser um dos pilares da gestão de pessoas. “Não criamos programas de qualidade de vida como um modismo, mas por meio de programas que de fato possam contribuir com a saúde emocional e física dos nossos colaboradores e a empresa assumindo de fato o seu papel. Ou seja, o seu um terço de responsabilidade na saúde dos seus colaboradores”, salienta.

No intuito de mitigar a situação atual da pandemia da Covid-19, a diretora destaca que a empresa tem adotado diversas ações. Dentre as quais, estão implantando, reimplantando e buscando aprender com os próprios funcionários “os melhores caminhos” para ser seguindo. “Estamos em um momento de reconstrução. E o melhor caminho para aprender é ouvir e incluir as pessoas no centro de qualquer decisão para que, de fato, possamos construir caminhos para as pessoas”, revela.

No ramo de serviços bancários, uma cooperativa de crédito na Capital tem buscado o equilíbrio e o resultado das metas. A especialista de Desenvolvimento de Pessoas, Larissa Rodrigues Vieira Araujo, destaca que a companhia é bem avaliada pelos funcionários, ao se diferenciar no mercado por oferecer benefícios atrativos e prezar pela qualidade de vida de cada pessoa. “Nossa empresa promove um ambiente de pertencimento, integração, onde os colaboradores participam ativamente de todas nossas ações, o que gera maior aceitação, respeito e valorização das pessoas”, compartilha.

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