Brasileiro consome menor quantidade de carne em três décadas

País é o segundo maior produtor do alimento, mas dolarização da mercadoria desestimula o consumidor interno

Postado em: 05-08-2022 às 07h32
Por: Daniell Alves
Principal fator para a queda no consumo do alimento é a renda cada vez mais escassa em um cenário de inflação e crises econômicas| Foto: Reprodução

O consumo de carne bovina deve cair ao menor nível nos últimos 26 anos, com 24,8 kg consumidos por cada brasileiro durante o ano de 2022, apontam dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). De acordo com o estudo, a maior proporção da série histórica foi registrada em 2006, quando havia uma disponibilidade de 42,8 kg de carne bovina por pessoa. Alta no preço e insegurança alimentar são fatores que influenciaram na queda do consumo, avaliam especialistas. 

Cada vez mais distante da mesa dos brasileiros, principalmente daqueles de baixa renda, o consumo da carne começou a cair quando o Produto Interno Bruto (PIB) per capita teve uma redução, conforme explica o analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), Marcelo Penha. 

“A renda está diretamente ligada ao consumo, especialmente para os brasileiros que recebem de um a dois salários mínimos, isso interfere diretamente no consumo da carne”, avalia. Entretanto, nos próximos anos, a previsão é que o país retome a economia. “Isso irá promover impacto no consumo da proteína e acredito que isso pode melhorar a partir de 2023, fortalecendo o poder de compra dos consumidores”, aponta. No quesito, produção de carne bovina o Brasil é líder mundial e vem registrando aumento nos últimos anos. 

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Preço alto

A carne bovina tem se tornado um item de luxo nas refeições. E a tendência pode ser de alta de preço nos açougues. “O custo de produção vem subindo muito, já que a pecuária tem o perfil diferente dos outros segmentos. O porco leva em torno de 120 dias para ficar pronto e a ave cerca de 45 dias. Já o boi demora de dois a três anos”, ressalta. 

Somado a isso, a área para produção desses animais também são bem diferentes e com investimentos distintos. “O processo do frango e do suíno são em sistemas confinados em galpões. No bovino é possível realizar a fase de engorda no sistema de confinamento e a outra parte é extensiva, o que demanda muito investimento de capital. É uma carne que pode ficar cada vez mais cara”, prevê. 

Demanda externa e fatores cambiais 

Mesmo com a redução no consumo por parte dos brasileiros, o mercado de carnes internacional tem ficado bastante aquecido devido à demanda externa pelas compras vindas da China, avalia Luiz Carlos Ongaratto, professor e mestre em economia. “Também temos fatores cambiais, como a desvalorização do real. A carne brasileira ficou mais barata para exportar e, com isso, a produção de carne foi direcionada para fora. Isto fez com que o consumidor brasileiro tivesse que pagar o preço internacional dessa carne”, diz.  

O economista aponta que há diversos relatos de famílias que já deixaram de consumir carne bovina e outras que têm optado por comprar em menor quantidade. “Estão fazendo substituições, seja com frango, carne suína ou também por ovos. Um dos reflexos do crescimento no preço dos ovos é o aumento da demanda por ser um alimento substituto da carne. Então, o consumidor vai misturando outros alimentos na carne e utilizando menos quantidades. Atualmente, a carne tem tido um peso grande dentro da cesta básica e é necessário realizar cortes”, finaliza. 

Substituição da proteína  

Na casa do empreendedor Sérgio Pereira, 43 anos, a carne bovina não deixou de ser consumida, mas houve mudanças nos churrascos tradicionais aos fins de semana. A família tem optado por investir em mais pratos de acompanhamentos. “Já é uma tradição sempre comemorar com um churrasco, mas também não podemos deixar de economizar”, conta ele. 

Durante a semana, as verduras e saladas também estão sendo feitas em maior quantidade. O frango, que tem valor mais baixo, tem sido consumido com mais frequência. “Estamos fazendo novas receitas com carne moída, que dá para fazer almôndegas recheadas, além também do frango. São pratos mais em conta, mas também muito saborosos”, aponta. 

Exportações em crescimento 

De acordo o levantamento da Conab, as exportações de carne de frango tendem a crescer 6% e podem atingir um novo recorde neste ano, ultrapassando 4,7 milhões de toneladas. Também é esperado um aumento para os embarques de carne bovina na ordem de 15%, sendo estimado em 2,84 milhões de toneladas. “Já o mercado de suínos apresenta uma desaceleração, principalmente pelo mercado chinês que vem recuperando paulatinamente sua produção. Com isso, as exportações apontam para uma ligeira queda de aproximadamente 2%, e sendo estimada em pouco mais de 1 milhão de toneladas”.

O analista do IFAG informa que a previsão para esse ano é que a produção do boi vai crescer 3,4%, o frango em torno de 2,3% e o suíno vai cair 2,83%. “No primeiro semestre, o Brasil conseguiu aumentar as exportações de toneladas em cerca de 21,9%, passando de 1 milhão de toneladas. Já as exportações por quilo de carne bovina aumentaram em quase 25%.” Goiás exportou de carne bovina US$ 833 milhões de dólares e isso representa cerca de 18% a mais do que no mesmo período de 2021. Os maiores destinos são: China, EUA, Egito e Chile. 

Produção de aves e suínos 

Para aves, a produção se mantém próxima a 15 milhões de toneladas, o que garante uma disponibilidade per capita de 48,6 quilos por habitante no ano, mostra a pesquisa da Conab. “O índice, que atingiu o maior nível no ano passado chegando a 50,5 kg, apresenta uma ligeira queda de 3%, dada a pequena redução da oferta, aumento das exportações e crescimento da população brasileira”. 

No caso de suínos, é esperada a maior produção para a série histórica, sendo estimada em 4,84 milhões de toneladas, um acréscimo de cerca de 3% na oferta do produto quando comparado com 2021. “Esse cenário contribui para a tendência de leve aumento na disponibilidade per capita de carne suína no mercado brasileiro, saindo de 16,9 para 17,5 kg por habitante/ano, o que implica em maior oferta e pressão de baixa para os preços do produto”. 

Brasil tem 60 milhões de pessoas com insegurança alimentar

Além do aumento no preço da carne, outro fator que interfere na redução do consumo é o aumento da fome no Brasil. O número de brasileiros que enfrentaram algum tipo de insegurança alimentar ultrapassou a marca de 60 milhões de pessoas, atingindo um em cada três brasileiros, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). 

A instituição alertou que o mundo “se afastou” do objetivo de erradicar a fome até 2030. O documento mostra que o número de pessoas que lidaram com algum tipo de insegurança alimentar foi de 61,3 milhões, número alarmante considerando que a população brasileira é estimada em 213,3 milhões.

No país, os últimos números da FAO revelam uma piora sensível da insegurança alimentar. Entre 2014 e 2016, atingiu 37,5 milhões de pessoas — 3,9 milhões em condição grave. Para a organização, a insegurança moderada é medida quando a população não tem certeza sobre a capacidade de conseguir comida e, em algum momento do ano, teve de reduzir a qualidade e quantidade de alimentos. A insegurança grave é entendida quando as pessoas ficam sem alimentos por um dia ou mais. (Especial para O Hoje).

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