Goiás é um dos estados que mais desperdiça talentos no país

Essa desatenção é ainda maior quando observado através da ótica racial, de gênero e regional

Postado em: 18-07-2022 às 07h52
Por: Raphael Bezerra
Essa desatenção é ainda maior quando observado através da ótica racial, de gênero e regional | Foto: Pedro Pinheiro

O estado de Goiás é um dos quatro estados brasileiros que mais desperdiça o talento de crianças e jovens. Apenas 40% das habilidades que um cidadão goiano, nascido hoje, desenvolver ao longo da sua trajetória serão aproveitadas quando ele chegar ao mercado de trabalho. Isso impacta diretamente na renda e oportunidades ao longo da vida. Essa desatenção é ainda maior quando observado através da ótica racial, de gênero e regional. Nos rincões do Estado, o desamparo pode chegar a 47%.

Entre 2007 e 2019 o estado vinha em uma melhora no desempenho de ganho de capital humano e chegou a 4º colocação, segundo o Relatório de Capital Humano Brasileiro (ICH). Entretanto, a crise sanitária e econômica provocada pela Covid-19, inverteu a capacidade de crescimento e derrubou os índices em Goiás. Entre 2019 e 2021, Goiás, São Paulo, Roraima e Pernambuco foram os estados que mais sentiram a queda nos indicadores. Em média, Goiás perdeu 13,1% do potencial nesse período. A educação foi o índice que mais caiu.

Os dados que compõem o ICH são: taxas de mortalidade e déficit de crescimento infantil; anos esperados de escolaridade e resultados de aprendizagem; e taxa de sobrevivência dos adultos.

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A falta de políticas públicas sociais, especialmente para famílias de baixa renda, é um dos principais atores dessa tragédia. As diferenças regionais gritam a necessidade de investimentos maiores para as regiões subvalorizadas. O norte e o nordeste do estado são as regiões onde o talento é mais desperdiçado. 

Desigualdade

Outro dado relevante no Relatório de Capital Humano Brasileiro é a desigualdade racial nos índices. Enquanto a produtividade esperada de uma criança branca era de 63% em 2019, a de uma criança negra era de 56%, enquanto a de uma indígena 52%.E essas discrepâncias estão só crescendo. A desigualdade de ICH entre brancos e negros dobrou entre 2007 e 2019. Goiás acompanhou os dados nacionais.

O talento das mulheres também é mais desperdiçado que o dos homens quando chegam ao mercado de trabalho. Elas chegam aos 18 anos com um potencial acima dos homens, 60% contra 53%. No entanto, elas são menos aproveitadas no mercado de trabalho. Nessa fase, o ICH delas é de 32% contra 40% dos homens.

Dentro do estudo sobre o mercado de trabalho, o cenário é ainda mais preocupante para o Brasil. O Índice de Capital Humano Utilizado no Brasil é de 39%. O ICHU é medido de acordo com o ICH e a taxa de emprego formal e informal no país. A finalidade desse índice é avaliar o quanto do capital humano é de fato utilizado no mercado de trabalho. 

Investir em pessoas

Em entrevista ao O Hoje, o mestre em sociologia e doutorando em ciências sociais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Evandro Cruz Silva, explica que o problema da educação e da saúde nas desigualdades estão diretamente ligados às desigualdades sociais, econômicas e raciais do Brasil. “Sobre a desigualdade da educação, precisamos lembrar que boa parte da educação brasileira foi transformada de maneira obrigatória em Ensino à Distância (EAD) por causa da pandemia. Nesse sentido, precisamos lembrar que menos de um terço da população brasileira tem acesso pleno à educação e este acesso precário à educação está localizado nas camadas mais precárias”, aponta. 

A desigualdade social também afetou o acesso aos serviços públicos de saúde, que foram sobrecarregados durante a pandemia e tiveram como efeito principal uma taxa altíssima de mortes por Covid-19. “A superlotação dos hospitais gerou um efeito colateral de falta de atendimento para outros problemas de saúde, o que ocasionou um risco de vida maior para as camadas mais pobres e que necessitam do serviço público de saúde”, avalia. 

Em ambos os casos, o sociólogo aponta que o racismo estrutural atua como indutor das desigualdades sociais. “Num momento como o atual, em que a pandemia produz uma diminuição geral da produtividade esperada para a próxima geração, vemos que justamente os indígenas e negros são os mais afetados”, aponta. 

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