Greve na Educação se arrasta por falta de acordo com Paço e alunos são prejudicados

Postado em: 30-03-2022 às 08h00
Por: Daniell Alves
Responsáveis estão tendo que se desdobrar para conciliar a rotina com os filhos e o trabalho | Foto: Reprodução

Após 15 dias do início da greve na rede municipal de ensino de Goiânia, os pais estão enfrentando dificuldades para trabalhar e cuidar dos filhos. Os responsáveis tiveram que encontrar alternativas para continuar trabalhando. As mães ouvidas pela reportagem estão receosas com o futuro cenário de greve, que não tem previsão para terminar. Isto porque ainda não há sinalização de acordo entre a Prefeitura de Goiânia e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego). 

A dona de casa Ana Cecília Cardoso, 26 anos, afirma que tem sido difícil cuidar do filho com as paralisações contínuas na Educação. Ela tem um filho autista, de 5 anos, matriculado em uma escola da Capital. Três vezes por semana ela precisa levá-lo à sede da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Goiânia (Apae), mas não tem conseguido por falta de assistência financeira. 

Ana revela que o filho está entediado dentro de casa. Como ela tem um bebê recém-nascido, não consegue brincar com ele na maior parte do tempo. A unidade que o filho estuda não aderiu totalmente à greve, porém tem participado das mobilizações. “É difícil porque meu filho não come qualquer coisa, depende muito do cheiro e da cor, tem todo um cuidado”, explica. 

Durante o dia, o marido dela vai para o trabalho e ela fica com os filhos. “Antigamente, tinham pessoas da minha família para olhar, só que depois da pandemia todos ficaram mais receosos, o que acabou gerando um afastamento. Aumentou tudo, as coisas estão bastantes caras. A nossa vida mudou bastante, eu tive que sair do meu emprego. Meu marido estava desempregado e somente agora voltou a trabalhar”, pontua. 

Outra mãe teve que deixar o filho com a avó no interior para que pudesse trabalhar. Em vídeo publicado nas redes sociais, a avó fez um vídeo de desabafo direcionado ao prefeito Rogério Cruz. “A gente vai fazer uma mobilização para ir com as crianças e deixar elas para você cuidar, prefeito. Por que você não valoriza os professores? Por que você não da esse aumento que eles tanto necessitam?”, questiona. 

Já a lojista Déborah Lia, mãe do aluno Benjamin, de 2 anos, do Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Lygia Rassi, embora também tenha mudado a rotina por conta da greve, afirma que apoia a paralisação da categoria. “Eu entendo e apoio que eles devem exigir os seus direitos até porque a profissão exige muitos deles. Cuidar de criança não é fácil”. O bebê tem ficado com o pai na maior parte do tempo, que consegue conciliar os cuidados com o trabalho. 

Diálogo

A presidenta do Sintego, Bia de Lima, ressalta que a entidade está aberta para uma nova proposta da prefeitura. “Os profissionais da Educação querem trabalhar, a Prefeitura de Goiânia tem que ser exemplo e valorizar todos que fazem a Educação na capital. Completamos 15 dias de greve e o Prefeito parece que não se importa em resolver a situação. Em nenhum momento recebemos contato para audiência na Secretaria Municipal de Educação (SME) ou na Prefeitura”. 

O Sindicato mantém o percentual de 33,24% para o reajuste salarial conforme estabelecido pelo Governo Federal. Por outro, a SME ainda aguarda finalização de cálculos por parte da Secretaria Municipal de Finanças (Sefin) para apresentar uma nova proposta aos profissionais. “Existe uma Lei Federal que define que, todo início de ano, o Ministério da Educação (MEC) deve anunciar o percentual de reajuste e, neste ano, foi 33,24%. […] Toda vez que tem lei que é para melhorar o salário dos professores, cria-se essa dificuldade toda e tudo quanto é argumento para contrapor e não respeitar a educação”, afirma Bia de Lima. 

Os trabalhadores da Rede Municipal de Educação deflagraram em Assembleia no dia 15 de março, a greve das unidades educacionais. Data-base acumulada há três anos dos administrativos, não aplicação do reajuste do Piso dos professores na carreira, gerando grande insatisfação. “O Sintego junto com a categoria realizou panfletagens em terminais, feiras livres, atos no Paço Municipal, MP, SME, IMAS, Câmara dos Vereadores,  TCM (Tribunal de Contas dos Municípios) e em todas as regiões da capital com as Caravanas passando por CMEIs e escolas, todos defendendo os direitos não respeitados pelo Prefeito Rogério Cruz”, informa o Sindicato em nota. 

A continuidade da greve também é confirmada pelo presidente do Sindicato Municipal dos Servidores da Educação de Goiânia (Simsed), Antônio Gonçalves. “A Prefeitura está sem apresentar nenhuma proposta para os trabalhadores. Por enquanto não foi oficializado uma reunião com a comissão de negociação. Devido à falta desse acordo fizemos um ato no Paço que contou com cerca de 1 mil pessoas. A greve continua!”, destaca. Ambos sindicatos não informaram a quantidade de unidades que aderiram à greve e nem a estimativa de alunos afetados. 

SME ainda não apresentou nova proposta  

Com a recusa da categoria para o percentual de reajuste em 9,3%, a SME informou que ainda não tem uma nova proposta. “Os novos cálculos estão levando em consideração a capacidade orçamentária e o limite prudencial da folha de pagamento do município. Por enquanto, a SME Goiânia defende a ampliação do diálogo e que compreende as demandas da categoria”, disse em nota.

A pasta esclarece que os salários dos professores de Goiânia não estão “aquém” da realidade nacional. “Hoje, sem o reajuste proposto pelo município, a média salarial de um professor da rede pública municipal é de R$ 6.083,11, valor substancialmente acima do piso nacional”, afirma. 

Também ressalta que Goiânia vai cumprir integralmente o piso atualizado em 2022 pelo Governo Federal, com o reajuste de 33,2%. Para os professores que recebem acima do piso, o aumento salarial proposto é de 7,5%. “Portanto, nenhum professor, em Goiânia, irá receber abaixo do piso, que será de R$ 3.846,63 para 40 horas semanais. É importante ressaltar que a folha de pagamento da SME Goiânia é de R$ 1,073 bilhão. Com o aumento reivindicado pela categoria, a folha iria ultrapassar todo o orçamento da Educação, que é de cerca de R$

1,5 bilhão”. 

A pasta reforça, também, que as aprendizagens dos alunos foram comprometidas pela pandemia e que a paralisação das atividades aprofunda ainda mais os prejuízos vivenciados pela educação.

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