Apesar do recuo, cesta básica ainda pesa no orçamento das famílias brasileiras

Postado em: 14-06-2022 às 08h04
Por: Sabrina Vilela
Itens como carne, leite e hortifrúti eram considerados indispensáveis nos carrinhos, mas tem sido os vilões na hora da compra |Foto: Arquivo pessoal

Com a inflação na casa dos 11,73% e pressionando a renda dos brasileiros, o presidente Jair Bolsonaro pediu que empresários do ramo dos supermercados reduzissem o lucro sobre os itens da cesta básica. Mesmo que o pedido fosse atendido, o clamor pode não surtir nenhum efeito para o consumidor já que a renda dos trabalhadores segue em queda e cada vez mais o poder de compra é menor.

O trabalhador que vai ao supermercado precisa criar estratégias para que o salário no fim do mês consiga comprar ao menos os itens básicos. Apesar da redução de -0,32% na inflação dos itens de alimentação do mês em Goiânia, garantir comida na mesa tem sido cada vez mais difícil. Em março, o consumidor tinha que tirar quase 60% do salário mínimo para comprar uma cesta completa, com 29 itens. A variação do preço dos produtos foi superior a 20%.

O pão francês, por exemplo, variou para cima pelo segundo mês consecutivo. Em Goiânia, o aumento foi de 7,74%. Já o leite longa vida registrou aumento de preços em 17 cidades, entre abril e maio. As maiores elevações ocorreram em Natal (7,63%), Recife (7,42%) e Vitória (6,80%). O crescimento da exportação, a queda nas importações e a entressafra reduziram a quantidade de leite disponível e influenciaram a valorização dos derivados lácteos, como o queijo muçarela e o leite UHT. 

O economista Everaldo Leite explica que a cadeia da inflação não começa nos supermercados e que o pedido pode gerar incertezas econômicas futuras. “Há uma grande concorrência entre as empresas, que já estabelece uma margem de lucro de competição, não há como reduzir a margem de lucro sem comprometer o planejamento dos empresários”, comenta.

Itens como carne, leite e hortifruti, em geral, eram considerados indispensáveis nos carrinhos de compra de qualquer cidadão. Mas a alta dos preços tem feito com que cada vez mais o brasileiro reduza a qualidade da alimentação. Na semana passada, uma pesquisa identificou que 33 milhões de cidadãos estavam em situação de insegurança alimentar, quando não há o acesso a uma alimentação balanceada e/ou adequada, ou em situação de fome.

Os consumidores têm se adaptado como podem. Uma das opções tem sido a compra por produtos de marcas secundárias e não tão famosas. Outros buscam por comprar produtos com embalagens danificadas ou próximas do vencimento.

Foto: Pedro Pinheiro

Alternativas

A autônoma Stephany Santos Ribeiro teve que recorrer às  cestas básicas disponibilizadas pelo governo em 2021 quando a sua situação financeira ficou pior. Ela perdeu o emprego como auxiliar de saúde bucal e teve a ideia de trabalhar por conta própria com personalizados, mas como ela ainda não recebe o retorno que espera ela complementa a renda fazendo faxinas. Para ela, pegar cestas sem custo ajudou muito nesse momento difícil. “Supri demais as minhas necessidades quando eu consigo pegar as cestas básicas no Cras [Centro de Referência de Assistência Social] e como moro sozinha e como pouco dura muito aqui em casa”.

Segundo a autônoma, quando ela consegue pegar as cestas, economiza em média R$120 por mês que investe em outros itens como os de limpeza, e as misturas. Por conta do aumento de alimentos necessários, ela não consegue comprar carne há alguns meses. “Agora eu como mais ovo e frango. Mas, por conta da falta de carne e a falta de tempo para comer na hora certa por causa das faxinas que eu pego, acabei desenvolvendo anemia. Mas, sem condições para a carne comecei a comprar fígado que antes custava R$13 o quilo e agora está R$20”, lamenta.

Outra pessoa que não perde a oportunidade de pegar as cestas é a cabeleireira Stephanie Alves que mora com o marido que é gari, Fernando Alves. Mesmo com os dois trabalhando fora está difícil conseguir fazer boas compras todo mês. “Hoje as coisas estão caras demais, então pegar essas cestas ajudam muito. Mas, eu não pego sempre porque o Cras dá prioridade para famílias mais humildes e se sobrar que estende para mais pessoas que precisam. Porém, tem que ter cadastro lá para conseguir”, conta a cabeleireira que chega a economizar cerca de R$200 por mês com as cestas básicas. Ela também afirma que o que ajuda muito é o feijão que o marido recebe. “O serviço dele tem parceria com a Embrapa e ele consegue pegar pacotes de feijão de vez em quando”. 

Brasileiro deveria ganhar pelos menos R$6 mil para manter o básico

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, desacelerou para 0,47% no mês de maio, após alta de 1,06% em abril. O acumulado em 12 meses é de 11,73%. Acompanhar sempre essa atualização do IPCA é necessário porque pode afetar o poder de compra. 

O economista Everaldo Leite destaca o que esses números significam para os goianos. “A desaceleração está muito aquém do necessário, não sendo suficiente para alentar os consumidores. Apesar de uma taxa de juros altíssima, a inflação se mantém num patamar constrangedor. A questão é que os juros não estão sendo eficientes contra uma inflação de custos, que advém especialmente do setor de transportes e de alimentos, cuja precificação está vinculada direta ou indiretamente a preços internacionais e redução forte do estoque regulador. Com o aumento da inflação norte-americana, com a continuidade da guerra na Ucrânia e com a desorganização das grandes cadeias produtivas por causa da Covid, o que se pode esperar é que a nossa inflação continuará pressionada para cima e que a população mais carente sofrerá ainda mais até o final deste ano”.

Leite afirma ainda que de acordo com o Dieese, o salário mínimo ideal para o país deveria estar acima dos R$6 mil, mas sabemos da impossibilidade disso, especialmente por causa do impacto de um aumento assim nas contas públicas. Todavia, ele destaca que o salário mínimo precisaria aumentar de forma real, para que o cidadão trabalhador consiga acessar os bens e serviços básicos de uma sociedade industrial e urbana. “O salário precisa crescer para superar o que foi corroído pela inflação e também para influenciar no aumento do poder de compra da população. Isso é importante para incentivar o setor empresarial a fazer novos investimentos e empregar mais trabalhadores. Da forma como está, continuaremos com uma economia estagnada, inflacionada, com baixíssimos investimentos e altíssimo desemprego”, explica.

O especialista conta que quanto mais rica é uma família, menor é o impacto dos gastos com alimentação, enquanto que, quanto mais pobre, maior é o percentual de gastos com alimentação no orçamento familiar. Uma pesquisa publicada na Folha de São Paulo mostra que, no Brasil, as classes C e D gastam 36% da sua renda em supermercados, especialmente com alimentação. Em todos os estados, mesmo entre os que mais produzem alimentos, os gastos com alimentação vêm crescendo muito, por causa da inflação, e é possível que o impacto disso no custo de vida das famílias mais pobres já esteja atingindo fortemente os outros gastos essenciais da casa, como contas de energia, água e aluguel conforme afirma o economista Everaldo Leite.

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