Pandemia acelera analfabetismo e 66% das crianças não sabe ler e escrever em todo o país

Desigualdade de aprendizagem também cresceu e crianças negras foram as mais atingidas

Postado em: 10-02-2022 às 09h52
Por: Redação
Desigualdade de aprendizagem também cresceu e crianças negras foram as mais atingidas | Foto: Reprodução

Por Ítallo Antkiewicz

Os primeiros anos da pandemia rebaixaram os índices de aprendizagens das crianças e adolescentes em todo o país. Segundo levantamento realizado pelo Todos pela Educação, entre 2019 e 2021, houve um aumento de 66,3% do número de crianças de 6 e 7 anos que não sabem ler nem escrever. Os dados apontam ainda que o número subiu de 1,4 milhão de crianças nessa situação em 2019 para 2,4 milhões em 2021.

Outro aspecto do levantamento é quanto a alfabetização, que subiu de 25,1% no ano anterior a pandemia, para 40,8% em 2021. Em 2020 e 2021, houve um aumento expressivo na taxa, que alcançou os maiores valores em dez anos de acompanhamento do indicador. “Os dados reforçam o impacto da pandemia na educação, com o aumento do número de alunos fora da escola por abandono ou evasão, queda na aprendizagem e aumento das desigualdades no recorte raça e cor e condições econômicas”, afirma a professora Ivana Ribeiro.

Continua após a publicidade

A nota técnica “Impactos da pandemia na alfabetização de crianças” apresentou indicadores que revelam os efeitos da pandemia de Covid-19 na educação. O levantamento foi produzido com base na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo os dados, a pandemia reforçou a diferença de aprendizado entre as crianças brancas de 6 e 7 anos e as pretas e pardas. As pretas e pardas que não sabiam ler e nem escrever passaram de 28%, em 2019, para até 47%, em 2021. Já entre as brancas o aumento foi de 20,3% para 35,1% no mesmo período. “É preciso priorizar a educação, fazer muito mais do que tem que sido feito. Estabelecer ações desde já para minimizar esses efeitos. E atender essas populações que estão em situação de vulnerabilidade, com ações de recuperação, de recomposição de alfabetização que essas crianças tanto precisam”, relata a professora

Houve ainda crescimento das desigualdades entre as crianças que residem em áreas mais ricas na comparação com as que moram em regiões mais pobres do país de 2019 a 2021. Segundo a pesquisa, o percentual das que não sabiam ler nem escrever aumentou de 33,6% para 51% entre as mais pobres. Já entre as crianças mais ricas, o impacto na alfabetização foi menor, ainda assim passou de 11,4% para 16,6% no período.

“O cenário é alarmante, preocupante, mas foi feito com base na percepção dos pais e não em avaliações. Os dados já eram ruins em 2019, a pandemia agravou os desafios e trouxe outros novos. Os números aumentaram por causa do fechamento das escolas por muito tempo no Brasil e o impacto teria sido menor se o ensino remoto tivesse funcionado melhor, mas não chegou para todos, menos ainda para os pobres, pretos e pardos”, revela Ivana Ribeiro.

Os números demonstram que a situação fica ainda mais preocupante em relação às crianças que se encontram em maior vulnerabilidade econômica. Elas nem sempre tiveram acesso à internet, computadores e faltou até treinamento aos professores. “Os efeitos são graves e profundos, então não serão superados com ações pontuais. As Secretarias de Educação precisam oferecer um apoio muito bem estruturado à gestão escolar e aos professores, que já estão com imensos desafios”, ressaltou Ivana.

Vanusa Alves, mãe de Marcelly, de 7 anos, Desireé, de 10, diz que viveu isso na pele ao ver a diferença na alfabetização da mais nova. Marcelly fez o primeiro ano do ensino fundamental em 2021, já durante a pandemia, em uma escola municipal de Goiânia.

“Ela fazia as atividades em uma plataforma digital, mas quase não teve aulas. Ela dividia o celular com a irmã e eu auxiliava na hora das atividades. Mas não é a mesma coisa que estar numa sala de aula, com um professor sanando as dúvidas e ajudando no dia a dia”, diz ela.

Umas das diretrizes do decreto de 2019 que instituiu a Política Nacional de Alfabetização foi a priorização da alfabetização no primeiro ano do ensino fundamental, o que não aconteceu com Marcelly.

“Até hoje ela não sabe ler e escrever com a desenvoltura que se espera de uma criança de 7 anos, mas espero que ela consiga se recuperar esse ano, com a volta das aulas presenciais. Acho que ela vai absorver o que não aprendeu ainda e vai conseguir praticar a leitura e a escrita”, explica a mãe.

Diagnóstico da educação em Goiânia

Para medir o índice de aprendizagem das crianças e adolescentes goianos, a prefeitura de Goiânia aplica uma Avaliação Diagnóstica para alunos matriculados nas instituições municipais. O objetivo dessa avaliação é identificar os impactos da pandemia na Educação e aferir os níveis de aprendizagem no período em que o atendimento foi realizado de maneira escalonada.

De acordo com o secretário municipal de Educação, Wellington Bessa, a Avaliação Diagnóstica é um instrumento importante para que a Prefeitura de Goiânia atinja a meta de alfabetizar todos os estudantes na idade certa. “Essas avaliações são importantes para que a gestão municipal monitore e tenha condições de propor intervenções pedagógicas junto às instituições de ensino”, explica.

Veja Também