Quase 40% dos jovens brasileiros apresentaram sintomas de depressão pós-pandemia

Um a cada três jovens possui níveis de estresse emocional com necessidade de avaliação

Postado em: 08-08-2022 às 08h29
Por: Sabrina Vilela
Psicóloga clínica, Soraya Oliveira pontua que a pandemia adoeceu emocionalmente a população como um todo | Foto: Reprodução

A depressão e a ansiedade têm sido problemas recorrentes entre crianças e adolescentes nos últimos dois anos. O problema se intensificou durante a pandemia da Covid-19. Estudo realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) aponta que 36% dos jovens brasileiros apresentaram os sintomas das doenças emocionais. Para a pesquisa realizada de forma online, participaram 6 mil jovens entre 5 e 17 anos. O resultado é que um a cada três jovens possui níveis de estresse emocional com necessidade de avaliação. 

Designer de sobrancelhas, Geovana Gesteira, 20, começou a desenvolver depressão aos 16 anos, contudo em 2020 ela piorou. “Desenvolvi depressão há quatro anos, mas tive vários piques de ansiedade um tempo antes após a separação dos meus pais”. 

No início da pandemia, Geovana ficou bem ansiosa com a situação, tinha medo que alguém da família pegasse Covid-19, alguém chegasse a falecer e perdesse alguém que amava. A maior dificuldade enfrentada pela designer foi o isolamento social, medida para diminuir a transmissão da doença. 

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“Ver várias dificuldades ao meu redor e eu sem poder ajudar devido a minha saúde mental e a depressão me impossibilitou de ter uma rotina normal. Então, me sentia de braços cruzados sem poder fazer absolutamente nada”. Atualmente o que ajuda ela  a lidar com o problema é ter encontrado um profissional que prescreveu a medicação adequada, fazer terapia a cada 15 dias, manter uma rotina mais leve  e aceitar suas limitações. 

Adoece a alma e o físico 

Resumo divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que no primeiro ano da pandemia de Covid-19, a prevalência global de ansiedade e depressão teve aumento de 25%. O psicólogo e psicanalista Patrick Oliveira, Mestre e Doutorando em Antropologia Social, da Universidade Federal de Goiás (UFG), explica que a depressão é um adoecimento da psíquico / alma e do físico. “Ela desencadeia processos que dilaceram a vida. A questão pontual na depressão é a perda do desejo da vida. Um certo desconforto em prosseguir assegurando o que é fundamental na arte de viver, a força de vontade. 

Ao conviver com a doença, o depressivo perde esse vínculo com a sua própria maneira de viver, aponta o psicólogo. “Esquece sua natureza não conseguindo mantê-la. No aspecto físico e biológico a depressão traz à tona a prostração do corpo, sua inutilidade, sua não necessidade. Por isso perde a fome, a sede, o sono e tudo mais. Neste tempo de pandemia que obscureceu o mundo, os índices de pessoas depressivas aumentam”, avalia.

Alterações de comportamento

Psicóloga clínica, Soraya Oliveira explica que a pandemia adoeceu emocionalmente a população como um todo, principalmente os jovens devido à alteração da rotina, o aprisionamento e contato contínuo com os familiares. Segunda ela, esse hábito durante essa idade normalmente não é tolerado por eles porque as cobranças de uma relação de muita proximidade pode fazer eles se sentirem controlados e monitorados pelos pais no que se diz respeito ao uso contínuo de redes sociais, jogos eletrônicos ou de qualquer coisa que gostam de fazer. 

“A sociedade em si está doente e os jovens que estão em fase de formação de personalidade mais do que nunca precisam de ajuda de profissionais de saúde mental para suportarem a pressão social no que se refere ao ter que dar certo na vida”. 

A especialista destaca ainda que hoje o convívio social e a rapidez devido ao movimento online faz com que tudo ocorra muito rápido. O imediatismo está presente em tudo acelerando o hormônio da ansiedade, o cortisol, que faz mal à saúde como um todo. Isso gera muito estresse, que se transforma em depressão e agressividade, e diante da angústia pode desencadear o uso abusivo de álcool e drogas, que resulta em desequilíbrio emocional, familiar, sexual, profissional, social e econômico, conforme afirma Oliveira. 

“Além de todos os agravantes de uma pandemia e suas sequelas tivemos muitos óbitos  deixando inúmeras famílias em luto com dificuldades de aceitação de uma despedida sem seus rituais devido aos riscos do COVID-19”.

Mudanças após o isolamento 

Soraya Oliveira destaca que a ótica das pessoas foram reavaliadas durante o período de isolamento, muitos saíram diferentes com respeito aos que se refere o que de fato é significativo e quem realmente vale a pena uma convivência, muitos vínculos se fortaleceram mas muitos se desfizeram.

Para ela, as alterações de comportamento são percebidas mas nem sempre valorizadas, os pais normalmente são os últimos a perceberem que o filho está doente ou está em desequilíbrio, a tendência é pensar que algo aconteceu, mas que já vai passar.

Contudo, a psicóloga chama a atenção para que os pais se conscientizem que saúde mental não se banaliza, tem que tratar o que está ocasionando alterações no comportamento e procurar profissionais na área da saúde mental para ajudá-los e iniciar o mais rápido possível uma terapia pois diante dos conflitos e alterações de humor torna-se prioridade o tratamento. 

Com o retorno às atividades  e retomada da vida social muitas pessoas apresentaram sintomas de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão, crises de choro, fobia social, compulsão com grandes dificuldades de novamente se inserir no movimento de vida. 

Ela avalia que embora a pandemia tenha gerado interesse e preocupação pela saúde mental, também revelou um subinvestimento histórico nos serviços. “Os países devem agir com urgência para garantir que o apoio à saúde mental esteja disponível para todos”, sugere.

Sintomas de depressão 

  • Humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia;
  • Desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas;
  • Diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis;
  • Desinteresse, falta de motivação e apatia;
  • Falta de vontade e indecisão;
  • Sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio;
  • Pessimismo, idéias freqüentes e desproporcionais de culpa, baixa auto-estima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte. A pessoa pode desejar morrer, planejar uma forma de morrer ou tentar suicídio;
  • Interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom “cinzento” para si, os outros e seu mundo;
  • Dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento;
  • Diminuição do desempenho sexual (pode até manter atividade sexual, mas sem a conotação prazerosa habitual) e da libido;
  • Perda ou aumento do apetite e do peso;
  • Insônia (dificuldade de conciliar o sono, múltiplos despertares ou sensação de sono

muito superficial), despertar matinal precoce (geralmente duas horas antes do horário . habitual) ou, menos freqüentemente, aumento do sono (dorme demais e mesmo assim fica com sono a maior parte do tempo);

  • Dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarreia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros

Fonte: Ministério da Saúde.

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