Sexta-feira, 03 de fevereiro de 2023

Motoristas de aplicativo apostam na criação de plataforma própria para ter melhor remuneração

Além do combustível, os motoristas têm de arcar com os gastos de manutenção do veículo – impostos, seguro, óleo etc. – e com as taxas cobradas pelas plataformas dos aplicativos

Postado em: 15-03-2022 às 08h19
Por: Redação
Além do combustível, os motoristas têm de arcar com os gastos de manutenção do veículo – impostos, seguro, óleo etc. – e com as taxas cobradas pelas plataformas dos aplicativos | Foto: Pedro Pinheiro

Por Sabrina Vilela

A alta dos preços dos combustíveis tem impactado diretamente no trabalho dos motoristas de aplicativos. Por conta do baixo valor recebido por viagem e o preço exorbitante dos combustíveis, o presidente da Cooperativa dos Motoristas do Transporte Privado do Estado de Goiás (Coop-GO), Marcelo Conrado, anuncia que continuará ocorrendo uma debandada dos motoristas das plataformas Uber e 99 Pop – as mais populares –, e que a categoria pretende também criar aplicativo próprio.

A Petrobrás anunciou na semana passada a alta nos preços dos combustíveis: a gasolina aumentou 18,77%, diesel 24.9% e gás liquefeito de petróleo (GLP) de 16.06%. Esse aumento refletiu diretamente no valor final que o motorista recebe, pois os aplicativos ficam com uma média de 40% do valor da viagem. Além do combustível, os motoristas têm de arcar também com os gastos de manutenção do veículo – impostos, seguro, óleo etc. – e com as taxas cobradas pelas plataformas dos aplicativos.

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Os usuários dos aplicativos já perceberam a diminuição da quantidade de motoristas, pois o tempo de espera para conseguir um veículo aumentou, e as tarifas estão mais caras. No período pré-pandemia, em 2019, atuavam em Goiás mais de 30 mil motoristas. Atualmente são cerca de 5 mil, segundo informa Marcelo Conrado.

O presidente da Cooperativa informa que atualmente o número redução de motoristas está em cerca de 65%, mas acredita que logo ultrapasse os 70%, por causa da alta no combustível. “Realmente não está compensando, porque as principais operadoras que os motoristas trabalham não corrige esse custo operacional e atinge a população como um todo”, pontua.  

Aplicativo próprio

Insatisfeitos com as plataformas, os motoristas de aplicativo apostam na criação de plataforma própria como maneira de diminuir gastos e aumentar os lucros. O presidente da Cooperativa afirma que a ideia já está em negociação. “Nós finalizamos um projeto agora em que a Organização das Cooperativas do Brasil (OBG) vai buscar a capitação de R$1 bi para construir a nossa própria usina de etanol. Acreditamos que essa é uma maneira de ter uma redução de custo bem considerável”. 

Conrado explica que o aplicativo irá ajudar o motorista a ter um lucro mais justo visto que será levado em consideração valor de deslocamento. Além disso, não será cobrada taxa mensal e haverá isenção de pagamento de custo operacional. Além do aplicativo próprio, a entidade que representa a categoria quer investir em usina de etanol. 

A Cooperativa iniciou há mais de um ano este projeto que, segundo o presidente, serão necessários cerca de dois anos para capitar o dinheiro necessário para o projeto até a sua execução.  Conrado afirma que a parceria com iniciativa privada já está em negociação com investidores e acredita que o modelo goiano pode crescer a nível nacional. Em Goiás, mais cinco mil motoristas por aplicativo serão beneficiados.

Sentindo na pele

José Carlos Filho é motorista de aplicativo há mais de dois anos e confessa que se espantou com o aumento dos combustíveis anunciado na última semana. “Tive amigos que já abandonaram a profissão porque usava carro alugado. Com o combustível caro como está, fica mais difícil de se manter no ofício”. 

De acordo com José Carlos, o problema é maior porque ainda não foi feito reajuste no valor das corridas e ele acredita que apenas irá conseguir continuar na profissão se receber algum auxílio. “Se não tiver uma ajuda do governo não vai compensar não. Meu carro é financiado e está com uma parcela atrasada porque o que eu estou recebendo é insuficiente”, relata.

O motorista explica que gasta em média R$180 de gasolina por dia para trabalhar com as corridas, mas que agora tem que colocar um pouco mais, se quiser ficar mais tempo trabalhando. “Quando está quase acabando a gasolina do dia, é hora de ir para casa”, explica. 

Quem também reclama é o motorista Juliano Kécio Veras Militão, que está tentando se adaptar para não ter que abandonar o ofício. “Já estou mudando minha rotina para não parar, porque primeiro que é uma forma de contribuir com a sociedade e outra que gosto muito de dirigir. Sendo assim, vou fazer o máximo que puder para não ser menos um motorista na plataforma”, afirma o motorista, que está atuando no ramo há três anos.

Usuários

Os usuários de carro por aplicativo também já estão sendo afetados por conta da alta dos preços dos combustíveis, o que impacta na diminuição frota e no aumento do valor da viagem. O publicitário Thiago Xistos tem os aplicativos de transporte como principal meio de locomoção há mais de cinco anos e usa todos os dias pelo menos duas vezes. 

“Desde que os aplicativos chegaram na cidade nunca mais usei transporte público ou particular. A decisão foi justamente pelo fato da economia gerada. Há cinco anos era bem mais viável usar esse tipo de transporte”, conta. “O valor tem variado bastante. Há até quatro meses atrás eu pagava uma média de R$11,00 por um trecho, pelo qual atualmente eu pago em média R$14,00, ou seja, um aumento significativo”.

Além de sentir no bolso o desfalque, o publicitário também relata a dificuldade de conseguir motorista, pois a cada dia menos profissionais atuam dirigindo carros de aplicativos. “Para conseguir chegar no horário correto no trabalho, tenho de começar as tentativas de buscar por um motorista bem mais cedo , explica.

Vale-gasolina

O Senado aprovou nesta quinta-feira (10) a criação de vale-gasolina de R$ 300 para motoristas e motociclistas de aplicativos, taxistas e pilotos de pequenas embarcações e de R$ 100 para os motoristas de ciclomotor ou de motos de até 125 cilindradas. 

O benefício foi incluído no projeto que cria a Conta de Estabilização de Preços, uma espécie de fundo de compensação para impedir aumento dos combustíveis com a alta do petróleo e do dólar (PL 1472/2021). 

Um dos autores da iniciativa, Alessandro Vieira (Cidadania-SE), explicou que não há impedimento na legislação eleitoral, por se tratar de concessão em momento excepcional. O projeto, que também dobra o número de famílias que receberão o auxílio-gás, segue para a Câmara dos Deputados.

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