Desmatamento do Cerrado pode deixar de ser monitorado por falta de verba

O Inpe vai desmontar a equipe de cientistas que monitora o Cerrado. Os dados vão estar disponíveis só até abril

Postado em: 17-01-2022 às 08h21
Por: Redação
O Inpe vai desmontar a equipe de cientistas que monitora o Cerrado. Os dados vão estar disponíveis só até abril | Foto: Reprodução

Por Ítallo Antkiewicz

O Cerrado, e a savana com a maior biodiversidade do planeta, pode virar um alvo fácil para desmatadores, que estarão livres para avançar sobre a fauna da região com o fim do monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A verba destinada ao órgão para manter o programa de vigilância da região está chegando ao fim, e o serviço pode ser interrompido no próximo mês.

Desde o ano passado, organizações ambientais como o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), o Instituto Cerrados e entidades que integram a Rede Cerrado alertam para o apagão de dados que pode atingir a área ambiental caso os recursos não sejam repostos. As informações colhidas pelo Inpe servem para nortear ações ambientais contra a degradação da natureza, apontam em que regiões o desmatamento está avançando de maneira mais acentuada e subsidiam operações de órgãos como o Ibama e a Polícia Federal.

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O risco de que o monitoramento seja encerrado coincide com o avanço de desmatadores sobre uma região fundamental para abastecer bacias hidrográficas e rios que correm por todo o país, irrigam áreas de produção de alimentos, de produção energética e umedecem a atmosfera, prevenindo grandes períodos de seca.

Em um pedido de acesso à informação, realizado no ano passado pelo ISPN, o Inpe afirmou que os recursos utilizados para garantir o monitoramento do Cerrado só eram suficientes até janeiro deste ano. O Cerrado, assim como a Amazônia, é vigiado pelos sistemas Prodes e Deter, que utilizam satélites e têm dados compilados por computadores com elevado poder de processamento para colher e sintetizar os dados.

“O Programa de Monitoramento da Amazônia e demais biomas recebe recursos orçamentários através da ação 20V9.PO0001. Entretanto, os recursos para alocados cobrem somente as ações de monitoramento da Amazônia Legal brasileira. Para os demais biomas brasileiros o Inpe vem contando com recursos extra orçamentários. No caso do bioma Cerrado, os sistemas Prodes e Deter são financiados com recursos do Forest Investment Program (FIP), em um contrato de doação firmado entre o Banco Mundial e o MCTI. O referido contrato foi finalizado em dezembro de 2021”, informou o órgão.

Fontes extras

Outras fontes extra orçamentárias estão sendo exploradas para o financiamento das atividades do Prodes/Deter Cerrado, mas ainda não garantiram o aporte, ou seja, há possibilidade de o monitoramento do bioma Cerrado ser interrompido após janeiro de 2022.

Fabio Vaz, coordenador-geral do ISPN, afirma que o Cerrado tem papel fundamental para combater as mudanças climáticas e evitar grandes períodos de seca nos estados brasileiros. 

“O Cerrado tem uma riqueza imensurável pela quantidade de espécies exclusivas de fauna e flora, por seus valores medicinais, por abrigar grandes reservatórios que abastecem com água e energia diversos estados brasileiros, pela sua diversidade de populações tradicionais, sobretudo”, afirma. “É uma peça-chave para a mitigação das mudanças climáticas que acometem o planeta. Interromper o Prodes é tentar mascarar um problema de ordem internacional tanto pela questão climática quanto pelos fluxos de exportação”, complementou.

Sem verbas

Por falta de verba, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais vai desmontar a equipe de cientistas que monitora o desmatamento do Cerrado. Os dados vão estar disponíveis só até abril. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais também faz um detalhamento anual do desmatamento, chamado de Prodes.

Para entidades que atuam no setor ambiental, cerca de R$ 2,5 milhões por ano é um valor baixo perto dos benefícios para o País. “Isso é menos que o presidente Bolsonaro gastou nas suas férias no ano passado. Esse dinheiro, inclusive, poderia ser retirado de várias ações que o próprio Ministério do Meio Ambiente não realizou esse ano. Tem dinheiro sobrando no Ministério. Nada justifica paralisar o monitoramento do Cerrado. A gente precisava ter mais monitoramento, para saber onde esse crime ambiental está ocorrendo, para instruir, inclusive, as equipes de fiscalização para que elas tenham estratégias de combater esses ilícitos”, afirma Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

O ex-diretor do Inpe, Gilberto Câmara, diz que seria possível receber recursos de outras fontes no Brasil e no exterior. “Existem outros fundos que estão dispostos a manter o monitoramento do Cerrado. São valores baixíssimos e poderiam ter benefícios substanciais para nós conseguirmos entender o que está acontecendo com o nosso meio ambiente”, afirma.

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