Atividades turísticas no Parque Estadual do João Leite podem comprometer qualidade da água e abastecimento

Postado em: 19-04-2022 às 08h32
Por: Daniell Alves
Especialistas apontam que proposta deve ser discutida com cautela; Semad afirma que impactos serão mínimos | Foto: Reprodução

A possibilidade de transformar parte do Parque Estadual do João Leite (Pejol) e Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco (Peamp) para atividades de lazer e esportivas podem comprometer a qualidade da água e a segurança do abastecimento à população, avaliam especialistas. A Secretaria de Meio Ambiente do Estado (Semad) realizou ontem (18) audiência pública para discutir o assunto. 

As propostas de uso público e manejo dos locais estão em debate desde que a Semad abriu consulta pública para trabalhar a viabilidade de criar zonas de turismo nas duas unidades de conservação. 

De acordo com a pasta, os espaços oferecem grande potencial de uso público em virtude da proximidade à Capital, pela ótima estrutura viária e pela intermunicipalidade dos parques. As duas Unidades de Conservação (UCs) fazem parte da barragem do Ribeirão João Leite, criada pelo Estado. A meta é garantir o abastecimento público da região metropolitana de Goiânia até 2025.

Para a arquiteta e urbanista, presidente da Associação para Recuperação e Conservação do Ambiente (Arca Goiás), Maria Ester de Souza, a proposta é ruim. “Algumas destas atividades já são praticadas, como trilhas de bicicleta e espaços de visitação. É preocupante o fato de ser apresentado um plano de uso que autoriza o aumento e diversidade de uso”, explica.

A presidente da Arca Goiás acrescenta que a proposta coloca em risco a qualidade da água e a segurança do abastecimento. “A prática ou atividade humana esportiva gera resíduos e as pessoas vão fazer uso da água como banheiro. Além disso, há uma liberação para parcelamento de solo, que indica índice de ocupação de impermeabilidade”, aponta. 

No documento, entre as propostas estão: a liberação para visitas de observação de fauna e flora, atividades de educação ambiental, ciclismo, arvorismo, mountain bike, tirolesa e atividades esportivas na água, como stand up paddle, caiaque, remo e aquaball. A pesca esportiva também poderia ser permitida.

Embora o plano apresentado apresente uma ideia com expectativa de manutenção, monitoramento, educação ambiental e reflorestamento, a arquiteta aponta que, ao mesmo tempo, flexibiliza o desmatamento com abertura de loteamento rural. “Isso é extremamente negativo, uma área que deveria ser protegida pelo menos nas margens para que a gente tivesse qualidade na água. O potencial de uso público é de visitação e educação ambiental, mas não de uso da água para prática esportiva. Se tem um potencial é para nos livrar da sede no futuro”, finaliza. 

Poluição do solo e subsolo

Do ponto de vista ambiental, a grande preocupação é a poluição dos recursos hídricos, do solo e subsolo, explica Germano Augusto de Oliveira, engenheiro ambiental e assessor técnico da Associação Goiana de Municípios (AGM). “Dependendo da atividade que for permitida, pode contaminar o lençol freático, a exemplo indústrias de grande porte e poluentes que depois do tratamento precisam ser despejados em algum local, que será na água ou terra”, avalia. 

“Já outras atividades, como loteamento, tem que ser muito bem tratado em virtude do esgoto. Para onde será lançado os dejetos? Se for em curso da água poderá causar algum tipo de degradação ou contaminação e prejudicar a qualidade da água”, pontua Germano. 

A parte positiva, cita ele, seria o local de conservação como atração turística, visitação da fauna e flora e educação ambiental. “Essas partes de equipamentos sem uso de combustível são positivas, já que há interação do homem com a natureza”. Quanto aos impactos negativos, há potencial de risco de contaminação por alguma das atividades que use combustível ou instalações que possam contaminar após o tratamento. 

“Eu vejo a possibilidade com muita cautela, deve ser mais bem discutido com a sociedade e municípios que estão em torno do João Leite. Tem que ser visto com olhar clínico para que não tenha contaminações futuras irreversíveis”, aponta.

Atividades devem ser reguladas para minimizar impactos 

Caso o local comece a ter atividades destinadas ao lazer, os serviços devem ser regulados para minimizar os impactos ambientais. É o que explica a titular da Semad, Andréa Vulcanis. “Terá um plano de manejo e uso público para definir como vai ocorrer a visitação e que tipo de equipamento poderá ser usado”. 

De qualquer modo, segundo ele, a previsão é que o turismo cause baixíssimo impacto ambiental ao reservatório. “Não pode haver embarcação motorizada ou atividades que causem queda das margens do reservatório. Os estudos também vão decidir o máximo de pessoas permitidas por dia”, explica. 

O objetivo da proposta é reconfigurar a relação das pessoas com a natureza. “Há todo um cuidado que deve ser feito com relação à qualidade da água para que na vida comum as pessoas valorizem e estabeleçam as relações com o meio ambiente”,explica Vulcanis. 

Vulcanis aponta que no local não existem trilhas adequadas, placas ou lanchonetes para o visitante poder ter um dia confortável. “A visitação nos parques é pequena porque não tem estrutura adequada”. Para reverter este cenário, seria necessário ter iniciativa privada para administração. 

“Estabelecer trilha onde o visitante tem que pisar naqueles locais, além de investimentos para que tenha segurança e qualidade. É um projeto vantajoso. O parque continua público, porém a visitação em si, de turismo, os serviços prestados, o Estado não tem condições de manter. Tudo isso são atividades que demandam especialidade e acompanhamento”, destaca. 

Segundo a titular da Semad, com a mudança, as pessoas poderão estar mais próximas da fauna e flora para diminuir os conflitos históricos, como a pesca predatória. “O próprio visitante passa a ser um fiscal”, alerta. 

Em nota ao jornal O Hoje, a Companhia de Saneamento de Goiás (Saneago) informa que estão ocorrendo estudos para avaliar possibilidades de uso contemplativo no Reservatório do Ribeirão João Leite. “De qualquer forma, ainda não houve um parecer final. Portanto, até o momento, não há mudanças em relação ao uso do reservatório. Frisamos ainda que a Saneago está participando das discussões e oficinas que tratam do tema”, afirma. 

Consulta pública 

A Semad abriu no dia 25 de março o período de consulta pública para os Planos de Uso Público e de Manejo do Pejol e Peamp. Até o dia 28 de abril, qualquer pessoa pode opinar e dar sugestões a respeito das propostas no site da pasta. O Peamp é uma Unidade de Conservação (UC) de Proteção Integral criada pela Lei Estadual no 11.878 de 30 de dezembro de 1992.  

O local também possui sítios arqueológicos que abrigam vestígios da presença de povos indígenas que viveram na região entre 15 e 5 séculos atrás. Além disso, o Parque é uma área de proteção do Reservatório do Ribeirão João Leite, fonte de água para mais de um milhão de pessoas da Região Metropolitana de Goiânia.

Já o Pejol tem como objetivo preservar a qualidade das águas do reservatório de captação de águas para abastecimento público de Goiânia e Região Metropolitana, a flora e fauna, as belezas cênicas. 

Além disso, tem o papel de controlar a ocupação do solo na região, podendo conciliar a proteção da fauna, flora e das belezas naturais com a utilização para fins científicos, bem como para o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental.

Compartilhe: