Número de trabalhadores autônomos tem crescido desde a pandemia

Dados da Dieese apontam que rendimento de autônomos durante a pandemia equivalia a 69%

Postado em: 16-06-2022 às 08h24
Por: Sabrina Vilela
Dados da Dieese apontam que rendimento de autônomos durante a pandemia equivalia a 69% | Foto: Pedro Pinheiro

Desde o início da pandemia, com o fechamento das empresas devido ao isolamento social, o número de pessoas desempregadas cresceu. Outra estatística provocada pelo vírus, foi a de pessoas autônomas. Goiás fechou o ano de 2021 com uma taxa de desemprego de 11,3%, menor que a de 2020 (12,7%), primeiro ano da pandemia, porém mais alta do que a 2019 (10,7%), de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar Contínua (PNAD Contínua). 

Trabalhar por conta própria foi uma forma de amenizar os impactos financeiros atrelados à pandemia. Informações da Dieese apontam que trabalhadores desta categoria retomaram o patamar pré-pandemia no primeiro trimestre de 2021, já o total de ocupados somente do quarto trimestre do mesmo ano. 

No final do ano passado , o número de ocupados alcançou  o patamar de 0,2% a mais que no mesmo período de 2019. Contudo, os autônomos cresceram cerca de 6,6% no mesmo período, como é o caso da boleira Helen Cristina Araujo,27, que resolveu investir no ramo alimentício e criou o “Menina Boleira” bem no auge da pandemia em julho de 2020.

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“Antes eu trabalhava com vendas informais e diante da pandemia, com tudo parado, vi que eu precisava de um empreendimento que me trouxesse renda em casa.

Sempre quis trabalhar pra mim mesma,  conciliar trabalho com outras responsabilidades,   sabendo que eu poderia ter minha renda sem ter que trabalhar fora, mas ao mesmo tempo ter prazer na minha atividade”, conta a profissional. 

Para dar os passos iniciais precisou de esforço e dedicação. “Todo começo é um desafio. Primeiro a incerteza de será que vai dar certo? Mas aprendi a dizer algo que me motiva até hoje: ‘Tá com medo,  vai com medo mesmo’”. Hellen se arriscou mesmo tendo o medo da maioria dos autônomos que é a incerteza se vai conseguir trabalhar a fim de garantir o sustento, mas ela aponta que os segredos são bom planejamento,  foco e esforço. 

“Meu rendimento está bem melhor. Trabalhando para os outros você sabe que é aquele valor limitado todo mês.  Trabalhar pra gente é saber que você pode estabelecer metas infinitas e ver o resultado dos seus esforços diariamente. Hoje consigo lidar com as despesas de casa, fiz investimentos em novos  equipamentos, e estou ajustando meu ambiente de trabalho (delivery) dentro de casa mesmo”, afirma.

Hellen Cristina Araújo já se preocupou em fazer o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) por se preocupar com a legalidade. “Eu já possuo CNPJ . Eu tenho uma empresa então encaro ela como uma responsabilidade, sou Mei [Micro Empreendedor Individual]”. 

Já a Naiara Miguel Dias e Paula ,32, resolveu trabalhar com vestuário e começou a empreender por conta própria em agosto de 2021 por meio da Bela Tropycana Moda Fitness. Ela teve a ideia após perder o emprego formal.

“Meu maior desafio foi começar com pouco investimento, por isso comecei com pré-venda, sem estoque. As pessoas escolhiam as peças, daí eu buscava com meu fornecedor e isso se tornou muito desafiador pois na maioria das vezes as clientes escolhiam as peças que não estavam mais disponíveis. Mesmo assim a procura foi crescendo, por isso esse mês estou realizando o meu projeto e estou começando a fabricar minhas próprias peças, porque além de eu ter um estoque agora posso vender por um valor muito mais acessível para minhas clientes”, conta realizada.

Naiara afirma que passa ainda por períodos de incertezas no negócio. “Já passei vários momentos de incertezas, muitas vezes quis desistir, por que nada na vida é fácil ainda mais no começo, já fiquei semanas sem vender”, afirma a autônoma que agora possui faturamento maior do que quando trabalhava.

Mesmo com as dificuldades enfrentadas na hora de pesar na balança, trabalhar por conta própria é melhor. “Trabalhar em casa tem os seus desafios pois temos que considerar como um trabalho normal, nos policiar para dar certo. É muito gratificante ver que seu esforço está valendo a pena e que pouco a pouco estou alcançando minhas metas. Isso também me  proporcionou trabalhar com meu marido e a flexibilidade de poder fazer meu horário é muito bom”. Naiara ainda não possui CNPJ, para assuntos referente a empresa de moda fitness ela usa o próprio CPF até conseguir se estabilizar no trabalho. 

Foto: Jéssica Araújo

Autônomos têm menor rendimento e proteção social 

Mesmo para a maioria que está trabalhando por conta própria, o rendimento médio dos que começaram o trabalho nessa posição nos últimos dois anos equivalia a 69,1% do recebido por aqueles que estavam nessa condição há dois anos ou mais, segundo dados do quarto trimestre de 2021 conforme relatório da Dieese. No caso dos que estavam nessa posição antes da pandemia, o lucro médio era de R$ 2.074, já os mais novos recebem em média R$ 1.434. Os dados mostram ainda o racismo estrutural existente pois quando se trata de empreendedores negros, independente de quando começaram o negócio. 

Quando se trata de informalidade, muitos autônomos não têm como preocupação inicial tentar legalizar a empresa, prestar contas, mas sim apenas ter um dinheiro inicial para investir. Entre os trabalhadores por conta própria que estão nessa condição há menos tempo, 74,2% não tinham CNPJ e não contribuem com a previdência social. Entre os mais antigos, o percentual era de 58,3%. Entre os mais recentes, apenas 12,7% tinham CNPJ e contribuíam com a previdência, enquanto entre os antigos, eram 20,6% nessa situação.

O documento aponta a incerteza do negócio como justificativa para empreendedores não quererem fazer o CNPJ, pois exige uma certa estabilidade por causa de contas mensais a pagar e isso pode acabar gerando um endividamento. O percentual dos que contribuem com a previdência – neste caso está incluso quem é Mei – é de 7,9%, número considerado baixo se levar em consideração o número existente de empresas mais recentes. E 14,9% entre os trabalhadores por conta própria que estão a mais tempo no mercado. 

Fazer essas contribuições servem de proteção ao empreendedor em sentido social já que é uma alternativa de continuar recebendo uma renda em caso de acidente, licença-maternidade, contagem de tempo para aposentadoria –caso a contribuição esteja em dia – entre outros benefícios.

Outro dado importante é das pessoas que resolvem se aventurar na autonomia e procuram por empregos que não exijam maior qualificação profissional – que não precisem de ensino superior ou curso demorado. 

Os mais antigos no mundo do empreendimento são mais voltados para ciências e intelectuais trabalhadores qualificados da agropecuária, florestais, da caça e da pesca; e trabalhadores qualificados, operários e artesãos da construção, das artes mecânicas e outros ofícios. Os mais recentes tinham proporções maiores que os antigos entre os trabalhadores dos serviços, vendedores dos comércios e mercados; operadores de instalações e máquinas e montadores ; e ocupações elementares.

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